--Uma menina, D. Ermelindinha, uma menina.--
--Oh, uma menina, tragam-m'a, quero vel-a.--
O Doutor sahiu.
Fóra o Alberto passeava lentamente; o Jorge sentara-se, os cotovellos
fincados sobre uma meza.
--Não ha perigo; está a cousa prompta; foi muito feliz até, vamos lá,
por ser a primeira vez... parabens--e o medico accendeu um charuto.--
Vou ainda para o escriptorio, ate ás quatro, se fôr necessario mandem
dizer; a parteira é de confiança...
O Jorge alvoroçou d'uma alegria intima; parecia-lhe até que não sentira
tanta, quando ha vinte e seis annos, lhe annunciaram a existencia
d'aquella que agora o fazia avô.
--Um baptisado de pompa, ein!--
--Está dito--concordou Alberto.
Elle, por si, não sentira accelerar-se muito a sua emotividade,
confrontava o caso um pouco analogo com o da Annita,
--era até um encargo que a gente tomava--e de mais a mais uma
menina;--não via demasiado motivo para os parabens do Roberto.--
Mas apesar d'isto aquelle corpo pequenino, brando como uma gelatina,
d'uma leveza de passaro, impressionava-o d'alguma fórma,
parecia-lhe uma como integração do seu ser, de que só agora
conhecia a falta, e alguma cousa o agitava extraordinariamente,
fazendo-lhe borbulhar dentro da alma uma sensação nova de carinho, como
o rebentar inesperado d'um jacto d'aguas gazozas, que rompe a crusta da
terra n'um determinado ponto. A emoção affectiva abria brecha na sua
sensibilidade gasta pelos prazeres e pelo cynismo; dominava-se comtudo.
--Não lhe faltava mais nada que tornar-se piegas á ultima hora--
e accendia um charuto para distrahir de sobre si aquella ideia nova, que
o envolvia como uma nuvem perfumada, de subtis aromas.
* * * * *