N'um dos ultimos dias de setembro de 1825, amanheceram embandeiradas as
janellas, e as torres do mosteiro de Vairão. Os sinos repicavam desde
o abrir da manhã. Feixes de murta, e as flores da estação entravam
ás cargas e em taboleiros para o convento. As criadas chilreavam de
janella em janella, e em magotes, á portaria. As religiosas, misturadas
com as moças, e as velhas com as noviças, tinham provisoriamente
rasoirado as jerarchias da posição e dos annos. A criada passava a
correr por diante da ama; a noviça não beijava a mão á prelada; a
prelada consentia que as moças lhe desfolhassem rosas sobre a touca.
Das noviças algumas vestiam trajes masculinos: esta remedava um alferes
de milicias, aquella um desembargador, uma um camponio, outra um
pescador. E á volta de cada qual eram tantos os grupos, quantas as
estridulas risadas, que applaudiam o chiste da noviça mascarada.
Estas folias celebravam um abbadessado, em que devia ser reeleita pela
duodécima vez a prelada, a quem todas davam mais o coração de filhas,
que a submissão de subditas.
Do meio dia em diante, começaram a confluir de diversas estradas uns
sujeitos bem postos sobre as suas cavalgaduras, e de semblantes
radiosos, que de si mesmos estavam dizendo cujos eram, e que altíssimos
destinos alli vinham a cumprir: eram os poetas. D'estes, uns vinham por
convite, outros espontaneos, ou esporeados pelo furor metrico. Uns
tinham alli os seus idealissimos amores; outros já os tinham tido e
encanecido com elles; e alguns iriam com esperanças de merecêl-os.
Poetas de Guimarães eram tres; do Porto um, que valia por muitos, o
celebrado Ferro; de Braga dous conegos em Apollo, e alguns abbades
circumvisinhos; de Villa Real o famigerado Mormo, e o não menos
conhecido Mesquita, cujo nome se laureara entre os contemporaneos da
Universidade.
Quanto pode de Athenas desejar-se,
Tudo o soberbo Apollo aqui reserva;
Aqui as capellas dá tecidas de ouro,
Do bacharo, e do sempre verde louro.
Pelas capellas tecidas de ouro não fico eu; mas que as monjas
hospedavam lautamente os seus poetas das mais raras gulosinas e
carissimos licores com que já de mezes antes enriqueciam a frasqueira,
isso juro eu, e ainda estão vivos alguns, que deram como esgotada a
Castallia, no dia em que os garrafões monasticos seccaram requeimados
pelo sol ardente da civilisação, a qual (digamol-o muito á puridade)
trouxe comsigo o segredo de civilisar pela fome, e de restaurar
direitos, violando-os.
A noite illuminaram se as janellas, e os postigos, e os frisos das
torres, e as cornijas da igreja. O chá foi servido na espaçosa grade
da abbadessa, primeiro aos vates e seus amigos, depois aos notaveis
d'aquellas cercanias. O terreiro do espaçoso pateo estava colmeado de
gente, anciosa de versos. As freiras, mais expeditas em improvisação
de motes, estavam a postos. As senhas tinham já sido pactuadas entre a
freira e o seu poeta, entre a noviça delambida e o seu incognito
versista, e entre a propria criada, ou _tacho_, e o bardo menos
aristocrata, que não se dedignava incensar a mocinha conhecida, e
dadivosa das mais recheadas cestinhas de bolos e garrafas do vinho
furtado á ama por amor de Apollo.
Rompeu o outeiro auspiciosamente. O doutor Ferro improvisára um
magnifico soneto, sem resaibos da sua costumada licença. Os conegos
bracarenses traziam odes de grande fôlego, que o Ferro dizia serem
_ôdres_ e não _ódes._ Os de Guimarães chamavam á octogenaria
prelada a paphia deusa, e decima musa. Tudo isto ia intervallado por
libações amiudadas, que accendiam a furia sonorosa, e trasbordavam do
peito em colloquios rimados de tanto amor que o proprio patriarcha S.
Bento, se alli estivera, e tomara quinhão dos enfeitados cestinhos, que
desciam das rêxas, pediria mote para uma decima, sem damno da sua
santidade e bom siso.
Depois da meia noite, é que o gloriosissimo santo não quereria de
certo tal camaradagem. Os poemas rebentavam já, não da vehemencia do
coração, mas da exuberancia do espirito. Qual este espirito fosse, vae
dizel-o um dos proprios inspirados.
Era este o abbade Mormo, de Villa Real, inimigo do seu patricio
Mesquita. Nunca se haviam encontrado em outeiro d'onde não sahissem
mal-feridos de estocadas metricas, e desafiados para o outeiro proximo.
Mesquita era filho d'um cortador de carnes, e gastara muitos milhares de
cruzados para conseguir cartas de bacharel, que a estulticia do tempo
não concedia sem attestados de sangue limpo. O ingeneroso Mormo mais de
uma vez, em redondilha maior, alludira cruelmente á filiação de
Mesquita, e este como desforço unico, lancetava a devassidão do
abbade.
O doutor Mesquita foi vexado do demonio da satyra mais cedo que o seu
patrício Mormo. Os remoques eram já pungentes, como este:
Já cede Pégaso o passo,
Escoucinha, espirra, e rincha,
Ouvindo ornear o pechincha,
O abbade sujo e devasso, etc.
A isto o concitavam as gargalhadas de alguns seus contemporaneos; e a
mais se prostituiria a musa alcoolisada, se um mote não viesse impôr
aos poetas mais respeitosa linguagem. Era o mote:--«A melhor de entre
as preladas.»
O abbade Mormo ergueu-se de sobre uma alfombra de relva onde parecia
sopitado, e bateu as palmas, apenas soou o mote.
--Lá vai!--disse elle--_A melhor de entre as preladas._
Boas noites! vou-me embora;
Já não posso estar com somno,
Nem me apraz soffrer o mono,
Borrachão a toda a hora.
Oh! quanto melhor lhe fora
Ter as facas amoladas,
E ir cortar as colladas
No outeiro sanguinoso,
Em quanto eu louvo ditoso
_A melhor de entre as preladas!_
Não podia ser mais nú o insulto ao filho do magarefe! A multidão riu
muito, salvo os partidarios de Mesquita. Este, espicaçado pelos
glosadores da injuria, procurou o velho abbade entre a populaça, que o
victoriava, e remetteu com elle a murros fechados. O aggredido não
podia com o adversario; mas sobravam-lhe alli admiradores que o
defenderam, immolando-lhe o nariz contuso de Mesquita. Acudiram os
amigos do doutor, e a briga assanhou-se entre os dous partidos a ponto
de ficar despejado o pateo do mosteiro. As freiras de compleição mais
debil desmaiaram. As noviças fugiram das janellas para não insultarem
com o riso as monjas velhas. As criadas estendiam as bugias e lanternas
fóra das grades para alumiarem o terraço, onde estalavam as bordoadas
ora nos paus, ora nas cabeças com um som mais surdo. As lages do pateo
estavam juncadas de chapéos e capotes. O reboliço afastára-se em
turbilhões cujo alarido redobrava o terror. A prelada ordenou que se
apagassem as luzes, e mandou tocar a silencio. Meia hora depois, os
poetas e os demais hospedes do mosteiro voltaram á hospedaria
conventual, e passaram o restante da noite em regalado somno, excepto os
dous conegos bracarenses, que d'alli se partiram logo para suas casas
com as melhores odes ineditas, e sem chapéo. O doutor Ferro, como
estivesse já na cama, e soubesse que os conegos não voltaram, nem
voltariam ao outeiro das seguintes noites, ergueu-se de golpe, e de pé
sobre a cama, com um lençol sobre as espádoas, lançado em fórma de
clamyde grega, e os cabellos descompostos, improvisou um soneto, que
começava assim:
Altissimo Senhor, que tudo pódes!
Transfigura em cajadas os cajados
Que pozeram em fuga os desalmados
Estomagos, que tem só vinho e odes
. . . . . . . . . . . . . . . . .
Queria a abbadessa dar por concluida a festividade da eleição, á
conta da desordem, e do receio que se ella repetisse. Conjuraram muitas
religiosas em demovêl-a da tenção, e os poetas, acaudilhados pelo
doutor Ferro, foram incorporados solicitar a continuação do outeiro.
Os requerimentos em verso foram a final deferidos, e á noite seguinte
concorreram, afóra os conegos bracarenses, os mesmos poetas, sem
excepção de Mesquita e Mormo, que vieram ás boas, mediante as
diligencias de algumas senhoras, que muito podiam com elles.
Correu a noitada muito à prazer de freiras e poetas. Nenhuma senhora
deixou de contribuir com os seus applausos para a glorificação dos
vates, salvo Maria da Gloria que passava a noite no quarto de soror
Joanna, recontando-lhe pormenores da sua feliz infancia, e tristonha
mocidade. O pendor de todas as conversações de ambas era para Alvaro.
A religiosa consolava com a esperança; Maria chorava de saudades, e
temores do futuro incerto. Se, porém, a santa lhe punha os olhos
expressivos de reprehensão, a turbada senhora, dizia em tom de
supplica:
--Perdoe, minha amiga, perdoe á minha desgraça a sua tibieza de fé.
Eu sei que Deus a escuta; mas, se me olho inculpada, e tão infeliz,
pergunto a mim mesma que virtudes novas tenho eu agora para merecer que
o Senhor esqueça as minhas culpas passadas! Eu pensei sempre como hoje.
O crime nunca teve para mim outra cor nem o meu coração se abriu aos
encantos do vicio. Sou a que era; penso que serei sempre desgraçada
como tenho sido.
Soror Joanna fez um esforço para ajoelhar á beira da poltrona em que
estava sentada, e conseguiu-o coadjuvada por Maria da Gloria. Esta, sem
convite da santa, ajoelhou tambem, e ouviu da freira estas brandas
palavras:
--A nosso Senhor falla-se com humildade. Supplique, filha; mas não se
queixe. Job tinha uma pedra por leito, e outra com que se alliviava da
flagellação das suas chagas. Esse ousou perguntar a Deus, porque o
tirou do ventre materno. A misericordia divina perdoou-lhe ao tom
arrogante da sua afflicção. Não duvide de ser tambem perdoada, Maria.
Afervore-sa e rese commigo.
Durava a oração mental alguns minutos, quando subitamente se levantou
um grande reboliço nos dormitorios. Maria da Gloria alvoroçou-se, e
disse:
--Será outra vez bulha lá fóra?
A freira não respondeu, nem sequer desfitou os olhos do Senhor
crucificado.
Cresceu o rumor já perto do quarto, e vozes distinctas, clamando
«milagre!»
--Gritam _milagre!_--exclamou Maria da Gloria, erguendo-se, com os olhos
na freira.
Soror Joanna sorriu e disse:
--Não é milagre, filha: é a justiça de Deus, que a razão humana
comprehende.
Entrou uma chusma de fieiras e noviças, conclamando á mistura:
--Ahi está o menino!
--E acho que vem tambem o pae!
--E muita gente a cavallo!
--E duas liteiras com senhoras!
--E traziam archotes!
Soror Joanna estava em pé, encostada a Maria da Gloria, cujas pernas
tremiam de modo, que ella chamou Cecilia para se amparar.
--Ó filhas! vós fallaes todas juntas, e quebraes a minha pobre
cabeça!--disse a santa--Falla tu, Cecilia, diz o que viste.
--Vi o snr. Alvaro, e um senhor com elle, que deve ser o pae. Vi mais
pessoas a apear dos cavallos, e umas senhoras saltaram das liteiras, e
já lá ficou a senhora abbadessa á portaria.
Maria da Gloria, posto que sustentada nos braços de Cecilia, dobrou os
joelhos para orar; mas a perturbação era tanta que perdeu a
consciencia de si, se não é antes que a sua alma se entranhou toda no
seio misericordioso do Senhor.
Novos estrondos se aproximaram do quarto, e logo entraram tres senhoras
de mui gentil presença e entre estas uma ainda menina de treze annos,
que o leitor já viu e reconhece agora por aquella Leonor dos Olivaes,
sobrinha de Manoel Teixeira. Com estas senhoras vinha tambem Alvaro, a
quem os seus poucos annos consentiram, por segunda especial graça da
prelada, ingresso no convento. Fóra da portaria tinham ficado o marido
de Maria, Sebastião de Brito, pae de Leonor, e tres cavalleiros casados
com as tres damas. Entrara depois d'estas uma mulher, que não ousava
mostrar-se ao pé das outras, receiosa de que o amor fizesse mal á sua
humildade: era a criada Eufemia.
As senhoras cercaram Maria da Gloria, chamando-a todas, e perguntando
cada uma se a conhecia ainda. Leonor dizia-lhe que era a sua sobrinha.
Alvaro dava-lhe aquelle doce nome, a cujo som toda ella se estremecia.
Eufemia, essa, obscura a um canto do quarto, estava como esperando que
sua ama a chamasse.
--Onde está Eufemia?!--disse Alvaro admirado.--Ella vinha comnosco!
--Estou aqui, senhor Alvaro--disse a criada, a quem as freiras abriram
passagem.
--Venha cá ao pé de minha mãe, Eufemia...
Maria da Gloria abrira os olhos apavorados, relanceando-os por todos
até encontrar os de Alvaro, que fora ao encontro de Eufemia.
Reconheceu-os ambos, ergueu-se, expediu um grito, e abraçou-os juntos
com tamanho impeto, que foi preciso ampararem o grupo as senhoras mais
chegadas. Leonor acudiu de novo dizendo quem era. Maria fitou-a com
amor, e disse-lhe:
--Bem vinda sejas! isto é uma festa de anjos!
As tres senhoras offereceram-se aos olhos d'ella, perguntando se as não
conhecia.
--Conheço--disse Maria com a voz extenuada,--conheço as minhas amigas
de ha quatorze annos. São as mesmas formosas meninas. A felicidade não
deixa envelhecer... E a mim conhecerme-hiam?
Não responderam: tão absurda seria a lisonja, se quizessem mentir ao
seu proprio assombro.
--Senhora D. Maria--disse a abbadessa--á portaria está seu marido.
Vossa senhoria poderá descer até lá?
--Póde, pois não póde?!--disse soror Joanna das Cinco Chagas--Se eu
lá vou com os meus oitenta e oito e a minha gota, por que não ha-de ir
ella? Ora vamos. Quem lhe dá o braço sou eu, e o senhor Alvaro dá-me
o braço a mim. Imaginem que levam a eternidade no meio; e acho que não
é mal posta a comparação: a boa eternidade começa pela innocencia da
vida, que é o menino, e continua-se na bemaventurança do soffrimento,
que é a minha Maria, e esta, de mais a mais, chama-se _Gloria!_
No emtanto, a poesia do pateo estava estagnada nos corações repletos
dos vates espantadiços. Tinham elles visto chegar a caravana ladeada de
archotes, e por pouco que o doutor Ferro não improvisa uma elegia
áquelle simulacro de sahimento. Dos poetas noveis, alguns rodearam as
esbeltas matronas, sahidas das liteiras, e sentiram intumecida a veia da
poesia ao profano. O Mormo queria vêr n'aquillo tudo uma violencia de
clausura feita áquellas senhoras, e teve o zeloso desafogo de ir
perguntar aos proprios maridos que senhoras eram aquellas, e por ordem
de quem eram inclausuradas á meia noite. Os maridos tiveram a
complacencia de desvelar o mysterio; com a qual explicação se
afoguearam os filhos de Apollo, e em cada labio borbulhou uma estrophe
de enthusiastica ode á redempção de Maria da Gloria. O Ferro, sabendo
que se machinava um fogo preso de odes, disse em voz alta, que dava uma
peça a quem fosse buscar n'um carro os dous conegos de Braga e as odes
correlativas.
Com estas e outras facecias mantiveram os poetas o outeiro animado,
apesar de sahirem das janellas todas as freiras, noviças, e criadas
attrahidas pelo espectaculo novo, e mais levadas do coração que da
curiosidade.
Ficou de memoria a primeira quadra de um soneto declamado n'esse
intervallo pelo doutor Ferro:
Vão freiras, vá noviça, e vá a moça
Gosar d'um coração que desabafa;
Mas deixem na janella quem nos ouça;
Seja um vulto qualquer... uma garrafa!