MICHELET (La Femme.)

Alvaro Teixeira de Macedo nasceu, em Lisboa, no anno de 1813.

Foi seu pae um commerciante rico, bastardo d'um fidalgo da côrte.

Cresceu Alvaro, e nunca seus labios proferiram a palavra mãe, nem tinha

o coração memoria d'ella. Entrou n'um collegio. Ahi, ouviu de seus

companheiros aquella dulcissima palavra, como grande parte e incentivo

das saudades d'elles. Dizia um «minha mãe recommenda-me, que estude

muito, que me ha-de levar á feira do Campo Grande», outro, repartindo

confeitos ou amendoas pelos condiscipulos, dizia: «foi minha mãe que

m'as mandou»; este escrevia a sua mãe, pedindo-lhe que o mandasse

buscar no sabbado; aquelle chorava e adoecia de saudades de sua mãe.

Alvaro devia acreditar que a sua tinha morrido; mas ninguem lh'o

dissera; nunca seu pae, nem sequer sua ama lhe fallaram em mãe.

Estava de ferias em casa, e tinha nove annos, quando perguntou a

Eufemia, sua ama de leite, porque não lhe tinha fallado nunca de sua

mãe. Eufemia, atalhada pelo repente da pergunta, tartamudeou algumas

palavras, que exprimiam o em baraço d'ella, suspeitoso á precoce

esperteza de Alvaro.

--Vou perguntar a meu pae--disse elle.

--Ora!--acudiu a ama--para que ha-de ir o menino fazer essa pergunta a

seu pae?! Não queira saber d'essas cousas.

--Então que tem?!--tornou Alvaro, cada vez mais enleado, e curioso como

creança--Eu havia de ter mãe por força, não é assim?

--Isso é; mas...

--Mas quê?

--E se ella morresse!?...

--Se morreu, é outra cousa... Então diga-me que morreu. Morreu ou

não?

--Está bom, menino; deixe-se de querer saber o que não lhe

importa--disse, em conclusão, a perturbada ama, fugindo a novas

perguntas.

Manoel Teixeira, pae de Alvaro, queria do coração ao seu filho unico.

Amimava-o n'aquella idade como no berço. Parecia crescer o amor á

proporção que as feições do menino se iam compondo, retrato fiel das

suas.

N'esse mesmo dia de inquietação para a boa Eufemia, estava o menino

sentado nos joelhos de seu pae, que lhe anediava os cabellos, e aparava

as unhas.

--Ó papá--disse Alvaro com um gesto carinhoso--a minha mãe já

morreu?

Manoel Teixeira ficou por um pouco tempo suspenso; mas continuou a

aparar as unhas do menino, e disfarçou a resposta com algumas perguntas

concernentes ao collegio.

Estava Alvaro a ponto de sahir do gabinete de seu pae, e, como levado de

providencial impulso, retrocedeu, e disse:

--O papá não me disse se a minha mãe morreu...

--Morreu--disse seccamente o pae.

Foi o primeiro gesto de enfado que viu Alvaro no rosto d'elle, sempre de

riso e meiguice.

Contou o menino este caso á ama, e esta, profundamente magoada,

disse-lhe em ar de reprehensão:

--Não lhe disse eu que não fizesse taes perguntas?

Tornou Alvaro para o collegio, e contou innocentemente a um dos mestres,

que mais seu amigo era, o que passara com a ama e com o pae. Ficou o

mestre admirado do acontecimento, e entendeu de si para si que Alvaro

era filho natural do capitalista, e póde ser que da propria criada, a

quem elle chamava ama. Estas desconfianças não eram boas para serem

communicadas aos nove annos do collegial, e calou-se com ellas o mestre.

O menino, porém, não fallava n'outra cousa, e instava por

esclarecimentos, até que uma vez o mestre, mal assombrado, lhe disse:

--Estude, Alvaro; não lhe importe saber o que não lhe é necessario.

O alumno mais estudioso do collegio fora Alvaro até áquelle dia.

Maravilhava o pae e os mestres com o seu adiantamento, e cuidado em

aproveitar o natural engenho. De repente, com igual admiração dos

mestres e do pae, o mais descurioso e desleixado do estudo era Alvaro;

mas tambem, ao mesmo tempo, o mais triste e recolhido dos seus

condiscipulos.

Manoel Teixeira, informado d'isto, sentiu a tristeza do filho e deu

medíocre apreço ao desgosto dos mestres, no tocante a estudo. O

negociante não; queria que seu filho seguisse as letras, nem se

gloriava de procrear um talento. O que elle desejava era dar-lhe um

verniz de boa sociedade, e habilital-o para casar com uma sobrinha sua,

morgada rica, da linha paterna, menina que teria dez annos n'esse tempo.

Entrava n'isto por muito o orgulho do bastardo, que pelos degraus da

riqueza conseguira hombrear com os filhos legitimos de seu pae, e

acudir-lhes, por orgulho tambem, nas crises fidalgas em que se elles

viam apertados, no dia immediato á noite do jogo, ou do baile, ou dos

casamentos e natalicios da côrte.

Decorreram tres annos. Quiz Manoel Teixeira, n'este espaço de tempo,

por muitas vezes tirar o filho do collegio, á conta de magreza, de

fastio, de doença, e de mil causas que inventa um pae extremoso. Alvaro

resistia á ternura paternal, pedindo que o deixasse estar no collegio,

onde se affeiçoára ao seu quarto, aos seus mestres, e a alguns

condiscipulos, de quem o separar-se lhe seria muito penoso.

Tinha Alvaro já doze annos. Os tres ultimos, mal aproveitados nos

livros, fructearam temporãos em discernimento e porte varonil. D'entre

os professores, aquelle que muito o estimava e conversava, tinha-o em

conta de homem, e como a homem lhe fallava. Por vezes, em intima

pratica, relembravam aquella instancia de um, acerca de sua mãe, e a

resposta enfadosa do outro. Notou, porém, o mestre que estas

recordações traziam tristeza mais sombria para o alumno, e abstinha-se

de revivel-as. Que montava isso, se Alvaro não podia esquecel-as, nem o

mestre desconhecer a origem da melancolia do discipulo!?

--O senhor Alvaro está homem no espirito;--disse-lhe um dia o seu

affeiçoado mestre de inglez--vou dizer-lhe o que não quiz explicar á

sua ignorancia dos nove annos, quando o senhor me pedia esclarecimentos

ácerca de sua mãe. Presumi eu n'aquelle tempo que seu pae tinha alguma

forte, ou pelo menos desculpavel, razão para não lhe dizer quem era

sua mãe. Bem podia ser que o menino fosse filho de uma das criadas de

seu pae, ou mesmo ainda de uma senhora, cuja reputação corresse risco

de ser manchada. Creio que me comprehende...

--Manchada... por que?--disse Alvaro.

--Por ser sua mãe.

--Por ser minha mãe!... Não entendo!...

--Assim me quer parecer; mas eu lhe aclaro a escuridade. Honram-se de

serem mães, e o mundo honra aquellas mães, que estão ligadas por um

sacramento aos paes de seus filhos. Agora de certo me entendeu.

Alvaro fez um gesto afirmativo, e disse:

--E minha mãe não estava assim ligada a meu pae?

--Era isso que eu cuidava; mas, estimulado tambem da sua curiosidade,

pedi informações, que obtive logo, e já podéra ter-lh'as revelado,

se as julgasse d'alguma utilidade, ha mais de dous annos. Vou agora

contar-lhe o que sei de sua mãe. Conheço a causa da sua tristeza: é

ella. Esse seu amor vago de filho tem influxo do céo. Alguma cousa quer

Deus que se esconda n'esse amor; e a minha consciencia manda-me fallar.

Seu pae casou ha quatorze annos com uma senhora de rara formosura e

rica, filha d'um negociante portuguez em Macáo. Maria da Gloria é o

nome de sua mãe.

Os olhos de Alvaro reluziam, e a purpura do rosto inflammava-se á

medida que o professor ia rompendo o véo que, para assim dizer, lhe

velava um novo mundo de affectos, de sentimento, de esperanças, e um

destino imprevisto.

Continuou o mestre:

--Seus paes viviam extremamente felizes, e o menino nasceu ainda na

época da felicidade. Tinha Alvaro alguns mezes, quando sua mãe sahiu

da companhia de seu pae, para, volvidos alguns dias, entrar n'um

convento da provincia do Minho, onde vive agora. Não me peça

esclarecimentos que não posso dar á sua idade, nem os daria ao seu

pundonor, se o senhor Alvaro, em vez de doze, tivesse vinte e quatro

annos. Fique sabendo que sua mãe é viva.

Foram as breves e ultimas palavras que o mestre lhe disse a tal

respeito.

Alvaro não respondeu, de confuso que devia naturalmente ficar. A

educação, a convivencia de moços como elle innocentes, a ignorancia

das novellas que ensinam o espirito a tirar, por comparação, os vicios

reaes da desnudez dos vicios imaginarios, eram causa a serem de todo o

ponto mysteriosas para Alvaro as razões que haviam levado sua mãe a um

convento, de modo que seu pae a tinha em conta de morta, e queria que

seu filho assim a julgasse.

Foi Alvaro, de vontade sua, passar alguns dias a casa. Fez especie em

Manoel Teixeira a extraordinaria vivacidade do moço. Folgou com a

mudança, e foi agradecer aos professores, e especialmente ao mais amigo

de seu filho, as melhoras do pequeno. De feito, Alvaro estava

preoccupado de uma idéa que lhe dava novos espiritos.

Estava elle, um dia, em conversação acintemente promovida com Eufemia,

e encaminhada ao ponto de lhe dizer:

--Quem me dera vêr um retrato de minha mãe!

Eufemia fitou os olhos n'elle, abraçou-o, beijou-o, como quando o tinha

ao peito, e, entre lagrimas e soluços, balbuciou:

--Se a visse!...

--Ella de certo morreu, minha Eufemia?--tornou elle,

acariciando-a--Falle a verdade... Não minta ao seu Alvaro!...

--Para que me faz essa pergunta, menino Valha-me nossa Senhora dos

Remedios! Deus me não salve, se eu sei o que lhe hei-de dizer.

--Diga a verdade, que é o mais agradavel a Deus.

Eufemia quiz fugir; Alvaro susteve-a pela saia, e acrescentou:

--Venha cá, sente-se aqui, e responda-me, se é minha amiga: Porque

está minha mãe n'um convento?

--Santo nome de Jesus!--exclamou Eufemia, levantando as mãos á

cabeça--Quem lhe disse isso, menino?

--Que lhe importa a vossemecê saber quem m'o disse? É isto verdade?

É, sei que é; o que eu lhe pergunto é a razão por que minha mãe

não está n'esta casa.

--Senhor Alvaro, se continua a perguntar-me cousas assim, eu vou-me

embora d'esta casa--replicou a ama com resolução feita de sahir.

--Está bom--redarguiu Alvaro--não se afflija, que eu não fallo mais

n'isto; mas prometta de não dizer a meu pae nada.

--Eu, menino! Eu cahia lá n'essa! Tomára eu que elle nem por sonhos se

lembre de que o senhor Alvaro me disse taes palavras!...

N'um dos proximos dias, Manoel Teixeira de Macedo, tinha sahido

apressadamente, e deixára aberta uma gaveta cuja chave nunca lhe

esquecera.

Alvaro entrou no escriptorio, e reflectindo disse entre si:

Não haverá aqui alguma cousa que me falle de minha mãe?

E diz elle no seu livro, por estas ou consentaneas palavras, que ouvira

uma como voz do céo que o mandava abrir a gaveta da escrivaninha.

A tremerem-lhe as mãos, abalançou-se o moço ao que nunca se atrevera

a fazer. Viu uma caixa de velludo encarnado, com fechos de prata. Abriu

a caixa: era um retrato de mulher, sobre marfim.

--Será?--disse elle--«Senhora de rara formosura» me disse o mestre; e

esta é tão formosa!...

Entrou de golpe Eufemia no gabinete particular de seu amo, e, como visse

Alvaro ao pé da mysteriosa gaveta, com um retrato na mão, correu para

junto d'elle, dizendo:

--Que está a vêr o menino?

--E de minha mãe este retrato?--respondeu elle sem turbação.

Eufemia, apenas lhe relanceou os olhos, exclamou:

--É, é; mas, pelo amor de Deus, não esteja aqui, metta o retrato na

gaveta, de modo que seu pae não dê fé. Venha, venha commigo, menino!

--Não vou,--disse elle com firmeza--n'esta gaveta é que está o

segredo que a Eufemia não quer contar-me. Hei-de procurar entre estes

papeis alguma carta de minha mãe.

Eufemia espantou-se e assustou-se da gravidade inabalavel d'aquella

resposta.

--Feche a gaveta, que eu prometto contar-lhe tudo--disse ella--Venha

depressa, que eu ouço passos... E o paesinho que vem...

Não era; mas o medo figurava horrores na cabeça da pavida mulher.

Alvaro sahiu, depois que repoz o retrato no seu lugar, com tal cautela,

que não podia denunciar mão estranha.

--Conte-me agora o que souber--instou elle com a ama.

Eufemia oscillou ainda; mas, obrigada por um gesto de justa severidade

com que Alvaro censurava a hesitação, disse o seguinte:

--A razão por que sua mãesinha foi para o convento... ainda que eu

lh'a diga, o menino não a entende.

--Mas diga, e depois me explicará, se eu não entender.

--Olhe, o seu pae foi a Macáo receber a herança de sua mãe, que era

de lá...

--Já sei.

--Sabe?! quem lh'o disse? Credo! Aqui parece que anda bruxaria!

--E depois?

--Seu pae, quando voltou, passados dias mandou sua mãe para um

convento...

--Na provincia do Minho, já sei tambem; mas isso não é o que lhe

pergunto: o que eu quero é saber porque foi.

--Foi porque assacaram uma calumnia á sua mãesinha. Agora já sabe...

Deixe-me, menino, por piedade lhe peço que me deixe.

--Calumnia! que calumnia!?... Então é isso o que me prometteu,

Eufemia?

--Sabe que mais, senhor Alvaro?... quem lhe disse o que sabe, que lhe

diga o resto...

Eufemia sahiu da beira de Alvaro, e foi, a correr como douda,

refugiar-se no seu quarto, e pedir a Deus que trouxesse depressa o

patrão para casa.

Alvaro dirigiu-se placidamente ao gabinete, abriu de novo a gaveta, e

tirou ao acaso um massête de cartas d'entre muitos sobre que assentava

a boceta do retrato. A tempo foi isto que se ouviu o toque conhecido da

campainha: era Manoel Teixeira. Alvaro, tão senhor estava seu, que

metteu na algibeira o massête de cartas, fechou a gaveta, e sahiu do

gabinete.

Manoel Teixeira trazia o pensamento na chave esquecida. Apenas entrou no

gabinete, correu á gaveta, e examinou-a; tornou a fechal-a, e não

suspeitou levemente da curiosidade do filho, nem dos criados, que, salvo

Eufemia, nunca entravam n'aquella recamara.

Alvaro, a hora segura da noite, quando todos estavam recolhidos,

deslacrou o massête das cartas, e leu-as e releu-as sofregamente como

se as houvesse recebido da primeira mulher amada, n'aquelles dias de

santo amor, de luz celestial, e de flores sem espinhos, em que tudo nos

vem fadado do céo, e as cartas mesmo as cuidamos dictadas pelos anjos.

A primeira, conheceu logo que eram de sua, mãe as cartas, escriptas do

convento de Vairão, em 1820, quatro annos depois da sua reclusão, e

cinco anteriores áquella data.

Todas ellas expressavam a mesma supplica, não de perdão, nem de

piedade; mas a esmola de um beijo de seu filho, esperança unica de que

se alimentava e vivia a mãe infeliz. Os termos carinhosos do amor

maternal, e commoventes rogos ao pae inflexivel da creança, iam

crescendo de ponto, segundo o silencio desprezador com que as cartas de

Maria da Gloria eram recebidas. Na ultima, que leu Alvaro, dizia ella

que já não tinha forças para rebellar-se contra a vontade da

Providencia, e receiava muito que a confiança na divina justiça a

desamparasse. Terminava emprazando o seu algoz, e protestando pela sua

innocencia, diante de Deus.

Na seguinte manhã, Alvaro disse ao pae que ia para o collegio, e não

viria um mez a casa, porque se ia entregar todo a uma traducção de um

livro inglez. Quiz o negociante dissuadil-o do trabalho como nocivo á

sua saude; mas o moço, com afagos, e promessas de não fatigar-se,

obteve licença de estar no collegio um mez.

D'aqui passou Alvaro a ter com Eufemia este dialogo:

--Vou ver minha mãe, Eufemia.

--Que diz, menino!? Está doudo!?

--Já lhe disse que vou vêr minha mãe: o pae não vem a saber nada,

porque pensa que estou no collegio.

Eufemia replicou amontoando razões que não poderam nada com Alvaro,

sendo a mais forte de todas esta:

--E o menino cuida que se póde ir ao convento sem dinheiro? Olhe que

são sete ou oito dias de jornada para lá, e outros, tantos para cá.

Quem lhe dá o dinheiro?

--Ha-de emprestar-m'o a Eufemia, para eu ir vêr minha mãe; e, se m'o

não emprestar, vou a pedir esmola.

A ama abraçou a chorar o seu filho, como ella lhe chamava, e d'aquelle

lance em diante não lhe negou dinheiro nem conselhos a fim de

realisar-se o intento. Ella mesma, á tarde d'esse dia, ajudada por um

seu irmão, foi alugar cavalgadura, e ajustar criado que acompanhasse o

menino a Vairão, guardando n'estes passos tal recato que não ficasse

alguem sujeito ás iras de Manoel Teixeira, se a desfortuna os

descobrisse.

Foi Alvaro ao collegio, e contou ao seu mestre predilecto a ida a

Vairão. Tão digno e respeitavel achou o mestre o arrojo do moço, que

nem sequer lh'o tentou impedir com reflexões. Abraçou-o com vehemente

admiração de tão energica e nobre alma em tal verdura de annos, e

prometteu por sua parte mentir piamente ao pae, caso acertasse de

encontrar-se com elle. Aos outros professores disse Alvaro que ia passar

um mez nos «Olivaes» com seus tios, onde costumava ir ás temporadas.

Na madrugada do proximo dia, sahiu de Lisboa, o filho de Maria da

Gloria.

O Romance de um Homem Rico · 第 13 / 43 题