II

Maximiliano refere-se á cidade velha, dizendo que ella fórma um completo

contraste com os novos bairros. Classifica-a de _medonho zig-zag que sobe e

desce_: as ruas cheias de excrementos de animaes e de ratos mortos. Julga

precisa uma grande coragem para habital-as, e ainda para transital-as.

Arde-nos? É pimenta. Mas, diga-se a verdade, devia ser assim em 1852, pela

simples razão de que ainda o é em 1889.

Eu não sei bem a que Maximiliano chama a cidade _velha_, se se refere á

collina oriental ou occidental, ao Castello ou ao Bairro Alto. Mas, em

qualquer dos casos, a apreciação é fundamentada.

Ha trinta e sete annos os despejos faziam-se ainda da janella abaixo,

depois da famosa prevenção do _agua-vai_. Ás vezes nem a prevenção se

fazia. Uma anecdota de Bocage conta que, achando-se o poeta n'uma situação

muito naturalista, recebêra sobre o dorso uma baldada d'agua chilra, que

lhe despejára uma criada, a qual elle apostrophou n'este chistoso

improviso:

Ó menina do toucado,

Já que tem a mão tão certa,

Venha buscar a offerta,

Que ficou do baptisado.

Mas nas tradições da antiguidade grega anda uma anecdota que prova ter

existido entre os héllenos igual costume. Tendo Socrates fugido um dia para

a porta da rua, por já não poder aturar sua mulher Xantippe, ella

aproveitou a occasião para fazer os despejos e encharcal-o, ao que o

philosopho respondeu com a sua habitual serenidade:

Que não era agua de rosa,

Mas outra menos cheirosa.

Já expungimos, é certo, o sujo costume do _agua-vai_, mas os ratos mortos e

as cabeças de carapau perfumam ainda as ruas de Lisboa.

É porém injusto o archiduque quando diz que os portuguezes nem por todo o

ouro do mundo quereriam vêr-se livres d'estas montanhas de immundicie. As

narinas nacionaes protestam contra a phrase. Mas é que cêrca de quarenta

annos de incessantes reclamações não teem conseguido ainda estabelecer uma

policia municipal tão vigilante, que ponha cobro a este abuso. De mais a

mais Lisboa é, a respeito dos gatos, uma cidade fetichista. Lisboa adora o

gato, não só o gato domestico, mas tambem o gato vadio, _callejero_, como

diriam os hespanhoes. Toda a gente se julga constituida na obrigação de

alimentar os gatos tunantes atirando-lhes para o meio da rua as cabeças dos

carapaus e as miudezas das pescadas. Em Lisboa o gato não faz nada; quem

caça os ratos não são os gatos, são as ratoeiras. E ao passo que se dá de

comer aos gatos bohemios com uma piedade tradicional, toda a gente compra

uma ratoeira para demonstrar a inutilidade do gato alfacinha. Na capital

portugueza, o gato é um sultão, que tem o seu serralho de bichanas ao ar

livre. Mas se houver uma camara municipal que se proponha arcar com o gato,

não haverá _gatos_ eleitoraes que a aguentem, n'uma reconducção, á bocca da

urna.

Maximiliano impressionou-se em Lisboa com a abundancia dos papagaios.

Parece, diz elle, que estamos n'uma floresta virgem do Brazil. E

accrescenta que as parlendas dos papagaios são de ensurdecer a gente. Digam

que tambem não é verdade, se são capazes! A abundancia de papagaios é

talvez um vestigio do nosso antigo dominio colonial. Dos bons tempos em que

fomos os primeiros a pôr o pé na costa d'Africa e no Brazil restam hoje

apenas as chronicas e os papagaios. O que é certo é que rara casa não só de

Lisboa mas tambem de todo o reino deixa de ter um papagaio, seja pardo ou

verde, da Africa ou do Brazil. Cada brazileiro que chega, traz um papagaio

para si, e tres papagaios para os parentes. E na tradição popular anda o

estribilho dos papagaios, que tem passado de geração em geração com o

_Bernal francez_ e a _Silvaninha_:

Papagaio real,

Por Portugal,

Quem passa?

O rei que vai á caça.

No glossario nacional conservam-se algumas phrases attinentes aos

papagaios, taes como: _dá cá o pé_, _meu loiro_, etc.; e não contentes com

os papagaios authenticos, temos varios papagaios metaphoricos, as tabuas

divisorias e pintadas de verde que separam as janellas de sacada; as

estrellas de papel que os rapazes lançam ao ar.

Depois da abundancia dos papagaios, estranhou Maximiliano a dos negros e

negras, que enxameam em Lisboa, notando que por um contraste, que parece

ironico, todos os pretos são caiadores.

Aqui está decerto outro vestigio dos nossos bons tempos coloniaes: os

pretos. Elles habituaram-se a Portugal desde o tempo em que vinham como

escravos; a tradição estabeleceu-se, e hoje vêm como livres. Que diria

Maximiliano se soubesse que os portuguezes antigos, incluindo os nossos

primeiros poetas, davam o cavaquinho pelas pretas! Camões, o principe dos

poetas portuguezes, arrastou a aza a uma escrava negra, a famosa Luiza

Barbara:

Pretidão de amor,

Tão dôce a figura,

Que a neve lhe jura

Que trocára a côr.

Por isso, é certo, lhe fez troça um poeta anonymo da época:

Negrado, negrigorio, negregante,

Negrica, negraria, negramento,

Negrança, negração e negra dura.

. . . . . . . . . .

Luiz, retrato negro dos amores

Negros seus, aqui jaz; a endurecida

Luiza negra o fez, com negras dôres,

Mudar em negra sorte a negra vida.

Nos autos dos poetas comicos do seculo XVI, um preto ou uma preta são

personagens obrigados. Gil Vicente diz na farça do JUIZ DA BEIRA:

Eu andava namorado

De ũa moça pretasinha.

No theatro do Prestes e do Chiado a preta ou o preto apparece sempre com a

sua aravia, que era de um effeito seguro.

Na poesia popular ainda hoje vive uma quadra, aliás formosissima, em que o

elemento chamita fornece a belleza do pensamento:

Os teus olhos são gentios,

São gentios da Guiné.

Da Guiné por serem negros,

Gentios por não ter fé.

Maximiliano falla de uma especie de equipagem, o _sech_, montada sobre duas

rodas enormes, tirada por dois cavallos, muito usada então em Lisboa. Ainda

cá temos pouco mais ou menos o _sech_, mas hoje serve principalmente para

conduzir os mortos ao cemiterio. É um dos espectaculos mais tristemente

irrisorios de Lisboa.

Passa depois a occupar-se dos trajos nacionaes.

«O mundo elegante veste-se á franceza. As mulheres do povo usam lenço

branco na cabeça e grandes capotes muito pezados: é uma precaução contra os

inconvenientes do clima, porque, em pleno estio abrasador, um frio glacial

cae sobre a cidade, e a corrente de ar do Tejo sopra frequentemente

asperrima através das ruas.»

Tem razão quanto ao estrangeirismo dos trajos no mundo elegante. Dão-lh'a

os proprios poetas portuguezes.

Rodrigues Lobo disse:

Por isso qualquer profano

Nos toma para entremez,

Porque fazemos cada anno

Te no trage portuguez

Mais mudanças que um cigano.

Não tomamos isto em grosso;

Vestimos por tantos modos

Cada hora, que dizer posso,

Que não temos trage nosso,

Porque o tomamos de todos.

E Simão Machado:

Vel-os-has, disse, _á franceza_,

Depois d'isso á castelhana,

Ámanhã á sevilhana,

Hoje andam á bolonhesa,

E já nunca á portugueza.

O capote preto e o lenço branco eram, de feito, um trajo nacional, mas não

privativo das mulheres do povo. N'isto se enganou o archiduque. Tambem o

usavam as fidalgas. Em Lisboa já não ha d'isso senão pelo carnaval. Mas nas

provincias do norte ainda existe o capote. No sul, tenho-o visto muitas

vezes em Setubal, sem exclusão das senhoras: capotes de panno finissimo e

brilhante.

Os homens tambem uzavam capote antes da invasão da capa hespanhola e da

capa _á Santo Antonio_; mas era ordinariamente de côr e com mangas.

Chamavam-se estes capotes _josésinhos_.

Camillo Castello Branco diz na ENGEITADA: «Era de mulher o outro vulto

encapotado n'um _josésinho de mangas, como então se dizia d'uns capotes que

tiveram em Portugal reinado longo_.» E Nicolau Tolentino:

Se a pé, dando o _josésinho_,

Escoltou Alcino ledo

A Marcia todo o caminho,

Foi porque elle tinha medo

Que lhe cahisse o burrinho.

Isto, leitor, não póde ir de uma assentada. Seguiremos a jornadas vagarosas

o itinerario do infeliz archiduque.

Historias de Reis e Principes · 第 47 / 74 题