(Março de 1887)
E a proposito...
Toda a semana se fallou muito de um principesinho que ha de vir de França,
n'um bercinho de verga doirada, deitado n'uma almofadinha de sêda, entre
rendas e flôres, sobrescriptado para o Paço de Belem.
Os jornaes não teem fallado de outro assumpto, e os pais de familia vêem-se
sériamente entalados para explicar aos _bebés_ o motivo por que esse lindo
principesinho que ha de vir de França (e que deve ser lindo como todos os
principes) não chegou ainda, a despeito de fazer-se esperar por toda a
familia real e por todos os habitantes do paiz.
Tem sido realmente preciso dar tratos á imaginação para explicar
phantasiosamente o caso d'essa demora imprevista, para satisfazer a justa
curiosidade dos _bebés_, e se o _accouchement_ da princeza Amelia tardar
ainda mais alguns dias, receio muito que chegue a esgotar-se a imaginação
dos pobres pais de familia.
Um dia são os pastores dos Pyrenéos que, sabendo que por alli passa um
principesinho, se juntam para vêl-o, obrigando o portador a parar e a
mostrar-lh'o.
Não tem o portador outro remedio senão parar, descobrir o bercinho, mostrar
o principe.
Então os pastores querem beijal-o por força, e pedem ao portador que se
demore emquanto elles vão buscar a melhor rez do seu rebanho para
offerecel-a áquella linda creança.
Outras vezes é o portador que se enganou no caminho, por ser a primeira
vez, depois de muitos annos, que traz um principe a Portugal.
Outras vezes é ainda o portador que, por ter caminhado com muita pressa,
ancioso de chegar, cansou a meio do caminho e parou.
Finalmente, são as andorinhas que reclamaram para si o direito de vir
trazendo o principesinho nas suas azas, mas como as andorinhas sejam
pequenas ainda mais pequenas do que o principe, o emissario vê-se forçado a
dar-lhes frequentes descansos.
Durante vinte e quatro horas, os _bebés_, não tendo ouvido os foguetes,
acreditam na desculpa que se lhes dá, mas no dia seguinte, como a demora vá
continuando, é preciso inventar uma desculpa, e um pai de familia, por
muito amor que tenha aos seus filhos, póde não ter tanta imaginação que
chegue para cada um d'elles...
Entretanto, os _bebés_ e os adultos vão esperando pelo principesinho que ha
de chegar de França n'um bercinho de verga doirada, deitado n'uma
almofadinha de sêda, entre rendas e flôres, sobrescriptado para o Paço de
Belem.
Já tudo está a postos para o receber. Os condes de Paris esperam, o
principe D. Carlos mostra-se impaciente, e a princeza D. Amelia pergunta ás
flôres dos jardins de Belem se ellas sabem o motivo por que o principesinho
não chega. Nem as flôres, nem o dr. Ravara, nem o dr. Greneau, nem a snr.ª
Prévot teem sido capazes de responder a esta pergunta. Passa-se o dia em
interrogações no Paço de Belem. De vez em quando ha um rebate falso, é
chamada a côrte a toda a pressa, os artilheiros correm a postar-se junto ás
peças, as damas de honor principiam a desdobrar as alfaias do enxoval, os
sineiros sobem aos campanarios, vai emfim chegar o principesinho, faz-se um
grande silencio respeitoso, olha-se para a porta da rua, a sentinella chama
as armas...
E o principesinho não chega!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O dr. Ravara encolhe os hombros, a snr.ª Prévot consulta os guias de
viagem, o dr. Greneau pergunta se não estará sonhando, mas o que é certo é
que a pequenina alteza, sabendo talvez que já vai sendo um pouco amargo ser
principe, parece não ter pressa nenhuma de o ser!
Aposto que sua possivel alteza está talvez dizendo a esta hora:
—Querem-me lá para começarem desde logo a discutir-me! Pois vão esperando
por mim. Que o Magalhães Lima vá aguçando a penna, e o Consiglieri Pedroso
vá ensaiando a voz. Eu bem sei que elles não são meus amigos e o meu
coração é tão pequenino que não comporta odios contra ninguem. Como não
saberei odial-os, não estou para os aturar por ora. Que vão esperando. Teem
lá muito que discutir, encham os jornaes republicanos como pudérem, que eu
não estou para me aborrecer. Se eu fosse filho de um saloio de Alcabideche
ou de um piloto de Cascaes, não teria duvida em chegar depressa. Ninguem
daria pela minha chegada, e eu poderia regaladamente dormir o meu primeiro
somno. Mas como sou filho do herdeiro da corôa de Portugal, como eu sei que
tenho de aturar os republicanos e as peças de artilheria, os foguetes e os
jornaes, os repiques de sino e os repiques dos poetas, como eu calculo que
tudo isso deve ser muito massador, vou-me deixando estar onde estou, no
paiz dos possiveis, gozando da regalia que tenho de me fazer esperar, visto
que, depois que eu fôr crescido, todos ralharão se me fizer esperar cinco
minutos em qualquer parte...
O dr. Ravara continúa a vêr-se embaraçado com as perguntas que lhe fazem, o
snr. conde de S. Miguel deixa de jantar, a snr.ª Prévot vê-se sériamente
atrapalhada, mas a verdade é que o principesinho não chega porque não tem
vontade nenhuma de chegar.
E o principesinho tem razão.
—Aqui, dirá sua pequenina alteza, todos os anjos me tratam por tu e brincam
commigo. Está-se muito bem, e elles proprios me informam de que lá em baixo
ha um monstro terrivel, que devora a paciencia, e que se chama a
Pragmatica. Eu tenho medo d'esse monstro, em respeito ao qual todas as
pessoas passarão a tratar-me por alteza, a mim, que sou mais pequenino do
que ellas!
E emquanto sua alteza assim monologava, sem querer chegar, Lisboa,
desesperada por esperar, ia olhando para o Tejo para vêr subir as aguas da
grande maré tão annunciada.
Mas a maré passou, só não chegou ainda a maré de sua alteza chegar n'um
bercinho de verga doirada, deitado n'uma almofadinha de sêda, entre rendas
e flôres, sobrescriptado para o Paço de Belem!
Pobre dr. Ravara!
Pobre snr.ª Prévot!
E pobres pais de familia, porque ámanhã, talvez, já os seus _bebés_ não
acreditarão em desculpas!
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