Os aposentos particulares da imperatriz Eugenia, no palacio das Tulherias,
compunham-se de uma série de dez salas, que davam sobre o jardim.
Entrava-se pelo salão dos alabardeiros, a guarda nobre da imperatriz,
commandados por mr. Bignet, a quem as damas do palacio chamavam jovialmente
_la trezième dame du palais_.
Era o chefe dos alabardeiros que inscrevia os nomes das pessoas que
pretendiam ser recebidas pela imperatriz e, se as damas de serviço
faltavam, elle proprio dava conta a sua magestade imperial do numero e
qualidade das pessoas que solicitavam audiencia.
Bignet era um homem discreto, e muito dedicado á imperatriz; guardava
sempre rigoroso silencio sobre as resoluções que a imperatriz lhe
communicava, mas as damas da côrte tiravam pelos domingos os dias santos, e
penetravam ás vezes os segredos de Bignet.
Por exemplo. A imperatriz não dispensava nunca do seu serviço de meza
alguns objectos de estimação, entre os quaes havia uma pequena caixa de
chá, de prata dourada, que tinha pertencido a Napoleão I. Quando este
elegante objecto não apparecia alguma vez, as damas subentendiam que a
imperatriz projectava uma viagem, e que mr. Bignet já tinha preparado as
bagagens. Mas a caixa de chá reapparecia, e as damas ficavam sabendo que o
projecto de viagem havia sido posto de parte. Bignet acompanhou a
imperatriz ao exilio; e morreu em Inglaterra, inconsolavel pela queda do
imperio.
Ao salão dos alabardeiros seguia-se a sala das damas, pintada a fresco
sobre um fundo verde. O tecto representava uma enorme _corbeille_ de
flôres. A mobilia, estylo Luiz XVI, era de madeira dourada com estofos
Gobelins. N'esta sala, como o seu nome indicava, estacionavam lendo,
conversando, bordando, as damas de serviço.
Passava-se d'este a outro salão, côr de rosa, profusamente ornamentado de
flôres: o tecto, representando Flora em triumpho, tinha sido pintado por
Chaplin.
O salão _rose_ communicava com o salão azul, a que já tivemos occasião de
referir-nos, e cujas paredes eram revestidas pelos retratos das mais bellas
damas da côrte, symbolisando as grandes nações da Europa.
Era n'este salão que a imperatriz dava audiencia, destacando-se a sua
gentil figura n'uma atmosphera de saphira, que fazia lembrar o firmamento,
porque a luz passava através de _stores_ de _gaze_ azul, adaptados ás
janellas.
Seguia-se ao salão azul o gabinete da imperatriz. Era ahi que a primeira
dama da França lia, escrevia, colleccionava os papeis do imperador,
rodeiada de todos os objectos queridos que podiam fallar-lhe ao coração,
avivar-lhe uma memoria, despertar-lhe uma saudade.
Forrado de sêda _mate_, com largas bandas de um verde suave, a mobilia
capitonada, as cortinas côr de purpura, as portas de acajú com ferragens de
cobre dourado, tal era o gabinete particular, o aposento predilecto da
imperatriz.
Sobre o panno principal da parede pendia o retrato do imperador, corpo
inteiro, de casaca, pintado por Cabanel. Exactissimo de semelhança. Á
esquerda do fogão, um retrato da duqueza d'Alba coberto de _gaze_ ligeira,
como sorrindo através de uma nuvem. Entre as janellas, o retrato da
princeza Anna Murat, pintado por Winterhalter. E por toda a parte, aqui,
alli, mil obras primas do Oriente e do Occidente, uma bella estatua de
mulher em marmore branco—_A Estrella_,—porque tinha uma estrella na fronte
e, entre as recordações carinhosas, muitos objectos que tinham pertencido á
duqueza d'Alba, e o chapeu, todo crivado, que o imperador levava na noite
do attentado Orsini. A pintura tinha, no gabinete particular da imperatriz,
um grande dominio. Havia um notavel quadro de Hébert, representando
mulheres italianas n'uma fonte subterranea; e um cordão de sêda, pendente
da parede, esperára durante algum tempo por um quadro de Cabanel. Mas o
pintor demorára-se e, n'um dia de recepção, a imperatriz, conduzindo-o ao
seu gabinete, dissera-lhe:
—Esta lacuna contraria-me. Ou me mandais depressa um quadro ou eu vos mando
pendurar n'aquelle cordão,—em vez do quadro.
Cabanel tomou em consideração esta jovialidade da imperatriz, e enviou-lhe
um primoroso quadro biblico,—Ruth, de tunica azul, coberto o rosto por um
longo veu negro.
A imperatriz gostava muito de lêr sentada n'um _fauteuil_, junto do fogão e
contra a luz, com os pés pousados n'uma cadeira mais baixa e inclinada.
Um biombo de sêda verde resguardava-a das correntes da luz e do ar.
Era n'esta posição que a imperatriz escrevia ordinariamente, com uma penna
de pato, pondo o papel sobre os joelhos.
Ao alcance da mão havia uma pequena meza com livros, os mais queridos e,
não longe, n'uma grande meza aberta, todo o trem de desenho, os pinceis,
papel, caixas de tintas, porque a imperatriz tinha grande facilidade para a
aguarella.
Seguia-se um outro compartimento destinado a bibliotheca, povoado de obras
escolhidas na litteratura franceza, ingleza, hespanhola e italiana, linguas
que a imperatriz fallava com destreza. Á mistura com os livros, muitos
primores artisticos: Wouwermans de um valor incalculavel. E numerosos
retratos, do conde de Montijo, do imperador, do principe imperial, da
rainha da Hollanda, da rainha Sophia, etc.
Sahindo-se d'este compartimento, atravessava-se uma ante-camara sem
janella, apenas illuminada por uma lampada accesa de noite e de dia. Vinha
dar a esta ante-camara, que era o esconderijo dos papeis das Tulherias, a
pequena escada que descia directamente para os aposentos do imperador.
Todos os papeis, numerados e alphabetados, estavam ahi guardados n'um
armario secreto.
D'esta ante-camara passava-se a uma vasta sala, allumiada por tres grandes
janellas rasgadas sobre um balcão: era o gabinete de _toilette_ da
imperatriz, todo coberto d'espelhos. A meza de _toilette_ tinha guarnições
de renda branca e sêda azul. E do tecto descia, por um engenhoso
machinismo, a que já tivemos occasião de alludir, o _monte-charge_ que
trazia os vestidos de que a imperatriz precisava.
Uma saleta com uma só janella communicava o gabinete de _toilette_ com o
quarto de cama, dividido em duas peças por um tabique em que, sobre um
fundo de ouro, florejavam pinturas de delicado gosto. Era ahi que estava o
oratorio particular da imperatriz, disfarçado, porque o tabique abria em
dois batentes, para os actos do serviço divino. Foi n'esse oratorio que o
principe imperial commungou pela primeira vez, e que, no dia 4 de setembro
de 1870, a imperatriz ouviu missa, pela ultima vez, nas Tulherias.
O quarto de cama era de uma magnificencia verdadeiramente olympica. No
tecto, grandes molduras douradas inquadravam antigas pinturas allegoricas.
O leito, afofado de ricos estofos, e erguido sobre um estrado, era mais um
throno do que um leito.
Reliquias preciosas velavam o somno da imperatriz: a rosa de ouro que lhe
enviára Pio IX por occasião do baptisado do principe imperial, e o vaso,
tambem de ouro, cheio de folhas e flôres do mesmo metal, finamente
cinzeladas, que o Pontifice costumava offerecer aos seus afilhados de
baptismo. Além de que, todos os annos, em domingo de Ramos, uma palma
abençoada pelo Padre Santo vinha de Roma para o espaldar do leito da
imperatriz.
Na côrte das Tulherias havia, como em todas as côrtes, um horario que
apenas as grandes solemnidades officiaes faziam alterar.
Jantava-se ás sete horas e meia.
O pessoal de serviço esperava os imperadores no salão Apollo, illuminado
por tres grandes lustres, que faziam reverberar o ouro do _plafond_,—uma
glorificação de Apollo com as nove musas.
Este salão ficava entre o _branco_ ou do primeiro Consul, assim chamado por
ter um magnifico retrato do general Bonaparte, e a sala do throno, que era
preciso atravessar para chegar ao salão de Luiz XIV,—a sala da meza.
Pouco depois das sete horas, o imperador subia aos aposentos da imperatriz,
e desciam ambos ao salão de Apollo com o principe imperial, que tinha lugar
á meza do estado desde os oito annos. A imperatriz dava ordinariamente a
mão ao principe. Entrando no salão, a imperatriz cumprimentava com um
sorriso e uma mezura as pessoas da côrte, como n'uma ceremonia official.
Logo que o mordomo do palacio se inclinava silenciosamente diante do
imperador, annunciando o jantar, o imperador, dando o braço á imperatriz,
dirigia-se para a sala de Luiz XIV, e os dignitarios da côrte davam o braço
ás damas, seguindo-o.
O imperador e a imperatriz sentavam-se á meza, junto um do outro. O
principe imperial á esquerda do imperador, o ajudante de campo do imperador
á direita da imperatriz, a primeira dama de serviço ao pé do principe
imperial, a segunda dama á direita do general Rolin, seguindo-se os outros
commensaes, entre elles os officiaes da guarda das Tulherias.
Por detraz da cadeira do imperador e do principe imperial postava-se um
alabardeiro. Por detraz da cadeira da imperatriz, além de mr. Bignet,
commandante da sua guarda, ficava Scander, um joven negro, que tinha vindo
do Egypto, e que, emplumado e armado, produzia um bello effeito decorativo.
Scander tinha um grande orgulho da sua posição, e não obedecia a ninguem
senão á imperatriz.
Um dia passeava elle no Jardim das Tulherias, e lembrou-se de macaquear os
gestos e meneios de um desconhecido qualquer, que, não gostando da parodia,
o admoestou. Mas Scander respondeu-lhe com um pontapé, e o desconhecido,
filando-o por uma orelha, desancou-o com a bengala.
Furioso, mas poltrão, Scander gritava:
—Deixe-me, que eu sou o filho da imperatriz...
O serviço da cosinha era feito por meio de ascensores, e executado com
grande regularidade e presteza.
O salão de Luiz XIV tinha uma grande meza, e ao fundo, sobre o fogão, um
busto monumental d'aquelle soberano, além de um retrato do mesmo rei,
pintado por Lebrun, de um retrato de Anna d'Austria, e de um quadro
representando a apresentação do duque de Anjou aos embaixadores hespanhoes.
Depois do jantar, os imperadores dirigiam-se com a sua _entourage_ para o
salão d'Apollo, onde se servia o café, que Napoleão III tomava sem
sentar-se fumando cigarrilhas.
Era geralmente n'esta occasião que o imperador conversava com os officiaes
da guarda. Toda a côrte se conservava tambem de pé, mas o imperador
convidava quasi sempre as damas a sentarem-se. Fazia-se então circulo,
fallava-se principalmente dos acontecimentos do dia, o marquez de
Havrincourt, o barão de Pieres, o duque de Trévise, dignitarios da côrte e
deputados, commentavam os episodios da sessão do dia. A imperatriz era a
alma, a alegria, a graça d'este circulo de conversação. O imperador acabava
por _fazer paciencias_, e, para entreter o principe imperial, a côrte
jogava algumas vezes o loto, marcando o imperador os seus cartões com
moedas de 50 _centimes_, novas em folha.
Oh! ceus! quem havia de dizer, nos tempos aureos do imperio de Napoleão
III, que os pamphletarios descreviam como nadando nos prazeres de uma orgia
ininterrupta, que ás nove horas da noite, no salão Apollo das Tulherias,
estava a côrte, os imperadores á frente, entregando-se paradisiacamente ao
patriarchal loto, como a essa mesma hora acontecia decerto, em Portugal, na
botica de Castro Daire e no club de Olhão!
Ás dez horas os creados punham, n'uma pequena meza, o serviço de chá, que
as damas faziam. Madame Carette escreve textualmente: «Havia um bulle de
chá de laranjeira que tinha um grande successo entre os homens, e n'um
canto do salão um _plateau_ com refrescos e café gelado. Geralmente o
imperador retirava-se depois de ter tomado uma chavena de chá.»
Então a conversação animava-se mais, estimulada pela imperatriz, que a
prolongava até ás onze e meia.
Os adversarios do imperio atacaram vivamente as festas das Tulherias, os
quadros vivos de Compiégne; aqui tenho eu ao pé de mim Philibert Audebrand,
que me diz ao ouvido, applicando-a a Nopoleão III, a celebre phrase de
Agnés Sorel a Carlos VII:
—Não se perde mais alegremente um reino!
Mas, fóra das grandes festas, não me parece que o loto das Tulherias,
marcados os algarismos com moedas de 50 _centimes_, seja babylonicamente
escandaloso. Um certo conego conheci eu em Braga que, sem ter um throno na
Sé, marcava os seus cartões com peças de 8$000 reis, e este mesmo conego
tambem não desgostava de quadros vivos porque o vi, passados annos,
assistir no Porto a um espectaculo de lanterna magica, realisado pelo Tasso
(não confundir com o poeta nem com o actor) no theatro de S. João.
E o que aconteceu?
O conego—Deus o tenha lá!—morreu muito bem descançado na sua conezia. As
gazetas nunca fallaram d'elle senão para lhe rezar uma necrologia
louvaminheira. Mas Napoleão III perdeu a corôa, o que não aconteceu ao
conego, foi descomposto pelas gazetas, crivado de epigrammas, e acabou no
exilio.
Quanto a epigrammas, até os proprios parentes lh'os faziam. Lembro-me agora
de um, que é do marido da princeza Clotilde, mais conhecido por uma alcunha
grotesca.
Na noite do seu casamento com a condessa de Teba, disse-lhe Napoleão III
que estava muito constipado.
O primo respondeu-lhe:
—_Couche-toi avec tes bas (Tebá) cette nuit, et ça passera._
Foi talvez o unico epigramma que não soube mal a Napoleão III...