A viuva de Napoleão III é a filha mais nova do conde de Montijo, da familia
hespanhola dos Guzman, originarios de Granada, e da condessa de Montijo,
_née_ Kirk-Patrick, de origem irlandeza.
Sua irmã, a filha primogenita do conde de Montijo, casou aos dezoito annos
com o duque d'Alba, descendente dos Stuarts pelo marechal de Berwich. Foi
uma das estrellas da côrte de Izabel II. Deixou tres filhos: o actual duque
d'Alba, que casou com a filha do duque de Fernan-Nuñez: a duqueza de
Tamamés e a duqueza de Medina Cœli, que morreu alguns mezes depois de
casada.
Em 1860, a imperatriz Eugenia, estando na Algeria com o imperador, soubera,
depois de sahir de um baile, que a duqueza d'Alba tinha morrido. As duas
irmãs estremeciam-se, a imperatriz sentira profundamente a morte da
duqueza. Pela primeira vez experimentára a imperatriz uma dôr intima; fôra
esse, em meio da vida faustuosa das Tulherias, o primeiro golpe da má
fortuna.
Até ahi, a existencia de Eugenia de Montijo tinha sido um triumpho
ininterrompido de formosura e felicidade, a marcha gloriosa de uma mulher
incomparavelmente bella através da vida.
Fôra em 1840, depois dos acontecimentos de Strasburgo, que ella vira pela
primeira vez o principe Luiz Napoleão, que entrava preso em Paris. A
condessa de Montijo estava então com suas filhas na capital de França, e de
uma das janellas da Prefeitura de policia viram, a convite de madame
Delessert, mulher do Prefeito, chegar o principe.
A _toilette_ de Luiz Napoleão era n'esse momento simplesmente desastrosa. O
official da escolta, vendo-o desprevenido de roupa branca, offerecera-lhe
uma camisa que parecia ser de _onze varas_, não só porque a situação era
critica, mas porque, grande de mais para o principe, todo elle era camisa.
Ninguem poderia dizer, porém, n'esse momento, o que annos depois havia de
acontecer.
Já Luiz Napoleão era presidente da Republica quando, por occasião de um
baile no Elyseu, se encontrou com a condessa de Montijo, e com sua filha
Eugenia, condessa de Teba. Foi n'essa noite que principiou o romance de
amor. Luiz Napoleão ficou encantado com a bella castelhana.
Apesar de se estar em plena republica, o presidente fizera-lhe a _côrte_ na
côrte, porque o presidente rodeava-se de esplendores verdadeiramente
realengos. Preparava elle então o golpe d'estado, e dissera a Eugenia de
Montijo:
—Estamos em vesperas de grandes acontecimentos, e não quero sujeitar-vos ao
perigo das eventualidades. Voltai para Hespanha e, se eu triumphar,
convidar-vos-hei a vir occupar o throno da França.
Mademoiselle de Montijo respondera:
—Aconteça o que acontecer, serei vossa mulher. Se as vossas esperanças se
mallograrem, viveremos no meu paiz, talvez mais felizes do que no throno da
França.
Como se vê, a condessa de Teba respondera precisamente á pergunta... em
verdadeiro genitivo amoroso. Voltando a Hespanha, mademoiselle de Montijo
levava comsigo um talisman, que era o penhor da sua felicidade futura: um
alfinete que representava uma folha de trevo em esmeraldas, contornada de
brilhantes.
Tinha sido o premio com que a fortuna a favorecera n'uma loteria organisada
pelo presidente da republica em Compiégne. Conservou-o sempre, e só se
desapossou d'esse alfinete fatidico depois da morte do principe imperial.
Então, vendo desmoronado todo o castello das suas esperanças de mãi, disse
um dia, em Chislehurst, á duqueza de Mouchy:
—Considerei toda a minha vida este alfinete como um talisman encantado. Era
a minha mais querida reliquia. Não quero que fique abandonado: dou-vol-o
como um penhor de felicidade e de terna amizade.
A duqueza de Mouchy nunca mais deixou de trazer o alfinete da imperatriz.
Ascendendo ao throno imperial da França pelo processo que toda a gente
conhece, Luiz Napoleão, tres annos depois, em Janeiro de 1853, annunciava
aos poderes do estado a sua resolução de casar por amor.
O imperador proclamou no sentido de mostrar a inconveniencia dos casamentos
politicos, que serviam menos a estreitar as boas relações internacionaes do
que os processos de uma politica leal, que elle, aliás, diga-se a verdade,
nem sempre seguiu. A questão do Mexico é uma prova do que affirmamos.
Occupar-nos-hemos mais tarde d'este desgraçado acontecimento, quando
tivermos que fallar da imperatriz Carlota, a segunda imperatriz cuja
biographia bosquejaremos.
A proclamação do novo imperador terminava por estas palavras:
«Venho, pois, meus senhores, dizer á França: Prefiro uma mulher que eu
amo e que respeito a uma mulher desconhecida, cuja alliança apenas traria
vantagens contrariadas por sacrificios. Sem desdenhar de ninguem, cedo á
minha inclinação, mas só depois de ter consultado a minha razão e as
minhas convicções. Finalmente, antepondo a independencia, as qualidades
de coração, a honra de familia aos preconceitos dynasticos e aos calculos
da ambição, não serei menos forte, porque serei mais livre.
«Brevemente, dirigindo-me a Notre-Dame, apresentarei a imperatriz ao povo
e ao exercito; a confiança que elles depositam em mim asseguram a sua
sympathia por aquella que eu escolhi, e vós, meus senhores, desde que a
conheçais, ficareis convencidos de que ainda d'esta vez fui inspirado
pela Providencia.»
O casamento realisou-se na igreja de Notre Dame a 30 de janeiro d'esse
anno.
Uma tradição hespanhola diz que as perolas, com que no dia do casamento se
adornam as noivas, virão a converter-se em outras tantas lagrimas.
Eugenia de Montijo não deu importancia a esta tradição, e completou a sua
_toilette_ de noiva com um collar de perolas.
A tradição não mentiu d'esta vez.
A imperatriz vendeu o collar, com as suas outras joias, depois da guerra
franco-prussiana.
Os imperadores foram viver para o pequeno castello de Villeneuve-l'Etang,
que ainda está de pé no parque de Saint-Cloud.
Vinte e quatro horas depois do casamento, os noivos passeavam n'um phaeton,
que o imperador guiava, através dos bosques estrellados de neve, que um
bello sol de inverno doirava.
Que importava que a neve espelhasse a desolação do inverno, se os corações
dos noivos, ardentes de amor e florescentes de esperanças, cantavam o
epithalamio das suas nupcias, n'essa melopea intima que é a melodia do
silencio!
Eu estou soccorrendo-me de um livro já este anno publicado em França,
SOUVENIRS INTIMES DE LA COUR DES TUILERIES. Authora madame Carette, _née_
Bouvet. Madame Carette é neta do almirante Bouvet, e foi distinguida pela
imperatriz com muitas attenções por occasião da viagem dos imperadores á
Bretanha, em 1858. Mais tarde, madame Carette entrou nas Tulherias como
segunda leitora da imperatriz, porque a primeira era a condessa de Wagner
de Pons.
No fundo d'este livro revela-se uma pequena vaidade de mulher: a imperatriz
fizera reparo na então mademoiselle de Bouvet, quando a viu na Bretanha,
por a ter achado formosa.
Um traço final do livro trae um pouco a intenção da authora. Conta madame
Carette que em 1865, por occasião da cholera morbus, indo a imperatriz
visitar com a sua leitora os hospitaes, lhe dissera, no de Santo Antonio,
ao entrar n'uma enfermaria de variolosos:
—Não quero que entreis. Poderieis ficar feia, e ser-me-ia difficil
casar-vos.
Revela-se aqui a mulher, _Chassez le naturel, il revient au galop_.
As recordações de madame Carette teem, é certo, o peccado original da
parcialidade fanatica, da dedicação amavel, mas, em compensação, levantam o
véo da vida intima das Tulherias, e põem em evidencia alguns factos
interessantes do _ménage_ imperial.
Madame Carette não é precisamente uma estylista. Nas Tulherias o seu cargo
de leitora era apenas um pretexto. Não teve por isso occasião de cultivar
estheticamente o espirito com os primores litterarios de que a França é tão
opulenta. Mas escreve com a facilidade e elegancia que são proprias de toda
a mulher franceza bem educada.
Sob o ponto de vista da contextura historica, o livro é ás vezes descosido,
e outras vezes futil. Mas, descontado o que elle tem de parcial, de frivolo
e de truncado, offerece ainda assim um pequeno filão, que se póde explorar
com interesse.
Madame Carette, remontando-se a 1858, dá o seguinte retrato da imperatriz:
«Era de estatura mais do que média; podia dizer-se alta. As feições
regulares, e a linha extremamente delicada do perfil tinha a perfeição de
uma medalha antiga com alguma coisa de intraduzivel, um peregrino encanto
pessoal, que fazia com que se não podesse comparar a outra mulher; a
fronte, elevada, e rectilinea, escanteava-se apertada, as sobrancelhas,
longas e delicadas, eram um pouco obliquas; as palpebras, muitas vezes
descidas, seguiam a linha dos supercilios velando os olhos pouco
distanciados, o que era um caracteristico da physionomia da imperatriz:
dois bellos olhos de um azul vivo e profundo, opulentos de sombra, de
alma, de energia e de doçura; bastariam os olhos para dar relevo a uma
physionomia. O nariz, descendo correctamente desde a raiz até ás fossas,
finamente recortadas, denunciava uma raça aristocratica; a bocca,
pequenissima, tinha contornos de uma graça exuberante, e um sorriso
irresistivel animava essa bocca encantadora; os dentes eram brilhantes, o
queixo descrevia uma curva delicada, que se dilatava contornando a face,
nitidamente colorida, de uma brancura transparente. A pelle, muito fina,
deixava vêr o tecido das veias, e fazia pensar no sangue azul da velha
nobreza castelhana. O pescoço alto, esculptural. Os hombros, o peito e os
braços lembravam uma estatua. A cintura estreita, mas redonda, os dedos
afilados, os pés tão pequenos como os de uma creança de doze annos. O ar
gracioso e nobre, cheio de distincção nativa. O andar facil,
desembaraçado. Finalmente, uma completa harmonia entre a pessoa physica e
a pessoa moral: n'isso estava, creio eu, o segredo do seu irresistivel
encanto.»
Durante os primeiros tempos de casada, a imperatriz tivera dois móbitos. A
razão de estado fazia com que o imperador desejasse ávidamente um filho.
Quando pela terceira vez a imperatriz se achou gravida, o drama da
maternidade, chamemos-lhe assim, ameaçou, durante tres dias e tres noites,
um desenlace fatal. Para salvar o filho seria preciso arriscar a vida da
mãi. Consultado pelos medicos, o imperador respondeu n'esta dura
alternativa:
—Não pensem senão na imperatriz.
Como o momento fôsse decisivo, a obstetricia teve que ser precipitada, o
que prejudicou grandemente o organismo da imperatriz. Soube-se isto fóra
das Tulherias, e d'aqui nasceu certamente o boato calumnioso de que se não
pudera salvar o filho para garantir a existencia da mãi. Disse-se por essa
occasião que o principe imperial era uma creança qualquer que o imperador
adoptára para acautelar a estabilidade da dynastia. Mas tudo quanto se
passou depois, os carinhos da imperatriz para com o herdeiro do throno, a
sua dolorosa heroecidade na viagem á Zululandia, quando o joven principe
foi morto, provam ainda mais, e melhor; do que as affirmações de madame
Carette.
O que é certo é que, depois de tão laborioso parto, a saude da imperatriz
ficára muito affectada, a ponto de que sua magestade, segundo o testemunho
da sua leitora, _ne pouvait se soutenir que grâce à un appareil d'acier,
dissimulé sous ses vêtements_.
A fim de que a imperatriz podesse fazer a sua _toilette_ o mais
commodamente possivel, os vestidos desciam do andar superior por meio de
uma especie de _montecharge_. Este descensor mecanico, e um tubo acustico
que communicava com o guarda-roupa, poupavam muito tempo, e incommodo para
a imperatriz.
Pois tambem o descensor serviu de cavallo de batalha para a maledicencia
dos pamphletarios. Toda a gente sabe como o imperio de Napoleão III foi
politica e pessoalmente atacado. Vive ainda a senhora que, alvo de crueis
diffamações, se sentava a esse tempo no throno da França. Não está nos meus
habitos faltar ao respeito a ninguem, muito menos a uma dama que a desgraça
feriu. Mas nem mesma madame Carette se exime a recordar as calumnias que
por muitas vezes foram morder o manto da imperatriz.
É visivel a intenção com que madame Carette, referindo-se á princeza de
Metternich, embaixatriz de Austria, essa captivante _jolie laide_ que tanta
impressão causou em todo o Paris, escreve: «A imperatriz tinha uma grande
sympathia por esta mulher seductora, attraía-a a vivacidade do seu espirito
e conversava familiarmente com ella quando as circumstancias officiaes e
mundanas as reuniam; mas não havia intimidade entre ambas. Com excepção de
sua joven prima a princeza Anna Murat, depois duqueza de Mouchy, que a
imperatriz estimava muito, nenhuma outra mulher, além das damas de serviço,
a menos que se não desse uma circumstancia rarissima, era recebida nas
Tulherias sem audiencia.»
Foi o principe de Metternich que no dia 4 de setembro offereceu o braço á
imperatriz, que, como se sabe, teve que sahir precipitadamente das
Tulherias.
Renunciando depois d'isso á vida diplomatica, o principe reside algum tempo
em Vienna, com a princeza, ou nas suas terras da Bohemia. Hoje, a
encantadora princeza de Metternich, que tanto ruido fizera em Paris, pela
graça do seu espirito e pelo esplendor das suas _toilettes_, que mandava
buscar a Vienna ou que encommendava a Worth, o celebre _couturier_ do
imperio, tem a cabeça corôada de cabellos brancos, é avó.
Madame Carette, depois de rebater delicadamente a calumnia que o nome da
princeza de Metternich lhe suscitára, lembra que a imperatriz gostava de
vêr-se rodeada por uma côrte de mulheres bonitas. Ora madame Carette fazia
parte da côrte. Ah! nada se deve perdoar tão facilmente a uma mulher bonita
como o lembrar-se de que o foi, mesmo quando não o é já!