S. MATT.--7. 13.

A legua e meia distante dos Olivaes, morava, em antiquissimo, solar, o

morgado de Porto-Alvo, casado com sua sobrinha, filha segunda de uma

nobre casa de Alemquer.

Era mui gentil de sua pessoa a dama, e gozava de preclara fama de

virtudes, até ao momento em que Miguel de Sotto-Mayor frequentou a

familia, muito aparentada com sua mulher.

Se a isenção da morgada do Porto-Alvo degenerou, empeçonhada pelas

seducções do poeta de Villa do Conde, não serei eu quem o affirme;

porém, não terei de que dar contas a Deus, se disser que a sua fama

corria desluzida e mareada á conta d'elle. Aquelles passeios nocturnos,

nos arrabaldes de Porto-Alvo, não eram certamente o que Sotto-Mayor

dizia serem a sua mulher: _exigencias do soffrimento_; exigencias de

intenção ruim é que elles eram.

Leonor, avisada das suspeitas publicas, não teve mão do seu ciume ou

da sua vaidade, que ambas as cousas correm com o mesmo nome. Invectivou

a deslealdade de seu marido, e o impudor de sua prima de Porto-Alvo.

Sotto-Mayor recebeu com desagrado os ciumes de sua esposa, e

despresou-lh'os a ponto de amiudar os passeios a horas mortas.

Aguilhoada pela raiva congenial da sua indole, Leonor escreveu uma carta

anonyma ao morgado, prevenindo-o da deshonra, que lhe rodeava o palacio

de noite, e teria astucia de o visitar na camara nupcial.

O velho fidalgo espantou-se da infamação. Nunca sua mulher lhe

incutira suspeitas, nem de si arguira leveza de espirito. Calou o aviso

como prudente, e sobreroldou as avenidas da sua casa como acautelado.

Era uma das seguintes noites disseram-lhe os vigias que, a distancia de

cem passos, parara um cavalleiro, e se estivera quieto contemplando as

janellas do palacio; e accrescentaram que, por volta d'uma hora,

apparecera atraz da vidraça uma luz, que subitamente se sumira depois

d'alguns segundos.

Eu de mim não tiro conclusões algumas d'esta luz; mas o morgado

tirou-as, e terriveis. Informou-se da janella em que os vigias avistaram

a luz, e pôz ponto nas suas indagações. Duas noites passaram sem

descobrimento. Á terceira, por volta de uma hora, ouviu o velho sua

mulher tossir no leito, paredes meias com o seu, e ao mesmo tempo um

signal convencionado e mui subtil debaixo da sua janella. Ergueu-se de

golpe, passou ao quarto de sua mulher, e viu-a na cama; atravessou um

corredor, e passou, pé ante pé, á sala, cuja era a janella d'onde

fora dado o signal. Quando entrava na sala, viu uma criada com um

castiçal, junta á vidraça. Não fez o mais leve rumor, retrocedeu, e

entrou no quarto da criada, quando ella entrava. Em presença d'um

punhal, estrangulou-se na garganta da moça um pavido grito.

--Morres, se gritas!--disse o morgado com a postura e phrase

de Tarquinio, que não quadra bem aqui, já porque a moça era

solteira, já porque, sendo casada, não tinha geito algum para

Lucrecia--Morres--continuou elle com voz soturna--se me não dizes o que

significa o signal que tens ido dar á janella com a luz!

A criada respondeu, e o morgado retirou-se ao seu quarto, tranquillo

como se houvesse descoberto que sua esposa era uma das virtudes

theologaes em pessoa, e pessoa que fingia dormir profundamente.

Decorreram tres noites depois d'esta.

Foram dias e noites de supplicio para Leonor. A consciencia gritava-lhe.

Aquella carta anonyma podia ser causa á morte de seu marido. Mas o

orgulho, e o coração, talvez, diziam-lhe tambem que ella não merecia

uma infidelidade, e os desprezos que estava soffrendo, por não poder

enfrear o seu ciume.

Na terceira noite, disse ella a Miguel de Sotto-Mayor, com caricia:

--Não vás, meu amigo, não tornes a Porto-Alvo.

--E quem te disse que eu vou a Porto-Alvo?!--respondeu carregando o

sobr'olho.

--Diz-m'o o coração...

--O coração!...--redarguiu sorrindo o marido--O que é o coração!...

O coração não diz nada. O coração é um vaso onde passa o sangue. O

coração, que não é isto e simplesmente isto, é um tolo. Eu não vou

a Porto-Alvo. Vou ao Poço do Bispo onde me esperam alguns amigos para

conjurarmos na derrota do ministerio, e na morte de Agostinho José

Freire.

--Mentes, Miguel!--exclamou Leonor.

--Agradeço a amabilidade, e vou, porque não posso deixar de ir.

--Miguel!--tornou ella com vehemencia e excitada a lagrimas--não

vás... Olha que o tio morgado teve aviso, e elle é mau, e tu ficas um

dia morto.

--Quem o avisou?!--replicou, risonho, o marido--Serias tu? Capaz serias

da calumnia!... Como sabes que elle foi avisado?!

--Sei-o... Não vás, peço-t'o com as mãos erguidas!...--e chegou a

dobrar os joelhos diante d'elle.

--Como queres tu que eu deixe de ir a um compromisso de honra, Leonor? O

meu destino é o Poço do Bispo, já t'o disse.

--Juras-me que não vais a Porto-Alvo?

--_Juro_, dizia Molière.

--Mas lembra-te que Molière cahiu na scena moribundo, quando disse

_juro._

Achou Miguel de Sotto-Mayor engraçada a observação, e despediu-se de

Leonor, beijando-a na testa.

Cavalgou, guiou o cavallo na direcção do Poço do Bispo, e, a grande

distancia, retrocedeu por um atalho conhecido até sahir á estrada de

Porto-Alvo.

Parou Miguel a distancia de meia legua, e reflectiu. «Se o morgado

tivesse sido avisado, já eu teria a esta hora noticia da menor

alteração. É verdade que o signal em duas noites alguma cousa póde

significar; mas tambem é certo que o mesmo caso já se deu, sem

significação alguma. Quem inventou o aviso foi o ciume de minha

mulher.» Depois de tão seguro remate, Sotto-Mayor deu de esporas ao

cavallo, e venceu o espaço em poucos minutos.

Antes d'elle avistar o palacio de Porto-Alvo, é de bom historiador

dizer que o morgado, na madrugada do dia seguinte áquella noite do

punhal, ergueu-se, tornou ao quarto da criada, fechou a porta, e guardou

a chave. Voltando, fechou tambem a porta de sua mulher, e não respondeu

ao modo de espanto com que a sobrinha lhe perguntou a causa de tal

novidade. As comidas eram ministradas a uma e outra, ás suas horas, por

um homem estranho de má catadura, que não respondia a pergunta alguma.

Esta situação durou dous dias, e durava ainda quando Miguel de

Sotto-Mayor fazia galopar o ginete por uma quebrada de cujo topo se

avistava o signal.

Estacára o cavallo na chã, onde o brioso animal já sabia que

descançava. Miguel afagava-lhe o pescoço, e dobrava-se sobre os ilhaes

a examinar-lhe os violentos arquejos, quando, ao erguer a cabeça para

examinar a um raio da lua o seu relogio, dous tiros simultaneos lhe

vararam o peito. O cavallo atirou-se em galões impetuosos ribanceira

abaixo, com o cavalleiro agarrado ás crinas. A poucos passos, as mãos

do cadaver abriram-se, o corpo resvalou ao chão, mas foi de rojo, largo

espaço, suspenso n'um dos estribos.

Ás tres horas da madrugada, os criados da casa dos Olivaes sentiram o

estrepito das ferraduras nas lages do pateo, e sahiu o cavallariço a

amantar e recolher, como de costume, o cavallo. Como não visse o amo,

cuidou que elle havia já subido, como d'outras vezes, deixando o

cavallo com as redeas ao pescoço; mas, relanceando casualmente os olhos

sobre o estribo esquerdo, viu o ensanguentado. Subiu as escadarias,

bateu á porta, e disse para dentro que acontecera uma grande desgraça.

Leonor saltou do leito, e desceu ao pateo a examinar o sangue do

estribo. Fugiu, como seguida por um espectro; entrou no seu quarto com

os olhos esgazeados da demencia, e soltou estas pavorosas palavras:

--Fui eu que o matei!

D'alli em diante, o que ella dizia eram palavras sem nexo, e

blasphemias, acompanhadas de medonhos tregeitos.

Sahiram os criados, uns na direcção do Poço do Bispo, outros na

estrada de Porto-Alvo, por alvitre de um que sabia os segredos de seu

amo.

Os segundos, a tres quartos de legua, ao voltar de uma charneca para um

atalho pedregoso, acharam o cadaver de Miguel de Sotto-Mayor. A

maceração e retalhado do rosto era tal, que escassamente lh'o

reconheceram. Camisa e collete cheiravam ainda a queimados: os tiros

tão á queima-roupa tinham sido apontados, que as mesmas buchas se lhe

pegaram ao sangue empastado do peito.

Volveu um dos criados a buscar a carruagem, que devia transportal-o para

casa. Leonor não atinava a dar ordem alguma para o enterro de seu

marido. A noticia levada a Lisboa, onde então estava Sebastião de

Brito, chamou aos Olivaes algumas familias, a quem as desventuras de

Leonor tinham restituido a antiga estima. Curaram da sepultura, e a

justiça dos seus deveres. Foi a justiça ao local onde estava o morto,

e lavrou o auto. Proseguiu na devassa; mas era tudo escuro e

indecifravel. Entre os parentes da casa, que assistiram ao funeral,

estava o morgado de Porto-Alvo, de casaca preta e aspecto lagrimoso.

Leonor, ao vêl-o, ergueu-se de golpe, apontou-o de perto, e exclamou:

--Foi este o assassino de meu marido.

O morgado abriu a bôca e os olhos, cruzou os braços, circumvagou a

vista por todos, e perguntou:

--A infeliz acho que endoudeceu?... Pobre senhora!...

Os circumstantes confirmaram a suspeita do morgado, e lastimaram-a

tambem.

--Por que não está aqui a mulher que matou meu marido? Onde está a

devassa, que lhe quero gravar na testa um ferrete com sangue?

Estas vociferações augmentavam as probabilidades da demencia.

--Agora diz que foi uma mulher que o matou!...--dizia o morgado--Não ha

duvida! está louca a infeliz senhora!

--Não estou louca, não, scelerado!--bradou Leonor, contorcendo-se nos

braços das amigas--Mataste-o tu, cobardemente, feroz villão! Mataste-o

e cuidas que a boca do morto não ha-de revelar a infamia de tua...

N'este ponto, os labios de Leonor foram cerrados pelos dedos de mão,

que não era de alguma das senhoras, que a estavam a custo segurando.

Leonor olhou de revez para quem lhe fazia a violencia, e viu Maria da

Gloria.

O mesmo foi vêl-a, e lançar-se-lhe aos braços, exclamando:

--Ó minha tia, eu sou muito desgraçada!... Abra-me por piedade o seu

coração, e esconda-me ao espectro do meu remorso...

Maria da Gloria abraçou-a com transporte, e disse ás senhoras e

cavalheiros:

--Eu entendo que não devemos ter minha sobrinha exposta a estes

accessos da sua doente imaginação. Consintam que eu me recolha com

ella ao seu quarto, e haja ahi uma alma piedosa, que nos dispense de

cuidarmos do enterro d'esse infeliz. Vamos, Leonor.

O Romance de um Homem Rico · 第 32 / 43 题