Em 1825, era empregado, em qualidade de aguazil, na intendencia geral da
policia, um homem que merecera a confiança de João de Mattos nos mais
importantes segredos d'aquella magistratura.
Na presença do intendente e d'este homem, alguem fallou um dia em
Manoel Teixeira de Macedo, como suspeito partidario de D. Carlota
Joaquina, e dos assassinos do marquez de Loulé, no anno anterior.
Cahiu a proposito fallar da graciosa napolitana, que vivia
ostentosamente em Belem, e da esposa, que fora encarcerada n'um mosteiro
de Hespanha.
O quadrilheiro, que assistira mudo a esta conversação em que João de
Mattos denotava ainda vestigios do antigo sofrimento, a sós com elle,
pediu-lhe, muito em secreto, licença para lhe dizer que a mulher de
Manoel Teixeira não estava em Hespanha; mas sim em Vairão, onde elle a
conduzira com outro homem da sua confiança, diligencia de que fora
liberalissimamente pago, sob condição de divulgar que D. Maria da
Gloria tinha sido entregue na raia a pessoas encarregadas de
conduzirem-na ao convento hespanhol.
João de Mattos recebeu de bom rosto semelhante nova, e sem detença
escreveu a uma sua tia professa no convento de Vairão, pedindo-lhe mui
reservadamente esclarecimentos acerca de Maria da Gloria, entrada no seu
mosteiro em 1817. Soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor era a tia de
João de Mattos.
A discreta religiosa, sem dar a saber tal carta á sua infeliz amiga,
contou ao sobrinho, com piedosas expressões, o atormentado viver da
pobre mãe, que, a ser de todo innocente como a ella julgava, devia já
ter nas mãos dos anjos a sua corôa de gloria.
Escreveu de novo o magistrado a sua tia, confirmando a conta em que ella
tinha a enclausurada, por uma confissão exacta dos simples successos,
que precederam a desgraça da infeliz senhora. Accrescentava elle que
punha á disposição de Maria da Gloria todo o seu valimento para ella
intentar contra o marido acção de divorcio, separação do casal, e
posse do filho, visto que o pae escandalosamente amancebado com a mãe
de filhos bastardos, não podia curar dignamente da educação nem bem
gerir o património do filho legitimo.
Soror Joanna contrariou o plano judiciario de seu sobrinho, dizendo que
o Senhor não faltava em tempo opportuno aos padecentes humildes, e
gostava que os desgraçados fiassem d'Elle a inteira execução da sua
justiça.
João de Mattos recalcitrou ainda na opinião de que a justiça humana
era a expressão da vontade divina; mas a freira redarguiu de força que
o sobrinho não teve animo de contradizel-a, e meditou mais summaria
traça a libertar Maria da Gloria, sem dependencia da vontade do marido.
A ponto estavam estas intenções de serem executadas, quando chegou a
Maria da Gloria a carta em que lhe era dada a noticia da ida de Alvaro.
Soror Joanna, n'aquelles ultimos dias anteriores á fausta nova, raras
horas sahira do coro. Ahi a viam como arrobada em oração mental, e
tão fervoroso devia de ser o seu orar, que as lagrimas, nunca vistas no
rosto sereno da santa, eram inexhauriveis durante aquellas horas do
coro. Ás vezes, em communidade, erguia a voz, clamando: «Peçam
commigo a nosso Senhor Jesus Christo que manifeste o poder do seu braço
n'uma obra de muita necessidade.» E as freiras, e Maria da Gloria com
ellas, rezavam ferventemente.
Dizem que Soror Joanna estava no coro, a tempo que chegou a noticia da
vinda de Alvaro, e que, sem ninguem lh'a ter communicado, rompera em
altas vozes de acção de graças, na presença de muitas testemunhas,
que não souberam atinar com a causa d'aquella subitanea exaltação. Eu
não affirmo isto; mas quero acredital-o para mim. A poesia do céo é
esta. Não sei que hajam ahi outros incentivos que me chamem aos olhos
as lagrimas do coração. Quem me quizer ver chorar, e vibrar de não
sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me casos da natureza
d'aquelles: faça-me acreditar, na existencia d'umas almas que vão
entender-se com Deus por um raio resplendoroso de graça divina.
Dispensa o leitor que lhe refresquem a memoria dos successos decorridos
com Soror Joanna, durante as vinte e quatro horas de visita de Alvaro a
sua mãe. Agora sabe que, no tom prophetico das palavras da santa, não
ha que vêr com milagres. Aquelles acontecimentos vieram de seu,
naturalmente, depois da troca das cartas antecedentes, entre a freira e
o sobrinho. Per si mesma tem a virtude umas sahidas tão maravilhosas
que não ha que dizer se as lançamos á conta de milagres, nós, os
cegos d'aquella celestial claridade a que as almas escolhidas a si se
veem, e se vão alumiando nas escuridades da vida, sempre tenebrosas
para nós... _Para mim_, devia ter dito; porque, em verdade, não posso
nem devo duvidar das lavadas entranhas e clara fama dos meus leitores.
É tempo de voltarmos a Lisboa com Alvaro. Iremos; porém, vejamos, em
quanto elle caminha chorando d'alma com saudades de sua mãe, e sorrindo
ás esperanças que lhe dera a freira, os successos que tão triste
resultado promettem á temeridade do bom filho.
Ao terceiro dia da sua supposta ida para o collegio, o morgado dos
Olivaes Sebastião de Brito e Macedo, e sua filha Leonor, foram a
Lisboa, e hospedaram-se em casa de Manoel Teixeira, irmão natural, como
se disse, d'aquelle fidalgo de antiga linhagem.
Leonor era a destinada esposa de Alvaro, desde o berço. N'este enlace
pozera o bastardo o fito de sua vaidade, e o legitimo o da sua
ambição. A passo igual, enriquecia Manoel Teixeira, e alcançava-se
Sebastião de Brito. Este encostava-se ao plano restaurador dos seus
haveres; o outro gozava-se a cada nova hypotheca que o irmão fazia. Se
lhe emprestava quantias avultadas, cobrava titulo d'ellas, armas de
vingança com que um dia, infringida a palavra do morgado dos Olivaes,
cortaria as esperanças cubiçosas de outro pretendente.
Leonor perguntou logo por seu primo, ao subir a escada. Manoel Teixeira
disse que Alvaro estava no collegio, e que pedira um mez de solidão
para se dar todo a traduzir uma obra. Sebastião de Brito mofou das
canceiras litterarias de seu sobrinho, e disse que não queria
philosophos nem poetas para genros. Censurou que Alvaro não tivesse
ainda recebido lições de equitação, indispensaveis n'um mancebo que
era Brito e Macedo. Manoel Teixeira gostou da censura, e disse que o
pequeno apenas tinha doze annos, e era de compleição franzina para
aturar as fadigas da cavallaria. Redarguiu o morgado que era uso na
familia dos Britos e Macedos passarem os varões do berço para a sella.
Se outrem o dissesse, era epigramma de certo.
No entanto, Leonor dizia que, a não vir o primo vêl-a, iria ella
sósinha ao collegio, na carruagem do tio. Foi applaudida a galanteria
da menina; e Sebastião de Brito, deixando-a ao irmão, foi visitar
alguns primos e primas.
Foram Manoel Teixeira e a sobrinha ao collegio com o intento de
surprehenderem Alvaro e trazerem-no comsigo. O professor de inglez é
que foi o surprehendido.
--Não mande parte a meu filho,--disse o negociante,--que eu quero
apparecer-lhe de repente com a prima.
--O senhor Alvaro não está cá--disse o director do collegio.
--Como?!--meu filho sahiu?
--Ha quatro dias que nos disse que ia passar um mez com os seus parentes
dos Olivaes--tornou o director.
--Isto que significa?!--replicou, entre colerico e espantado, Manoel
Teixeira, interrogando o mestre de inglez.
--O senhor director disse a verdade...--respondeu aquelle, denotando
enleio e turbação.
--Então foi o meu filho que me mentiu?--tornou já muito alterado o
commerciante--Não creio! Aqui ha embrulhada!
--Que embrulhada póde haver aqui?--disse com azedume o proprietario do
estabelecimento.
--Não sei; é preciso que me digam onde está meu filho.
--Não sabemos, senhor Macedo; já dissemos a vossa senhoria que o
suppunhamos nos Olivaes: se seu filho mentiu, castigue-o vossa senhoria,
e não nos culpe a nós por nos havermos fiado na palavra d'um menino,
que nos merecia toda a confiança.
Manoel Teixeira sahiu de maneira aturdido que deixaria a sobrinha, se o
ella não seguisse. A sua primeira idéa foi... quem póde dizer qual
foi a primeira idéa do negociante, cujo amor paternal era de extremos?
Levar a casa Leonor foi de certo a primeira idéa.
Eufemia, desconfiada do que havia de succeder, logo que viu Leonor sahir
com o tio, ficou em sezões, e esmoreceu de todo quando ouviu a voz
clamorosa de seu amo chamando o filho.
Acudiram os criados todos, menos ella. Leonor foi ao quarto de Eufemia,
e achou-a em desmaios. Tornou ao tio, contando lhe o estado em que
deixava a pobre ama.
N'estas aperturas, soou a campainha, e annunciou-se o professor de
inglez, que pedia fallar particularmente com o dono da casa. Manoel
Teixeira reanimou-se.
--Vem dar-me alguma boa noticia?--exclamou o negociante com alegre
rosto.
--Creio que sim.
--Appareceu o meu filho? diga, diga.
--Seu filho nunca esteve perdido, snr. Macedo.
--Onde está, pois?
--Vossa senhoria sabe que eu sou o mestre que seu filho mais tem
presado.
--Sei, e merece-o.
--A nobre alma de seu filho não podia ter um segredo que eu não
soubesse. Ha quatro dias que elle disse ao director do collegio que ia
estar nos Olivaes algum tempo; a mim, porém, disse-me que ia vêr sua
mãe ao convento de Vairão.
Manoel Teixeira deu tres upas na cadeira, e, á quarta, exclamou:
--Quem disse a Alvaro que a sua mãe está em Vairão?!
--Fui eu, snr. Macedo.
--E como sabe o snr. que ella está em Vairão?!
--Sei-o da voz publica.
--E que lhe importa ao senhor'o que diz a voz publica para o communicar
a meu filho?
--Não me importa muito o que a voz publica diz; mas interessava-me
muito servir os nobres sentimentos do filho de vossa senhoria.
--Fez-lhe um grande serviço, não tem duvida nenhuma!--disse
ironicamente o negociante--Quer-me mais alguma cousa?
--Quasi nada,--disse o professor--restituir a vossa senhoria seis mezes
da prestação que o director do collegio recebeu adiantados.
E, dizendo, tirou d'uma carteira dinheiro em papel, que estendeu sobre a
banca a que Manoel Teixeira encostava o cotovelo direito.
Na garganta do negociante ficou afogada uma insolencia.
O brioso mestre tinha sahido voltando as costas ao ricaço.
A inquieta Leonor entrou logo perguntando as novidades. O tio não
respondeu, e mandou-a sahir com insolito enfadamento. A breve espaço,
sahiu de carruagem, a dar execução a uma traça concebida rapidamente.
Era simples: logo que o filho chegasse, mandal-o para Inglaterra,
demoral-o annos n'um collegio, interceptar-lhe a correspondencia com a
mãe, e removêl-a a ella para convento estrangeiro. Chegou a dar ordens
para ser procurado Alvaro em Vairão, ou no caminho; mas, reflectindo,
entendeu que era mais prudente deixal-o chegar inadvertido, que não
fosse elle evadir-se ao castigo premeditado.
Eufemia foi severamente interrogada, acerca das revelações que poderá
ter feito ao menino; e, como balbuciasse nas respostas, foi despedida, e
ameaçada de cadêa, se elle viesse a descobril-a cumplice na fuga de
seu filho. Sahiu a pobre mulher, e escreveu a sua ama; esta carta,
porém, chegou a Vairão dous dias depois da sahida de Alvaro, e não
foi subtrahida no correio de Lisboa, porque ia endereçada a uma das
criadas de Maria da Gloria.
Agora é que temos Alvaro em Lisboa.
Mal apeou, informou-se da residencia de João de Mattos Vasconcellos
Barbosa de Magalhães, e foi apresenta-lhe a carta da religiosa. Estava
o magistrado com altos dignatarios d'estado em occupações gravissimas,
quando se lhe deu parte de um menino, que era portador de uma carta de
Vairão. Afastou-se á parte com Alvaro, leu a carta, muitas vezes
interrompida pelo relance de olhos embaciados que lançou ao menino. No
fim da leitura, tomou-o para si, beijou-o, e disse-lhe com muita
meiguice:
--Sua mãe fez-lhe muitos carinhos? Que horas de felicidade o menino lhe
levou!... Ora deixe estar, que ha-de ser muito feliz com ella... Espere
aqui um pouco, que eu volto já.
Voltando, tocou uma campainha. Appareceu, afastando o reposteiro, o
aguazil, que escoltára Maria da Gloria a Vairão.
--Onde mora o menino?--disse João de Mattos.
--Na rua de S. Bento, numero 12--respondeu o esbirro.
--Vá já ter á rua de S. Bento n.° 12 com aquelle homem do
Limoeiro--disse o intendente--Agora vamos, menino.
Esperava-os a carruagem blasonada do sobrinho da santa de Vairão.
--Quem será o _homem do Limoeiro?!_--ia dizendo entre si o filho de
Maria da Gloria.
V
_Os insensatos não comprehendem
como se enlaçam o merecimento e a
felicidade._
GOETHE (Fausto).
N'uma das suas muitas horas de desgraça impaciente e raivosa, é que
estava Manoel Teixeira, ao annunciarem-lhe que parára á sua porta uma
carruagem com a libré do intendente geral da policia. Não tinha elle
ainda despregado a lingua do céo da boca meio-aberta de pasmo, quando o
guarda-portão fez annunciar João de Mattos, e Alvaro. Aqui nos
fallecem termos com que digamos ao justo o esgar de surpreza com impetos
de loucura rapidamente figurados no aspecto do negociante. E da alçada
de todos imaginar a turbação que devia sentir o marido de Maria da
Gloria, vendo entrar seu filho ao lado do amante de sua mulher!
Estava já na sala de espera João de Mattos, algum tanto embaraçado em
sua especial posição; mas tranquillo na apparencia. Já o dono da casa
se ia demorando, quando a sala immediata se abriu, e o escudeiro veio
ahi dizer a sua excellencia que o snr. Teixeira de Macedo não se
demorava.
Alvaro tremia, e enfiava. João de Mattos tomava entre as suas as mãos
do menino, e dizia-lhe:
--Que medo é esse, menino?! Seu pae não lhe faz mal...
Tranquillise-se, que isto não é nada. Por que treme?
--Nem eu sei dizer... Não é medo...
Durante um curto dialogo assim travado entre o homem e a criança,
vagava como allucinado o negociante, remettendo contra a porta que o
separava da sala em que era esperado, e recuando com o gesto cada vez
mais descomposto. N'esta afflictiva oscillação, tornou ao seu quarto,
tirou d'um estojo uma pistola de dous tiros, accommodou-a na algibeira
do chambre de cachemira, e entrou na sala com sinistra serenidade.
João de Mattos ergueu-se, e disse com pausada gravidade:
--Não me é difficil lêr no rosto de vossa senhoria o abalo que o meu
nome lhe fez. E tão natural esse sentimento de odio, que deshonrado
seria vossa senhoria se o não sentisse contra mim.
--E vem a minha casa?!--disse Manoel Teixeira com os olhos fitos no
pavimento que se interpunha aos dous.
--Venho a sua casa, senhor Macedo, offerecer-me desarmado e sósinho á
sua justa vingança...
--E como se acha meu filho ao lado do senhor intendente?--interrompeu o
commerciante, relanceando os olhos fuzilantes sobre Alvaro.
--Vai vossa senhoria sabel-o; mas eu peço que o menino nos deixe
sósinhos por alguns segundos.
Alvaro sahiu da sala; João de Mattos fechou a porta; e Manoel Teixeira
encostou-se ao bordo de um tremo, e cruzou os braços em postura, que
seria dramatica, se não fosse incivil.
João de Mattos, com a mão esquerda na lapella da casaca, e a direita,
segurando o chapéo, sobre a cintura, fallou assim:
--Creio que o snr. Manoel Teixeira tem sobeja intelligencia para
conhecer que um homem, como eu, na sua presença e em sua casa,
significa um successo extraordinario movido por um impulso tambem
extraordinario.
--Eu desejo realmente saber o que vem vossa excellencia fazer a minha
casa.
--Venho...
Um criado cortou a resposta, dizendo que um meirinho que acompanhava um
preso entre soldados queria fallar a sua excellencia.
--A mim?!--disse o negociante.
--É a mim--acudiu sorrindo João de Mattos.--Queira vossa senhoria
consentir que o preso esteja ás minhas ordens na sua sala de espera.
Manoel Teixeira ergueu os hombros, e disse enleiado das estupendas
occorrencias:
--Mas esse preso é cousa que tenha relação commigo?!
--É o facto importante da nossa pratica--respondeu João de Mattos, e
accrescentou com tristeza:--é o fecho d'esta abobada, debaixo da qual
vossa senhoria ha-de sentir esmagado o coração... Queira attender-me.
Eu morei, ha onze annos, em frente do seu palacete. Não era já moço
de paixões violentas; mas... era homem. Amei a snr.a D. Maria da Gloria
porque a vi, e porque ella me não dava o mais leve signal de estima nem
sequer de preoccupação das minhas constantes solicitações. O
coração humano é assim absurdo. Vossa senhoria foi n'essa época á
India, e eu cuidei miseravelmente que a esposa fiel deixaria de o ser na
ausencia de seu marido. Havia na sua casa um criado, que adivinhara as
minhas intenções, e se me offereceu para entregar uma carta a sua ama.
Acceitei e paguei liberalmente o serviço do seu criado; porém, escrevi
mais cinco cartas instando pela resposta da primeira. Sua esposa nunca
me respondeu. Um dia, fui animado pelo meu confidente a entrar
furtivamente em casa de sua esposa, e esperal-a na passagem do seu
quarto para uma sala. Cego da minha paixão, não comprehendi que
praticava uma deshonra; mas sua mulher lançou-m'a em rosto, e eu sahi
de sua casa, cuidando que me era sobejo castigo o despreso com que fui
expulso por um ligeiro aceno de mulher. Momentos depois, o criado era
despedido tambem, e a esposa sem macula ficou pensando que Deus
abençoara a sua resolução, e que o mundo lhe seria sempre uma
testemunha e um applauso da sua dignidade. Terminei. Agora peço
licença para ser trazido á nossa presença o preso.
Manoel Teixeira fez um gesto como de automato. João de Mattos levantou
o feixo da porta, e disse ao meirinho:
--Entrem... Conhece este homem?--disse elle ao negociante, indigitando o
preso.
--Tenho idéas...--respondeu Manoel Teixeira, affirmando-se.
--Diz a este senhor quem és--tornou o intendente com terrivel sombra ao
preso.
--Eu sou aquelle criado, chamado Gregorio, que cá estive ha onze annos
em casa de vossa senhoria.
Mal o preso proferiu estas palavras, cahiu de joelhos aos pés de Manoel
Teixeira.
--Mande erguer esse homem--disse o intendente.--O juiz aqui sou eu.
Levanta-te, e responde. Entregaste alguma vez cartas minhas a tua ama,
esposa d'este senhor?
Gregorio balbuciava, e João de Mattos atalhou com formidavel e colerico
accento:
--Se faltas n'um só ponto á verdade, mando-te espedaçar os pulsos com
dous anneis de ferro. Responde. Entregaste cartas minhas á senhora D.
Maria da Gloria?
--Sim, senhor--disse o preso.
--Entregaste-me algumas cartas da senhora D. Maria da Gloria?
--Não, senhor.
--Quem me disse que entrasse na casa de tua ama, e me encaminhou até ao
lugar onde ella havia de passar?
--Fui eu, senhor.
--Qual foi o procedimento de tua ama, quando me viu ajoelhado a seus
pés?
--Mandou-o sahir de casa...
--E a ti que te disse?
--Mandou-me embora.
--Que disseste tu a teu amo, quando elle voltou de Macáo?
O preso ajoelhou outra vez aos pés de Manoel Teixeira, exclamando:
--Eu menti a vossa senhoria, e fui a causa da desgraça de minha ama;
mas quem me aconselhou foi um logista, que tinha sido caixeiro de vossa
senhoria. Perdôe-me pelo amor de Deus, que estou ha tres mezes com
ferros aos pés n'uma enxovia sem ar nem luz!
João de Mattos fez um signal ao quadrilheiro. Este, puxando pela gola
da vestia de Gregorio, quasi o arrastou para fóra da sala, a tempo que
Manoel Teixeira, como se espertasse d'um sonho vertiginoso, engatilhava
a pistola, visando com olhos convulsivos e escarlates de sangue o peito
do preso.
João de Mattos collocou-se entre o negociante e o preso, dizendo:
--Este homem não se castiga assim, senhor Macedo. E preciso matar-lhe
uma existencia em cada fibra. A morte instantanea d'este miseravel não
vale onze annos de lagrimas.
O negociante, offegando, já com as lagrimas no rosto, e a voz embargada
pelos soluços, lançou-se a um canapé.
Alvaro, alvoroçado pelo ruido, correu á sala. João de Mattos tomou a
mão do menino, e approximou-o do pae, dizendo-lhe:
--Diga a seu pae que sua mãe lhe perdoa; e peça-lhe de joelhos o
perdão para quem unicamente precisa d'elle, que sou eu.
Alvaro ajoelhou, e sentiu-se apertado nos braços do pae, que
escassamente balbuciava exclamações cortadas de gemidos.
João de Mattos, abrasado d'aquella flamma electrica que experimentam as
almas apaixonadas da terrivel sublimidade da angustia, tirou da
algibeira uma carta, que leu com voz solemne, cava, e pungitiva por seu
tremor nervoso:
«Meu sobrinho.
«Quando esta carta receberes da mão do filho de Maria da Gloria, pede
a Deus, no fervor de tua alma, que te dite ao coração as palavras com
que has-de convencer o pae d'esse menino da innocencia d'esta santa.
Não seja contra ti e contra a vontade Divina, a soberba da tua
posição. Vai, filho de meu irmão, vai, e não peças perdão para
Maria da Gloria, que não tem culpas; pede-o para ti, que foste a causa
da sua desgraça, e d'outra que te ha-de castigar ainda, se fores
testemunha dos remorsos do marido. Vai, meu sobrinho, vai, guiado por
esse anjo, e Deus te ajudará n'essa hora a alumiares o coração do
infeliz marido; infeliz, sim, porque eu tenho uma quasi certeza de que
as horas de agonia d'esse homem podem bem comparar-se ás d'esta sublime
e nobre desgraçada. Vai já, meu João, não demores o resgate d'esta
martyr que é pura aos olhos do Senhor, mas está perdida no conceito
das pessoas a quem Deus não conta os segredos do coração das suas
creaturas escolhidas. Eu espero com ancia que me digas o que o meu
coração espera. Se a minha fé tem luz do céo, Maria da Gloria cedo
estará com seu marido e com o filhinho que lhe leva o coração. Eu
perco a companhia do anjo d'esta communidade; mas ganho-a para a sua
felicidade, e onde quer que ella esteja dar-me-ha sempre o mais doce dos
seus sorrisos, e a mais amarga das suas lagrimas. Não te digo mais
nada, porque as minhas muitas enfermidades, bemdito seja Nosso Senhor
Jesus Christo, não me deixam escrever. Eu te deito a minha benção,
sobrinho da minha alma. Escreve-me na volta do correio. Deus te guarde.
Tua tia muito amiga.
_Joanna das Cinco Chagas do Senhor._»
--Que hei-de eu responder a esta carta, senhor Manoel Teixeira?--disse
João de Mattos.
O negociante ergueu-se, enxugando as lagrimas; estendeu a mão a João
de Mattos, e disse:
--Eu vou levar a resposta a sua tia.
O magistrado pôde suster-se contra o impeto do coração que o impellia
aos braços do negociante. Conteve-o a lembrança de que nunca podia
merecer a amisade do marido de Maria da Gloria, porque a paixão não
era desculpa, nem a impossibilidade do delicto innocencia.
E este sentimento adivinhava o de Manoel Teixeira. Qualquer que fosse a
commoção sentida, ouvindo o sobrinho da religiosa de Vairão, não era
isso bastante para que o homem compadecido offerecesse a sua amisade a
outro que entrára em sua casa supplicando de joelhos a deshonra de uma
familia, embora o effeito da tentativa criminosa fosse apenas a
desgraça de onze annos, e a certeza da causa vilipendiosa d'ella. Sem
embargo, não era tudo dor no animo de Manoel Teixeira. Era-lhe de
grande alegria a evidencia da lealdade de sua mulher; sentia-se como
rehabilitado perante sua propria consciencia. N'isto vae muito para a
vaidade, quando não seja tudo para o coração do homem. Se remorsos o
alanceavam, o muito amor ás victimas da injustiça é a penitencia
d'estas culpas. O arrependimento inventa carinhos novos; e a innocente
parece vingar-se, perdoando, e sorrindo ao algoz, que exora perdão com
lagrimas. Assim é, assim quer Deus que seja; mas o que não póde ser
é um marido, que amou sua mulher e se amou a si por orgulho de a ter,
perdoar ao homem, quer elle seja primeiro ou infimo, que pôz em acção
os meios de empeçonhar uma legitima felicidade, embora a pureza
invulneravel da mulher mais depure o quilate da sua virtude, encarecendo
a vaidade do marido. A toda a luz se vê que Manoel Teixeira, no recesso
de sua alma, odiava João de Mattos; e este, homem de altos espiritos e
coração, conhecia o odio, e apertara a mão do negociante por não
poder, sem desaire, recusar-lhe a sua.
Alvaro não desfitava os olhos lagrimosos do affavel e magestoso
semblante do intendente.
Trinta e quatro annos depois, o padre Alvaro Teixeira, apontando o
retrato de João de Mattos, me dizia n'aquella casa dos Olivaes:
--Contemplava-me assim com aquelle rosto de graça! Nem a minha alma
conserva tão fiel a cópia do momento em que me elle disse: «Se seus
paes lhe derem licença, menino, seja meu amigo; aproveite a minha
velhice; eu lhe direi o que é o mundo, e o amargo castigo das acções
más.»
Foram estas as palavras do homem virtuoso, ao despedir-se de Manoel
Teixeira. Este escassamente curvou a cabeça respondendo á cortezia do
intendente. É que, esfriado o momento do abalo, o negociante pejava-se
talvez já de ter offerecido a mão a João de Mattos com a vehemencia
expansiva de amigo.