_C'était Ninon de Lenclos qui disa-ti
qu'elle remerciait tous les
soirs, de son esprit, et qu'elle le
priait, tons les matins, de la préserver
des erreurs de son cœur._
MIRABEAU (Lettres à la marquise
de Monnier).
Já Leonor não estava no mosteiro, quando Maria da Gloria, mez e meio
depois da morte de seu marido, chegou a Lisboa. O pae, temendo que a
exasperação a allucinasse até o extremo do suicidio, levou-a para os
Olivaes, e cuidou em amaciar-lhe a braveza com os antigos carinhos e
distracção de amigos e parentes, devotados todos a delir-lhe da
lembrança a imagem do expatriado.
Alvaro, no dia immediato ao da sua chegada, recebeu recado urgente de
João de Mattos, para ir fallar-lhe.
--Chamei-o--disse-lhe elle--para lhe dar o que o senhor Macedo me não
pede: é um conselho. Seu pae, que Deus haja, tinha em vista casal-o com
sua prima Leonor de Brito. O senhor consultou alguma vez o seu coração
sobre este designio de seu pae?
--Sim, senhor, e achei-o conforme aos meus mais ardentes desejos.
--Tem o senhor Alvaro alguma especie de confiança nos merecimentos de
sua prima? Crê que ella o estima?
--Devo suppôr que sim.
--Está n'um erro. Agora o conselho sem preambulos: não case com sua
prima, nem exponha o seu bom coração ao escarneo e á deshonra que
inevitavelmente lhe ha-de vir com o arrependimento extemporaneo. Se não
póde esquecêl-a, converta essa lembrança em estima, e a estima em
virtude: quando a vir desgraçada, ampare-a. Imagine que sua prima ha-de
passar pelos élos d'uma cadêa fatal. Não está nas suas mãos
quebrar-lhe a cadêa; mas a misericordia póde muito, e a caridade faz
milagres. Ainda o chamei para outro fim. Eu vou depois de ámanhã
deportado para Abrantes, á ordem do senhor D. Miguel. Vou ralado de
desgostos, e vaticino que toda a força de minha alma, e a muita energia
que me dá a consciência pura, me não sustenham na queda. Se eu cahir,
e o não tornar a vêr, lembre-se, no longo curso da sua vida, d'estas
lagrimas que viu na face de um velho, e por ellas lhe rogo que, em meu
nome, ajoelhe aos pés de sua santa mãe, e lhe peça perdão para mim
que lhe matei a felicidade de toda a vida.
João de Mattos apertou ao seio o filho de Maria da Gloria, e disse-lhe:
--Vá!... Eu não o verei mais... Na eternidade saberei se sua mãe me
perdoou.
Alvaro appareceu a sua mãe ainda com lagrimas. Interrogado acerca
d'ellas, contou o successo, e fez de joelhos a supplica. Maria da Gloria
ergueu as mãos, e disse em seu coração: «Vós bem sabeis, meu Deus,
que eu perdoo a quantos me fizeram mal; e a este, que peccou, e se
rehabilitou pela contrição da honra, dai vós, Senhor misericordioso,
as consolações que a mim me daes por intervenção de meu filho.» E
accrescentou em voz alta:
--Vai dizer a esse nosso _amigo_ que tua mãe lhe deu este nome.
Pede-lhe licença para saber as intimidades da sua vida. Se elle quizer
emigrar, e não tiver recursos, diz-lhe que és rico: pede-lhe com
encarecimento que t'os acceite. Ouvi dizer á santa de Vairão que seu
sobrinho era pobre, e morreria pobre. Disse-m'o em elogio da sua
probidade. Vai, meu filho, que esse homem perdeu tua mãe para a
felicidade; mas restituiu-t'a para o amor.
João de Mattos ouviu da bôca de Alvaro as textuaes palavras de sua
mãe. Balbuciou muito commovido expressões de reconhecimento, e
apontando para um grande painel, disse:
--Guarde de mim aquella lembrança: o retrato de um pae honrado é um
constante pregão de honra; o do amigo verdadeiro, e inflexivel no
infortunio, é um consolador, quando não póde ser um conselheiro mudo.
Agradeceu Alvaro a dadiva, e ajudou a deslocar o quadro, para o levar
comsigo. Foi esse mesmo o que eu vi nas ruinas dos Olivaes.
D'este probo e desditoso estadista não fallaremos mais. Logrou ser
propheta do seu repouso. Finou-se com pouco tempo de desterro. A sua
ultima carta ao filho de Maria da Gloria era uma reminiscencia dorida
dos dias em que a paixão o ensandecera a ponto de não vêr o abysmo em
que a virtude e a paz d'uma mulher se despenhavam com a honra d'elle.
Esta carta denotava desconcerto de espirito; e, por ser a ultima, de
perto se seguiu o apagar-se aquella grande luz, que de mais, no entender
dos magnates e dos aulicos, alumiava a ignominia e a protervia
d'aquelles que empeçavam na virtude do homem, leal ao throno; mas leal
ainda mais á honra.
Choraram-no Alvaro e sua mãe. Tão afeiçoado lhe era o moço, que
pedira licença a Maria da Gloria para o ir visitar em Abrantes, e
conduzil-o para sua casa, indultada a sentença. Algumas horas,
scismando n'elle, pensava Alvaro em vêr sua mãe ligada em segundas
núpcias a um homem de quem elle já tinha no coração palavras
paternaes, e segura base para o amar e respeitar no futuro com o amor e
veneração de filho. Deu mate a estas doces cogitações a morte; mas a
saudade ficou imperecivel no coração de Alvaro, e a gratidão no
espirito de Maria da Gloria.
Se não cahisse a proposito este incidente, logo de começo teria eu
dito que Sebastião de Brito foi logo visitar sua cunhada, e
offerecer-lhe a sua casa dos Olivaes. A viuva não acceitou, porque a
soledade com seu filho era tudo o que lhe restava bom e acceitavel
n'este mundo. Leonor, algum tanto desvanecida de Miguel de Sotto-Mayor,
cujo silencio de alguns mezes a desmemoriára, e ao mesmo tempo
industriada por amigas e parentas, mostrou affavel sombra ao primo, por
entre uns gestos de tristeza insinuante. Dizia ella que um anno de vida
lhe modificara em muito o genio, e que ainda agora começava a sentir-se
no coração. Recebia carinhosa, ou antes desafiava, os agrados de
Alvaro, já commovendo-se com arte ás saudades com que elle relembrava
o pae, já seguindo-o ás inspirações da vindoura felicidade, e
phantasiando-a com elle na vida do campo, na ausencia dos esplendores
sociaes, e na permutação intima e obscura dos sentimentos de duas
almas apaixonadas. Com Maria da Gloria não era ella menos artificial,
ou encarecendo-lhe as virtudes do filho, ou pedindo-lhe conselhos para o
igualar em merecimentos.
Escutava Alvaro sua prima com assombro e desconfiança; e Maria da
Gloria ouvia a sobrinha, notando-lhe a sagacidade, em que fora
industriada pelo pae ambicioso, e pelas mulheres da roda illustre,
professas no logro e nas fraudes do coração. E d'ahi, o silencio de
ambos no tocante a casamento; e os sustos de Sebastião de Brito, e os
despeitos da filha orgulhosa, á conta d'aquelle silencio.
Seccára a fonte perennal dos recursos do morgado com a morte do irmão
bastardo. A cunhada não se afoutava elle a pedir as grandes quantias,
nas occasiões apertadas; e ainda menos ao sobrinho, o qual, se bem que
tivesse dezoito annos, nada pedia nem acceitava dos grandes haveres de
sua mãe. Lastimava-se o morgado á filha, arguindo-a de ser causa de
tantos desgostos e vexames com o seu proceder. Esta, que os principiava
a sentir em certas faltas que a superabundancia sem regimen faz
conhecer, duplicava as ciladas ao coração do primo e á bemquerença
da tia.
Uma vez estava ella a sós com Alvaro. Este entretinha-se n'esse tempo a
escrever as memorias da sua infancia, e deixára o manuscripto aberto na
mesa de estudo. Pediu Leonor licença para lêr algumas paginas, e elle
hesitou; mas insistiu Leonor tão meigamente que o primo deixou-a lêr
as duas ultimas. Tinham estas referencia aos oito annos de sua idade, e
terminavam assim: «Não esqueceria nunca os dias dos Olivaes, ainda
mesma que da affeição, então nascida, mais odiosa me fosse a
lembrança.» Seguiam-se algumas reticencias.
Leonor depoz o manuscripto, e disse triste:
--Estes pontinhos que significam?
--Nada, minha prima.
--Dás-me licença que eu complete o teu pensamento? Deixas-me
escrevêl-o sobre as reticencias?
--Escreve--disse Alvaro risonho.
Leonor, sem demora de pensar, continuou assim a escripta:
«Aquella criança, innocente e formosa como um anjo aos meus olhos,
n'aquella idade, amava-me, e não sei que amor era o seu, porque o amor
dos anjos deve ser mysterioso, e é. Mais tarde, eu não podia amal-a,
porque não poderá entendel-a. Senti-me enfastiado d'ella, como as
crianças das flôres com que brincam uma hora. Não a esqueci porque a
vejo sempre; mas esquecel-a-hei quando a mulher, que vagamente me falla
nos sonhos, me disser: _Sou eu._ A tua Leonor era o amor da innocencia;
e eu sou a mulher da paixão.»
--Aqui tens--disse ella--Agora, sim; está completa a pagina.
Alvaro leu, fitou os olhos em sua prima, e disse:
--Por que te enganas a ti propria, ou por que me mentes, Leonor?!
--É uma nova injuria que o meu coração te agradece assim...--E
dizendo, beijou-lhe a face e retirou-se.
Ai! Maria da Gloria, como has-de tu combater o veneno corrosivo
d'aquelle beijo?!
João de Mattos, varão justo, que tinhas no tom e no gesto a
modulação e a postura do propheta, as tuas palavras esculpiram-se no
espirito de Alvaro; mas o coração não fora chamado a jurar nas
promessas do espirito!
Venceste, Leonor, venceste!... Uma victoria só te falta: olha se
rebellas o filho submisso contra a vontade da mãe; espedaça os liames,
que prendem essas duas almas; e então levarás a rojo da tua astucia os
mais sagrados deveres do coração.