Poucos conventos, porém, teriam uma claustra mais vasta do que o do Grillo;
todo o pavimento terreo, que é enorme, serve hoje de deposito de
artilheria, está cheio de peças de campanha.
Algumas freiras, como as inscripçoes tumulares indicam, jazem sob as
carretas.
Havia no Grillo só um côro, pequeno e modesto.
Mas, em compensação, a igreja, comquanto não seja grande, é boa, coberta de
azulejos de valor e de quadros, hoje completamente estragados pela
humidade. A teia do cruzeiro é magnifica, de ébano e mosaico florentino,
com as armas de Portugal e da casa de Medina-Sidonia.
Era dentro da teia que estava o caixão da rainha, coberto com um rico
panno, deteriorado pelo tempo, e encimado pela corôa real, sobre almofada
de estofo igual ao do panno.
Levantada esta cobertura com as formalidades judiciaes que o acto exigia,
reconheceu-se que o caixão, de pau Brazil, excellentemente conservado,
tinha sido violado nas fechaduras lateraes, pelo menos em duas que estavam
encravadas com pregos de arame.
Aberta a tampa do caixão, forrada interiormente de sêda branca lavrada,
apenas emergia de uma espessa camada de cal a caveira, a cuja fronte havia
adherido a renda preta do véo, dando a impressão, á primeira vista, de que
uns restos de cabello a povoavam ainda. A illusão era completa.
A cal estava remexida junto do hombro direito da rainha, e na altura da mão
esquerda.
Verificou-se que o craneo se achava desarticulado da columna vertebral.
A cal afogava completamente as vestes do cadaver, e só por uma estreita
orla, que ficára a descoberto na extremidade inferior do caixão, se pôde
conhecer que o vestido era de seda côr de castanha.
Da energica e virtuosa rainha de outro tempo restava apenas aquillo!
A renda do véo dava a illusão, como já disse, de que a testa da rainha era
de uma estreiteza simiana, quando em verdade D. Luiza de Gusmão, como se
sabe pelo retrato existente na Bibliotheca Nacional de Lisboa, reproduzido
por Benevides nas RAINHAS DE PORTUGAL, fôra uma bonita mulher, de feições
muito regulares: testa espaçosa, olhos grandes e pretos, bocca pequena,
rosto redondo.
O que nós hoje podêmos apenas estranhar n'esse retrato são as exaggeradas
dimensões dos _bandeaux_, que eram moda n'esse tempo, sendo costume
adornal-os com murabuths e estrellas de pedras preciosas.
D. Luiza de Gusmão não morrêra de idade que a velhice a tivesse podido
deformar: tinha apenas 53 annos. E a proposito citarei um documento, por
ser pouco conhecido entre nós: é a certidão de idade, que encontrei,
segundo os meus apontamentos, na HUELVA ILLUSTRADA, por D. Juan Agustin de
Mora (Sevilha, 1762):
«Que en un libro de baptismos, que comenzó año 1602, y acabó en 1626, que
no está foliado, como á la mitad de sus hojas está una partida, que á la
letra, es como se segue:
«En la villa de Huelva, jueves veinte y quatro dias del mes de octubre,
año de Nuestro Salvador Jesu Christo de mil y seiscientos y trece años,
yo el Lic. Diego Muniz de Leon, Visitador General del Arzobispado de
Sevilla, baptizé á la señora Doña Luiza Francisca, hija del señor D.
Manoel Alonso Perez de Guzman el Bueno, y de la señora Doña Juana de
Sandoval, condes de Niebla: fué su padrinho el señor D. Gaspar Alonso
Peres de Guzman el Bueno, Marqués de Casaza, y le adverti la cognacion
espiritual, y lo firmé: fecho ut supra.—Lic. Diego Muniz de Leon.»
Por este documento fica rectificado o nome do pai de D. Luiza de Gusmão,
que o snr. Benevides diz chamar-se João Manuel Peres de Gusmão.
Os restos mortaes d'aquella mulher illustre, abstrahindo mesmo da sua
qualidade de rainha, inspiravam respeito.
A sua vida não fôra uma inutilidade grandiosa. Não. Junto de seu marido, D.
Luiza de Gusmão fôra uma conselheira cheia de coragem e de energia,
indispensavel para completar o caracter irresoluto e medroso do duque de
Bragança. Na regencia do reino, todas as côrtes estrangeiras faziam justiça
ao seu animo forte, ao seu espirito esclarecido. Só como mãi fôra infeliz.
Viu morrer o primogenito prematuramente, e os outros dois filhos não
rodearam de carinhos filiaes os ultimos momentos da rainha, que morreu ao
abandono da sua propria familia!
Nas MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA e na CATASTROPHE DE PORTUGAL vem
transcriptas as cartas em que D. Luiza de Gusmão chamava do seu leito de
agonia o rei Affonso VI e o principe D. Pedro para os abençoar.
Sabe-se que a CATASTROPHE é um livro parcial contra o rei, mas, descontada
a paixão politica do author, o principe D. Pedro não se mostra muito
superior ao rei em extremos de amor filial.
A historia fornece-nos sobejas provas de que D. Pedro II não sabia
respeitar melhor do que seu irmão os vinculos de familia.
O bispo do Porto D. Fernando Corrêa de Lacerda diz na CATASTROPHE que o rei
e o infante acompanharam o cadaver da mãi até ao coche funebre:
«Na segunda feira se dispozeram os funeraes com religiosa, e decente
pompa, e á terça á noite depois d'el-rei e S. A. lançarem agua benta ao
cadaver, e o acompanharem á liteira, foi levado á igreja do mosteiro do
Sacramento de religiosos Carmelitas Descalços, que havia edificado,
d'onde se sepultou por deposito, até se acabar a igreja das religiosas
Descalças da recolecção de Santo Agostinho, de que era fundadora, na qual
tinha mandado escolher a ultima sepultura.»
Ora o desconhecido author da ANTI-CATASTROPHE (livro de que Camillo
Castello Branco diz com razão: tem relanços que inspiram crença; mas lá vem
outros que a desluzem) não menciona o nome do principe, como assistente á
agonia da mãi, e a respeito do rei descreve-o gastando tres dias de
Salvaterra a Lisboa, sem pressa nenhuma de chegar, porque mandava fazer
paragens para ouvir os musicos; e conclue por dizer: «Foi para palacio,
porque, nem ainda morta a quiz vêr.»
O auctor das MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA, qualquer que seja, diz
que nenhum dos filhos lhe assistiu, supposto chegassem uma hora antes da
rainha expirar, _por estorvados de quem sabia que os conselhos d'aquella
hora, como mais desenganados, são fielmente cridos e ficam na memoria mais
estampados_.
A verdade deve estar no meio termo: os dois filhos importaram-se pouco com
a morte da rainha, quer lhe deitassem agua benta quer não.
Nós é que lh'a não podemos deitar a elles para absolvel-os de tão grave
falta.
Pois esta illustre princeza que tanto luctára toda a sua vida, com o
marido, com o cunhado D. Duarte[4], com Castella, com o irmão e com os
filhos, alli estava reduzida aos seus ultimos despojos, tocados pela mão de
vandalos que remexeram na cal para encontrar decerto alguma joia com que a
rainha tivesse sido amortalhada. O marido, bem menos sympathico do que
ella, está no pantheon real de S. Vicente, mas a benemerita Medina-Sidonia,
que, ainda descontado o natural interesse egoista de antes querer ser
rainha uma hora do que duqueza toda a vida, foi uma collaboradora
importante na restauração da monarchia nacional, tem jazido no esquecimento
e no abandono, tão sem repouso, que o seu cadaver vai agora fazer a
terceira jornada, porventura definitiva[5].