Em novembro de 1887, publicava um jornal de Lisboa a seguinte noticia, que
transcrevo textualmente:
«El-rei o snr. D. Luiz acaba de receber um presente, que lhe devia ter
sido em extremo agradavel.
«Existia em Londres um magnifico retrato da princeza D. Catharina de
Bragança, rainha de Inglaterra, e mulher de Carlos II, pintado por um dos
melhores pintores inglezes d'esse tempo. Esse retrato, depois da queda
dos Stuarts, soffrêra fortunas varias, até que foi cahir ha pouco tempo,
por venda em leilão, nas mãos do coronel americano Mac-Murdo,
concessionario primitivo do caminho de ferro de Lourenço Marques.
«O snr. Mac-Murdo entendeu que devia presentear com essa tela historica
el-rei de Portugal, e pediu-lhe licença para lh'o offerecer. Hontem o
snr. Levis, ministro dos Estados-Unidos em Lisboa, devia ter entregado na
Ajuda a el-rei D. Luiz a preciosa dadiva do seu compatriota.
«Dizem que este retrato, magnifico e muito bem conservado, desmente a
lenda da fealdade da mulher de Carlos II, lenda que se fazia correr
talvez para desculpar as numerosas infidelidades conjugaes do amante da
duqueza de Portsmouth. A rainha D. Catharina, tal como o retrato a
apresenta, sem ser uma formosura, é todavia uma gentil senhora, sobretudo
com uma grande expressão de bondade.»
_Sem ser uma formosura_, diz o texto da noticia, não era comtudo D.
Catharina de Bragança, rainha de Inglaterra, uma dama despicienda, segundo
o retrato feito por um pintor inglez contemporaneo.
É certo que em torno d'esta illustre dama da casa real portugueza, para
quem o throno britannico fôra pouco menos de um calvario, se formára uma
lenda de fealdade, que os historiadores inglezes confirmam.
Assim, David Hume, o author da historia dos Stuarts, pinta-nos D. Catharina
de Bragança como princeza de uma virtude sem macula, a qual, todavia, não
pôde nunca fazer-se amar do rei pelas graças da sua pessoa nem do seu
espirito.
Dizia-se, até á apparição do retrato offerecido pelo snr. Mac-Murdo, que
Portugal fôra obrigado a dotar a princeza de Bragança com Tanger e Bombaim
como compensação dos dois defeitos que Carlos II notava na sua noiva: ser
feia e ser catholica.
O que é certo é que o casamento custou a realisar-se, e que Portugal, para
vêr no throno inglez a filha de D. João IV, teve que desapossar-se,
effectivamente, de Tanger, que não aproveitou muito aos inglezes, e de
Bombaim, de que elles vieram a fazer uma das primeiras cidades do mundo.
A infeliz princeza não tirou, porém, d'esse casamento as vantagens que se
esperavam. Viveu humilhada pelas leviandades amorosas de Carlos II,
preterida pelas amantes do rei, especialmente pela condessa de Castlemaine,
e, guerreada pelos protestantes, chegou a ser accusada de querer envenenar
o marido.
Tudo isso se sabe, e seria fastidioso recordar n'um artigo fugitivo os
lances dramaticos da vida atribulada de D. Catharina de Bragança em
Inglaterra.
O meu fito é outro.
Eu quero principalmente fazer notar, como curiosidade bibliographica,
alguns opusculos, em prosa e verso, a que deu lugar o casamento da infanta
portugueza com o rei inglez.
Principiarei por fallar de um escriptor que se desenfastiava dos seus
trabalhos nobiliarchicos cultivando as musas.
Refiro-me a Antonio de Villasboas e Sampaio, que escreveu: SAUDADES DO TEJO
E DE LISBOA NA AUSENCIA DA SENHORA CATHARINA, RAINHA DA GRAN-BRETANHA.
Villasboas, na sua qualidade de poeta, tomou a liberdade, que n'essa
qualidade lhe era permittida, de celebrar D. Catharina como um sol de
belleza, uma maravilha de formosura.
Disse uma vez um notavel homem politico do nosso paiz que todas as
princezas eram formosas. O poeta Villasboas justifica plenamente esta
espirituosa affirmação. Ninguem dissera nunca que D. Catharina fosse uma
dama formosa, nem mesmo o proprio retrato, que apenas põe em evidencia _uma
grande expressão de bondade_. No PEVERIL OF THE PEAK, de Walter Scott, a
rainha, que atravessa os ultimos capitulos d'este romance, resalta com essa
mesma expressão de bondade, annuveada de melancholia. Mas Antonio de
Villasboas não se prendeu com estas pequenas teias de aranha, e saudou em
D. Catharina de Bragança a oitava maravilha do mundo, quanto a belleza.
Oiçamol-o:
Dita será que vejam lá no Norte,
D'onde o mal até agora ha procedido,
O bem melhor da lusitana côrte,
A bellesa maior, que hão conhecido.
Esta hyperbole é um pouco compromettedora para as damas portuguezas, visto
que D. Catharina, não sendo bonita, era inculcada pelo poeta como o _bem
melhor_ da lusitana côrte, a _bellesa maior_!... O poeta offendia
d'est'arte os creditos das damas portuguezas, que sempre tiveram fama de
bellas. Aqui ha prejuizo de terceiro.
Mas os poetas, se lhes dá para serem lisongeiros, teem a vertigem da
hyperbole. Villasboas continúa:
De dia, se a não via, me alegrava
Vêr o sol, _que algum tanto a parecia,
Não em tudo, que a elle lhe faltava
Da bella infanta a graça e bisarria_:
De noite co'as estrellas conversava,
E de todo o meu siso lhe dizia:
Tendes estrellas, porventura, inveja
De que a infanta mais formosa seja?
As estrellas, provavelmente, nunca responderam nada.
Outro poeta, Antonio da Fonseca Soares, que veio a chamar-se na religião
frei Antonio das Chagas, já tinha dito, saudando o anniversario natalicio
da princeza:
Oy bellissima infanta
Del lusitano sol alba nascistes,
Y aurora apenas de sus rayos fuistes
Quando te jusgaron del futuro trono
Luz feliz, bello annuncio, ilustre abono.
Os poetas são como as Marias: vão uns com os outros.
Por occasião do casamento houve festas pomposas em Lisboa, e são hoje raros
os opusculos que as commemoram.
Por exemplo:
FESTAS REAES NA CÔRTE DE LISBOA _ao feliz casamento dos reis da
Grã-Bretanha Carlos e Catharina em os touros que se correram no Terreiro do
Paço em outubro de 1661. Dedicadas a Europa Princeza da Phenicia e escritas
por Izandro, Aonio e Luzindo, toureiros de forcado. Em Lisboa, 1661._
EPITHALAMIO _aos augustos desposorios de Carlos II e a Senhora D.
Catharina, Reys de Inglaterra, por Antonio Raposo, natural de Aviz_. Em
verso heroico.
Como se vê, os poetas não tiveram mãos a medir por occasião d'este
casamento realengo.
A viagem da noiva tambem foi largamente descripta:
RELAÇAM _dedicada á serenissima senhora rainha da Gran-Bretanha da jornada
que fez de Lixboa athé Por-Tsmouth pello padre Sebastião da Fonseca,
mestre, cappellão, e presidente em o hospital real de Todos os Santos na
Cidade de Lixboa. Londres, 1662_.
Amostra:
Serenissima senhora
a quem todo o mundo acclama
por bella Estrella do Norte
lusido Sol da Bretanha
Com lisonja,—mas sem pontuação.
RELAÇAM _dedicada ás magestades de Carlos-Catharina reys da Grande Bretanha
da jornada que fizerão de Portsmouth athé Antoncourt e entrada de Londres
pelo P. Sabastião da Fonseca, etc. Londres, 1662_.
É o mesmo padre, sempre com _pello_ e sempre _cappellão_—com dobrada.
RELAÇAM _das festas de palacio, e grandezas de Londres, dedicada á
magestade da serenissima rainha de Gran-Bretanha. Londres, 1663_.
É ainda padre Sebastião o author.
Dos vinte e tres annos que D. Catharina de Bragança viveu como rainha em
Inglaterra, não consta deixassem poetas memoria alguma metrificada.
Mas conhecemos a HISTORIA AMOROSA DA CÔRTE D'INGLATERRA, pelo cavalheiro de
Grammont, que chegou justamente a Inglaterra quando D. Catharina lá chegava
tambem.
Depois de descrever a pessoa amavel do rei, diz o cavalheiro de Grammont
com referencia á sua côrte:
«Quanto a bellezas, não se podia dar um passo sem as vêr. As de maior
reputação eram as d'esta mesma condessa de Castelmaine, depois duqueza de
Cléveland; madame de Chesterfield, madame de Shrewsbury, mesdames
Roberts, madame Middleton, mesdemoiselles Brook e cem outras da mesma
formosura que brilhavam na côrte, cujo principal ornamento eram, porém,
mademoiselle de Hamilton e mademoiselle Stewart.
«A nova rainha em nada augmentou o brilho do palacio, nem pela sua
presença, nem pela sua comitiva. O sequito da rainha compunha-se da
condessa de Panetra, na qualidade de açafata; de seis monstros, que se
diziam damas de honor, e de uma aia, outro monstro, que se inculcava
governanta d'estas raras beldades.
«Os homens eram: Francisco de Mello, irmão da Panetra; um certo
Taurauvédez, que se appellidava D. Pedro Francisco Correo da Silva, feito
ao pintar, mas só elle mais tolo do que todos os portuguezes juntos. Era
mais altivo do seu nome que da sua boa figura; ora o duque de Buckingham,
ainda mais tolo do que elle, e mais zombeteiro, atrambolhou-lhe a alcunha
de _Pierre du Bois_. O pobre Correo da Silva indignou-se a tal ponto que,
depois de muitas queixas inuteis e algumas ameaças sem effeito, teve que
deixar a Inglaterra, ao passo que o feliz duque de Buckingham herdava
d'elle uma nympha portugueza, que lhe tinha roubado, bem como dois dos
seus appellidos, a qual nympha era ainda mais horrorosa que as damas da
rainha. Completavam o sequito seis capellães, quatro padeiros, um
perfumista judeu, e um certo official, apparentemente sem funcção, que se
denominava o barbeiro da infanta _(sic)_. Catharina de Bragança não se
preoccupou de brilhar na côrte encantadora onde vinha ser rainha, se bem
que mais tarde conseguisse evidenciar-se algum tanto. O cavalheiro de
Grammont, desde longo tempo conhecido da familia real e da maior parte
dos homens da côrte, não teve mais do que fazer conhecimento com as
damas. Para isso não lhe era preciso interprete. Ellas fallavam o
bastante para explicar-se, e entendiam o francez preciso para
comprehenderem o que se lhes dizia.
«A côrte era sempre numerosa junto da rainha; junto da princeza era
menor, comquanto fosse mais escolhida.»
Esta narração carece de rectificações.
A condessa de Panetra (por pouco que a não faz condessa de Penetra) era a
condessa de Penalva, irmã de D. Francisco de Mello que fôra agraciado com
os titulos de conde da Ponte e marquez de Sande.
Esta senhora morreu solteira em Inglaterra.
Francisco Corrêa da Silva era o nome do outro fidalgo portuguez roubado
pelo duque inglez; Pedro é que elle se não chamava, nem tão pouco _Correo_.
O cavalheiro de Grammont é apenas citado a titulo de curiosidade historica,
porque, de resto, limita-se a estropear o nome das pessoas e a verdade dos
factos. Acha os portuguezes tolos e as portuguezas monstros. Em
compensação, falla sempre de si com encarecimento.
Morre Carlos II, depois de ter pedido perdão a sua esposa de todos os
desgostos que lhe fizera soffrer, regressa D. Catharina a Portugal, e logo
se reata a série, vinte e tres annos interrompida, dos panegyricos.
Temos pois:
ORAÇOENS GRATULATORIAS _na feliz vinda da muita alta e muito poderosa
rainha da Gram Bretanha, compostas e recitadas na igreja da Divina
Providencia á nobreza de Portugal nas trez ultimas tardes do mez de janeiro
de 1693 pelo padre D. Raphael Bluteau. Lisboa, 1693_.
Seis annos depois, apparecia um folheto em latim, AGILULPHUS, impresso em
Evora, cujo argumento é o seguinte: Agilulfo, rei da Lombardia, idólatra e
perseguidor dos christãos, feito christão pelas orações e industria de sua
esposa, a rainha Teodolinda.
Este opusculo allude ao passamento de Carlos II, que, como conta Macaulay
na sua _History of England_, morreu reconciliado com a igreja catholica,
graças á piedosa intervenção da rainha e do conde de Castel-Melhor.
Fallece em Lisboa D. Catharina de Bragança, em 31 de dezembro de 1705, e os
gemidos saudosos da poesia palaciana não se fazem esperar.
GEMIDOS SAUDOSOS _entre a illustre e luctuosa côrte de Lisboa, e o poderoso
e sentido reino de Inglaterra: aquella lamentando defunta a sua venerada
Infante, e esta suspirando morta a sua melhor rainha a serenissima senhora
D. Catharina, por Pedro de Azevedo Tojal. Lisboa, 1706_.
Pobre rainha! como se lhe não bastasse soffrer um marido leviano, toda a
sua vida teve que aturar os poetas lisongeiros!
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