Sua alteza estava com muita curiosidade de vêr a rainha D. Maria II, porque
era sua proxima parenta e uma princeza reinante, cujo destino havia sido
dos mais agitados.
Quem o archiduque encontrou primeiro a esperal-o no palacio das
Necessidades foi o marechal duque de Saldanha, a quem chama o _genio
universal, o deus ex-machina_, o sol do nosso paiz n'aquelle tempo. N'isto
acerta. Triumphante o movimento politico da regeneração, Saldanha, coberto
do prestigio que lhe haviam dado as campanhas da liberdade, succedêra no
poder ao conde de Thomar. Quando o archiduque Maximiliano chegou a Lisboa,
o ministerio era composto por Saldanha, presidencia e guerra; Rodrigo,
reino; Seabra, justiça; Garrett, estrangeiros; Fontes, fazenda e obras
publicas; Athouguia, marinha.
A Garrett faz o archiduque uma referencia especial, sem o nomear, dizendo:
«Entre os ministros mencionarei o dos negocios estrangeiros que, segundo me
disseram, é o mais celebre escriptor de Portugal. Suspeito-o mais escriptor
que estadista: de resto, falla perfeitamente o francez.»
Maximiliano _esquissa_ o perfil do marechal: «um homem gordo, constellado
de condecorações, com os cabellos crespos e brancos de neve, bigode
retorcido, côr de azeitona e lunetas escuras com aro de aço.»
Finalmente, o archiduque encontra-se com a rainha, com o rei D. Fernando, e
os tres principes mais velhos, D. Pedro, D. Luiz e D. João.
«Maria da Gloria, diz o archiduque, é alta e direita; as suas feições são
nobres e graves, o cabello louro e fino. Tem os olhos azues dos Habsburgos,
mãos pequenas e, por infeliz contraste, uma corpulencia genuinamente
portugueza, horrivelmente exaggerada e realmente inaudita. Não obstante (o
que faz o elogio das suas graças naturaes) e cheia de elegancia e
vivacidade nos movimentos. Vi-a correr como uma donzellinha nos seus
aposentos, e ouvi dizer que dança graciosamente e sóbe com ligeireza o
estribo da carruagem. Vestindo com delicadissimo gosto, é ainda seductora a
despeito da nutrição; poder-se-ia dizer até que, por momentos, é bella.»
Este esboço não destoa dos retratos que conhecemos da rainha e nos quaes é
facil encontrar exacta semelhança com o perfil traçado pelo snr. D. Antonio
da Costa na HISTORIA DO MARECHAL SALDANHA: «gentil, como os seus quatorze
annos, a pelle, setim; a côr, alva; olhos, celestes; cabellos, como o oiro;
porte, nobre; rosto, reflexivo; etc.»
Com taes predicados physicos não ha mulher feia, ainda mesmo que, no dobar
dos annos, o _embonpoint_ se torne um pouco exaggerado.
A principio, o archiduque achou a rainha hesitantemente silenciosa; não
obstante, as suas poucas palavras eram agradavelmente pronunciadas em
francez. Mas á medida que a intimidade se estabeleceu, a rainha revelou-se
alegre e espirituosa, comquanto sempre reservada ou antes preguiçosa em
fallar, e na apparencia um tanto brusca.
Maximiliano louva a rainha como mãi e esposa, considera-a um _raro modelo
de virtudes domesticas no meio d'este Portugal tão corrompido_. Attribue um
pouco isso á simplicidade allemã que o rei Fernando teria introduzido nos
habitos do _ménage_.
«Ao lado de sua corpulenta esposa, o rei, que é de estatura elevada, parece
um pouco _effilé_, revelando grande semelhança com Francisco I de Austria.
Conta apenas trinta e sete annos, mas, como tem o costume de inclinar a
cabeça, afigura-se-nos mais velho.»
Quanto a dotes de espirito e caracter, o archiduque não teve tempo para os
estudar no rei D. Fernando, mas quiz parecer-lhe que não podia medir-se
pela bitola de seu tio Leopoldo da Belgica.
Estranhou que o marido da rainha fosse rodeado por taes homenagens, que,
n'uma viagem á provincia, o povo pediu-lhe a benção. E o rei deu-a. A
fallar verdade, o beija-mão não se distanciava muito da benção.
«Os tres filhos mais velhos estavam presentes, cada um com seu uniforme: o
principe D. Pedro, de general; D. Luiz, meu camarada, de official de
marinha; D. João, de official de infanteria (aliás lanceiros).
«O principe real tem notavel semelhança com a casa d'Austria, o que desde
logo lhe conciliou a minha sympathia. Possue um thesouro de excellentes
disposições naturaes que, infelizmente, não têm sido bem exploradas; a
despeito da boa vontade dos pais, não parece que tenha havido sufficiente
cuidado em formar-lhe esse caracter energico de que um principe tanto
precisa hoje, sobretudo na situação incerta em que se encontra Portugal.»
O archiduque fiava muito da influencia que teriam as viagens no espirito do
principe real.
Quanto ao infante D. Luiz, depois rei, descreve-o como um rapaz alegre e
ladino, propenso a expansões de bom humor. Falla muito, e bem, diz o
archiduque: um jovial sangue viennense corre nas suas veias.
«D. João é a antithese de seus irmãos: silencioso e grave, pallido, cabello
castanho, olhos negros, olhar profundo; nenhum traço de elemento germanico:
um altivo Bragança dos antigos tempos.»