A IMPERATRIZ CARLOTA

A historia do imperador Maximiliano e da imperatriz Carlota parece moldada

sobre a tradição biblica de Adão e Eva no paraizo terreal.

Todas as delicias da creação se accumulavam no éden n'aquella primitiva

profusão de luz, de aromas, de flôres, de musicas, que, exuberantemente

creadas, irrompiam ainda em tumulto desordenado, á espera da lei reguladora

da existencia terrena. Todas as maravilhas paradisiacas, pujantes de vida,

deviam ser eternas e imperturbaveis, e Adão e Eva, dominando, n'uma

felicidade virginal, a esphera crystallina onde o sol ensaiava timidamente

o primeiro vôo das suas azas de ouro, deviam viver eternamente n'uma

felicidade casta e perenne. Mas a tentação viera, perfida serpente,

espiralar-se na arvore do bem e do mal, enroscando-se no tronco, colleando

para a fronde d'onde pendia o pomo prohibido, prematuramente sazonado pela

intensidade do sol e pela força creadora da terra. Então o par ditoso, cuja

felicidade devia ser absoluta e immutavel, attrahido pela cupidez da

serpente tentadora, disputou-lhe o pomo, colheu-o, provou-o, e, julgando

ter vencido a serpente, viu-se de subito vencido por ella. Desde essa hora

foi marcado um limite terrivel á felicidade humana, a existencia tornou-se

ephemera e dura, e tudo quanto havia nascido para viver foi condemnado a

viver para morrer.

O paraizo terreal de Maximiliano e Carlota era o castello de Miramar, a uma

legua de Trieste, erguido sobre um promontorio pittoresco, que só avistava

a pureza lucida do ceu infinito e a pureza cerulea do mar immenso. Nunca o

vôo de uma ambição havia cortado o horisonte luminoso do firmamento e do

oceano, nunca a aza de um sonho audacioso havia posto um traço negro no

espelho nitido das aguas e do ar.

O archiduque Maximiliano, commandante da marinha austriaca, era um homem do

mar, que, comquanto houvesse viajado desde o Oriente ao Occidente, desde a

Asia Menor a Portugal, amava a solidão tranquilla, a concentração placida e

meditativa a que a natureza, em pleno mar, convida o espirito. Um dia,

encantado pelo aspecto do promontorio que, a pequena distancia de Trieste,

parecia um throno de granito franjado de espumas, escolheu-o para construir

ahi uma pequena cabana de pescador, emboscada n'uma florestazinha de

plantas exoticas, que o sol não tardou a fazer germinar.

Desposando em 1859 a princeza Carlota, da Belgica, o archiduque Maximiliano

pôde, graças ao dote que lhe trouxera a filha do velho rei Leopoldo, traçar

por sua propria mão o projecto de um castello que nascia da cabanazinha

florida como a opulenta cabaia de sêda de um rajah nasce da folha verde da

amoreira.

O archiduque era apaixonado pela architectura; fôra elle que desenhára o

risco da famosa igreja Votiva de Vienna; póde pois calcular-se com que

alegre e dedicado enthusiasmo veria ir apparecendo, debaixo do seu

_crayon_, as torres denticuladas do futuro castello de Miramar.

Mais feliz do que a snr.ª Porhoet, do ROMANCE DE UM RAPAZ POBRE, cuja

velhice era alimentada pela phantasia de fazer edificar uma cathedral

estupenda, o archiduque vira realisado o seu sonho, e o castello de Miramar

fôra nascendo á beira do oceano, avultando, subindo, fazendo lembrar a

lenda do rei de Thule e da

... torre herdada que havia

ao rés das marinhas aguas.

Emquanto o castello de Miramar se edificava, o archiduque fôra habitar um

_chalet_ que provisoriamente tinha mandado construir no alto da collina, e

que para os dois felizes esposos se convertêra n'uma estancia encantada,

que a madresilva cingia n'um abraço de verdura e de flôres, e envolvia na

atmosphera inebriante de um beijo de perfume. O archiduque gostava

immensamente de flôres, de modo que os jardins de Miramar, que vieram a

contornar o palacio, pareciam realisar o sonho de um poeta que, como Castel

ou Lacroix, vivesse para cantal-as.

Fôra no _chalet_ da collina que o archiduque, mesmo depois de edificado o

castello, permanecêra sempre com a archiduqueza; nas salas do castello

recebia elle os homens de lettras, os artistas, os sabios, os principes que

procuravam a sua companhia, que uma illustrada conversação e uma sumptuosa

hospitalidade tornavam appetecida.

N'este paraizo terreal, n'este éden do Adriatico, insinuára-se um dia a

serpente da ambição, e a França, personificada em Napoleão III, fôra o

espirito do mal que se transformára em serpente para realisar a tentação do

par feliz de Miramar.

Os mais dedicados amigos do imperio de Napoleão III não podem dissimular as

responsabilidades que pesam sobre a memoria do imperador na desgraçada

questão do Mexico. Madame Carette, que pertence a este numero, não achou

meio de desculpar essa _fatalidade do imperio_, que veio a chamar-se a

expedição do Mexico.

«É bem difficil, diz ella, encontrar o fio subtil de toda esta aventura, em

que tanta gente se enleiou e arruinou, que custou tantas victimas e tanto

dinheiro, que teve por desfecho o fatal drama de Queretaro, e que foi

talvez a origem dos acontecimentos que precipitaram a quéda do imperio.»

Como nasceu no espirito de Napoleão III a desastrosa idéa da intervenção da

França nas questões internas do Mexico? Como, e por quê?

O que até ha pouco tempo se sabia, e logo voltaremos ao assumpto, era que

algumas familias mexicanas e alguns membros das colonias estrangeiras

emigraram para a Europa fugindo ás continuadas perturbações politicas

d'aquelle paiz. Essas familias, muitas das quaes vieram estabelecer-se em

Paris, pensavam decerto em voltar á patria, e manobraram n'esse sentido,

auxiliadas pelos estrangeiros repatriados que levaram os seus respectivos

governos a realisar uma conferencia internacional em Londres. Accordou a

diplomacia em pedir indemnisações para os emigrados, mas o governo

mexicano, _à bout de ressources_, declarou que não podia pagar o que lhe

era exigido.

As potencias interventoras, a França, a Inglaterra e a Hespanha,

julgando-se desconsideradas por esta resposta do Mexico, combinaram entre

si fazer uma demonstração energica que impozesse o exacto cumprimento das

deliberações tomadas na conferencia de Londres.

Foi o almirante Jurien de La Gravière que, com poderes discricionarios,

tomou o commando da expedição franceza, aggregando-se-lhe, como adjunto

technico, mr. Dubois de Saligny, antigo ministro no Mexico, que devia

occupar-se do contencioso. A esquadra hespanhola já estava fundeada em

Vera-Cruz quando a esquadra franceza lá chegou. A Inglaterra, reconhecendo

talvez o erro politico d'esta aventura, enviou alguns navios com visivel

hesitação.

Os mexicanos, concentrando-se logo que os hespanhoes chegaram,

deixaram-n'os como que isolados n'uma vasta zona do littoral. Foi pois n'um

deserto que a expedição franceza desembarcou, posto que o governo do Mexico

manifestasse uma certa sympathia pela expedição franceza, considerando-a

como um obstaculo a quaesquer demasias dos hespanhoes, antigos occupadores

e, portanto, antigos inimigos dos mexicanos. Assim, pois, pôde o almirante

Jurien assignar uma convenção que permittia aos francezes o internarem-se

em condições favoraveis de hygiene e abastecimento, com a clausula de que,

se as hostilidades se rompessem, retrocederiam para o littoral.

É n'este ponto que começa a urdir-se uma vasta rêde de intrigas.

O general Prim, commandante da expedição hespanhola e casado com uma

senhora de origem mexicana, parecia aspirar, protegido por Serrano, á

realeza do Mexico. Mr. de Saligny, estomagado pela sua posição secundaria,

escrevia para Paris cartas sobre cartas queixando-se da prudencia com que

procedia o almirante Jurien. A França, dando ouvidos a mr. de Saligny,

enviava novos reforços, e, como adjunto do almirante Jurien, o general

Lorencez. Mas a Hespanha, picada pela supremacia que a França pretendia

accentuar, retirou a sua esquadra, e a Inglaterra, que tratava de procurar

um pretexto, fez o mesmo. Ficou a França isolada, desde esse momento, na

questão do Mexico.

Seria fastidioso enumerar n'uma chronica fugitiva todos os pormenores que

occorreram até ao dia em que o general Forey tomou o commando do exercito

francez, e alcançou sobre as guerrilhas mexicanas de Juarez alguns faceis

triumphos militares.

Foi então que Napoleão III teve o sonho de realisar a transformação

politica do Mexico para contrabalançar na America a influencia dos

Estados-Unidos, e que obedecendo aos manejos da França, uma deputação

mexicana, em outubro de 1863, chegava ao castello de Miramar a fim de

offerecer a corôa imperial do Mexico ao archiduque Maximiliano.

Napoleão III tomára o compromisso de conservar no Mexico, durante tres

annos, um exercito de vinte e cinco mil homens, commandado pelo general

Forey, succedendo-lhe Bazaine, que tinha feito toda a campanha como

commandante da 1.ª divisão; e o Mexico o de pagar immediatamente sessenta

milhões de francos a titulo de indemnisação de guerra, e mais vinte e cinco

milhões por anno, para o que foi levantado nos bancos da Europa, por

emprestimo, o dinheiro necessario, sob garantia do governo francez.

Historias de Reis e Principes · 第 56 / 74 题