O discurso.
--Vamos, são horas...
Era José Dias que me convidava a fechar o ataúde. Fechámol-o, e eu
peguei n'uma das argolas; rompeu o alarido final. Palavra que, quando
cheguei á porta, vi o sol claro, tudo gente e carros, as cabeças
descobertas, tive um daquelles meus impulsos que nunca chegavam á
execução: foi atirar á rua caixao, defuncto e tudo. No carro disse a
José Dias que se calasse. No cemiterio tive de repetir a cerimonia
da casa, desatar as correias, e ajudar a levar o feretro á cova. O
que isto me custou imagina. Descido o cadaver á cova, trouxeram a cal
e a pá; sabes disto, terás ido a mais de um enterro, mas o que não
sabes nem póde saber nenhum dos teus amigos, leitor, ou qualquer outro
extranho, é a crise que me tornou quando vi todos os olhos em mim,
os pés quietos, as orelhas attentas, e, ao cabo de alguns instantes
de total silencio, um sussurro vago, algumas vozes interrogativas,
signaes, e alguem, José Dias, que me dizia ao ouvido:
--Então, fale.
Era o discurso. Queriam o discurso. Tinham jus ao discurso annunciado.
Machinalmente, metti a mão no bolso, saquei o papel e li-o aos
trambolhões, não todo, nem seguido, nem claro; a voz parecia-me entrar
em vez de sair, as mãos tremiam-me. Não era só a emoção nova que me
fazia assim, era o proprio texto, as memorias do amigo, as saudades
confessadas, os louvores á pessoa e aos seus meritos; tudo isto que
eu era obrigado a dizer e dizia mal. Ao mesmo tempo, temendo que me
adivinhassem a verdade, forcejava por escondel-a bem. Creio que poucos
me ouviram, mas o gesto geral foi de comprehensão e de approvação.
As mãos que me deram a apertar eram de solidariedade; alguns diziam:
«Muito bonito! muito bem! magnifico!» José Dias achou que a eloquencia
estivera na altura da piedade. Um homem, que me pareceu jornalista,
pediu-me licença para levar o manuscripto e imprimil-o. Só a minha
grande turvação recusaria um obsequio tão simples.