CXXVII

O barbeiro.

Perto de casa, havia um barbeiro, que me conhecia de vista, amava a

rabeca e não tocava inteiramente mal. Na occasião em que ia passando,

executava não sei que peça. Parei na calçada a ouvil-o (tudo são

pretextos a um coração agoniado), elle viu-me, o continuou a tocar. Não

attendeu a um freguez, e logo a outro, que alli foram, a despeito da

hora e de ser domingo, confiar-lhe as caras á navalha. Perdeu-os sem

perder uma nota; ia tocando para mim. Esta consideração fez-me chegar

francamente a porta da loja, voltado para elle. Ao fundo, levantando

a cortina de chita que fechava o interior da casa, vi apontar uma

moça trigueira, vestido claro, flôr no cabello. Era a mulher delle;

creio que me descobriu de dentro, e veiu agradecer-me com a presença o

favor que eu fazia ao marido. Se me não engano, chegou a dizel-o com

os olhos. Quanto ao marido, tocava agora com mais calor; sem ver a

mulher, sem ver freguezes, grudava a face ao instrumento, passava a

alma ao arco, e tocava, tocava...

Divina arte! Ia-se formando um grupo, deixei a porta da loja e

vim andando para casa; enfiei pelo corredor e subi as escadas sem

estrepito. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro, ou por estar

ligado a um momento grave da minha vida, ou por esta maxima, que os

compiladores, pódem tirar daqui e inserir nos compendios de escola.

A maxima é que a gente esquece devagar as boas acções que pratica,

e verdadeiramente não as esquece nunca. Pobre barbeiro! perdeu duas

barbas naquella noite, que eram o pão do dia seguinte, tudo para ser

ouvido de um transeunte. Suppõe agora que este, em vez de ir-se embora,

como eu fui, ficava á porta a ouvil-o e a namorar-lhe a mulher; então

é que elle, todo arco, todo rabeca, tocaria desesperadamente. Divina

arte!

Dom Casmurro · 第 133 / 157 题