SCENA III.

_D. Pedro, Ignez, e Elvira._(20)

(20) _Ignez, apenas vê D. Pedro, busca enxugar as lagrimas. Elvira

affasta-se para o fundo da Scena, e pouco depois se retira._

_Ped._ Ignez, querida Esposa... Mas que vejo!..

Debalde buscas enxugar teu pranto:

Aos olhos de hum amante nada escapa.

Impressas no teu rosto bem diviso

As afflicçôes, que o coração me partem.

Que motivo... Mas devo eu pergunta-lo?

Não sei assaz a origem dos teus males?..

Eu sou, sim, sou eu mesmo o teu flagello;

Mas o teu defensor, o teu Esposo:

Nada receies pois, nada te afflija...

Porém as tuas lagrimas se dobrão?..

Oh Ceos!..

_Ign._ .... Amado Esposo, não repares,

Não te afflijas co'as lagrimas que choro:

As tuas expressões, tua presença

Aggravão minha dor, meu pranto augmentão.

Ah! pelos tristes olhos sahir deixa

Meu coração em lagrimas desfeito.

_Ped._ Antes em borbotões todo o meu sangue

Eu quero ver correr, do que o teu pranto.

De tua alma desterra vãos temores,

Extermina os pezares, não succumbas

A males transitorios que te opprimem.

Os caprichos do Fado, a desventura

Calcaremos aos pés: sim, cara Esposa,

Sempre unidos seremos venturosos.

_Ign._ Unidos dizes tu!.. Oh Ceos!.. Unidos?..

_Ped._ Pois quem, quem poderia separar-nos?

_Ign._ O rigor... Ai de mim! Que vou dizer-te?..

Que raio a triste Ignez vai fulminar-te?..

Poupar teu coração, oh Ceos, quizera;

Porém eu a deixar-te não me atrevo,

Sem que te diga adeos... Ah! caro Esposo!

Aperta-me em teus braços, e recebe

As minhas derradeiras despedidas.

_Ped._ Que escuto!.. Que acontece?.. Ignez, que dizes?

_Ign._ Para sempre de ti vou separar-me.

_Ped._ Separar-te de mim!

_Ign._ ................. Atroz conflicto!..

Caro Principe, Esposo, não te esqueças

Da desditosa Ignez... Mas ah! Que digo!

Esquece-me se podes; sê ditoso;

Vive, vive feliz. Eu só te rogo,

Que dos queridos filhos te encarregues;

Que affagues sua infancia, que os ampares;

Que os defendas da inveja, da impiedade:

Não cogites de mim, delles só cuida,

He forçoso ceder ás leis do Fado:

Longe de ti, mirrada de saudades,

Vou exhalar meus ultimos suspiros.

_Ped._ Oh desesperação! Que idéa horrivel

Surge dentro em minha alma! Acaso (eu tremo!)

Atrever-se-ha meu Pai...

_Ign._ .................. Aos seus preceitos

Obedecer devemos: intimados.

Me forão já: de Portugal banida,

Partir devo hoje mesmo para Hespanha.

_Ped._ Oh Furias! He possivel? Rei tyranno,

Não levarás ávante os teus projectos...

Nem elle, nem os Ceos, nem os Infernos

Poderão arrancar-te de meus braços.

Desengana-lo vou, parto a fallar-lhe:

Trema o cruel de mim, se não revoga

A barbara sentença.

_Ign._ ............. Oh Ceos! Que fazes?

Nova Castro: tragedia · 第 35 / 59 题