SCENA X.

_Os mesmos, D. Pedro, e D. Sancho._

_Ped._(59) ............... Amada Esposa,

Ignez, querida Ignez, vôa a meus braços,

Vem completa fazer minha alegria.(60)

Porém que!.. vós chorais! que infausto agouro.(61)

(59) _D. Pedro entra na Scena cheio de alegria, sem vêr o cadaver

de Ignez._

(60) _Vendo chorar D. Nuno, e o Embaixador, que estão defronte do

cadaver de Ignez._

(61) _Olha para traz, dá com os olhos em Ignez morta, quer correr

a ella, recúa espavorido, e cahe desfallecido nos braços de

D. Sancho, e do Embaixador._

_Sanc._ Oh Principe infeliz!.. Mortal angustia!

Affastai-lhe da vista a extincta Esposa.(62)

(62) _Elvira, e as Aias retirão da Scena Ignez, e os Meninos,

acompanhadas de D. Sancho._

_Ped._(63) A Esposa!.. Onde está ella? Ide chamar-ma.

(63) _Em delirio._

_Nun._ Ah! Senhor!..

_Ped._ ............ Não tardeis, ide chamar-ma.

Eu mesmo, eu mesmo vou... Ignez, Esposa!(64)

(64) _Convulso, quer caminhar, e não póde._

_Emb._ A extrema dôr o priva dos sentidos.

_Nun._ A tua Esposa... oh Deos!.. já não existe.

_Ped._ He morta? Injustos Ceos! Clarão terrivel!(65)

Ah! Sim, eu mesmo a vi... horrida imagem!..

E tornarão a abrir-se inda os meus olhos?

Vi morta a cara Esposa, e vivo ainda!(66)

Espera, espera Ignez, eu te acompanho,

Eu já te sigo, sim...(67) Mas não, primeiro

He preciso vingar a sua morte.

Quem a matou?.. Dizei... talvez... foi elle,

Esse tyranno, que meu Pai se chama?

(65) _Olhando para o lugar onde víra Ignez morta._

(66) _Em acção de desembainhar a espada._

(67) _D. Nuno, e o Embaixador impedem que D. Pedro desembainhe,

e este reflectindo hum pouco, diz:_

_Nun._ Ah! não, Senhor, teu Pai lhe perdoava,

Mas Coelho, e Pacheco os ímpios forão,

Que...

_Ped._ Basta: nada mais.(68) Impios são todos,

E eu de todos o sangue beber quero.

Treme, barbaro Rei; cruenta guerra

Eu protesto fazer-te: sim, eu juro

Pelo sangue de Ignez, cujos vestigios

Bradando por vingança alli diviso,

Juro, cruel, do Throno derrubar-te,

E em teu lugar, c'roada alçar a elle

A Esposa que me roubas. A meu lado,

Mesmo depois de morta, a bella Castro

Será Rainha, reinará comigo:

Que importa que o seu corpo não respire,

Se a sua alma inda existe unida á minha!

Hão de todos beijar-lhe a mão já fria,

Tributar-lhe as devidas homenagens:

Do seu throno degráos por mim calcados

Os tyrannos serão que a assassinárão:

Seus corações malvados, das entranhas

Eu mesmo hei de arrancar, hei de trincar-lhos.

Ás minhas iras escapar não podem:

Inda que nos infernos vão sumir-se,

Lá mesmo, ardendo em raiva irei busca-los.

Será tal meu furor, minha vingança,

Que o Mundo tremerá de ouvir meu nome:

Por toda a parte se hão de ouvir sómente

Pranto, desolação, e horrores... tantos

Os estragos serão, as mortes tantas,

Que ha de em sangue nadar Portugal todo:

Sangue o Douro, o Mondego, e sangue o Téjo

Hão de, em vez d'agua, despejar aos mares;

E os proprios mares arrojar bramindo

Ondas de sangue ás mais longinquas praias.

Eu vou já começar a derrama-lo.

Oh furias! Oh vingança! Acompanhai-me,

Meus passos dirigi; guiai meu braço.(69)

(68) _Na mesma furiosa desesperação._

(69) _Parte furioso arrebatadamente da Scena._

_Emb._ Ah Principe, suspende! Mas quem póde

Conter as furias, que lhe lutão n'alma!(70)

(70) _Segue a D. Pedro._

_Nun._ Que espantoso tropel de horriveis males!..

Oh de cégas paixões funesto exemplo!..

Misero Esposo!.. Malfadada Castro!..

De quanta compaixão são dignos ambos!..

Muito se amavão, desgraçados forão,

Chore-os o Mundo, e de imita-los trema.(71)

(71) _Finda a Tragedia quando não ha coroação._

Nova Castro: tragedia · 第 57 / 59 题