CXXII

O enterro.

A viuva... Poupo-vos as lagrimas da viuva, as minhas, as da outra

gente. Sai de lá cerca de onze horas; Capitú e prima Justina

esperavam-me, uma com o parecer abatido e estupido, outra enfastiada

apenas.

--Vão fazer companhia a pobre Sanchinha; eu vou cuidar do enterro.

Assim fizemos. Quiz que o enterro fosse pomposo, e a affluencia dos

amigos foi numerosa. Praia, ruas, praça da Gloria, tudo eram carros,

muitos delles particulares. A casa, não sendo grande, não podiam lá

caber todos; muitos estavam na praia, falando do desastre, apontando

o logar em que Escobar fallecèra, ouvindo referir a chegada do morto.

José Dias ouviu tambem falar dos negocios do finado, divergindo alguns

na avaliação dos bens, mas havendo accordo em que o passivo devia ser

pequeno. Elogiavam as qualidades de Escobar. Um ou outro discutia

o recente gabinete Rio Branco; estavamos em Março de 1871. Nunca me

esqueceu o mez nem o anno.

Como eu houvesse resolvido falar no cemiterio, escrevi algumas linhas e

mostrei-as em casa a José Dias, que as achou realmente dignas do morto

e de mim. Pediu-me o papel, recitou lentamente o discurso, pesando

as palavras, e confirmou a primeira opinião; no Flamengo espalhou a

noticia. Alguns conhecidos vieram interrogar-me:

--Então, vamos ouvil-o?

--Quatro palavras.

Poucas mais seriam. Tinha-as escripto com receio de que a emoção me

impedisse de improvisar. No tilbury em que andei uma ou duas horas, não

fizera mais que recordar o tempo do seminario, as relações de Escobar,

as nossas sympathias, a nossa amizade, começada, continuada e nunca

interrompida, até que um lance da fortuna fez separar para sempre duas

creaturas que promettiam ficar por muito tempo unidas. De quando em

quando enxugava os olhos. O cocheiro aventurou duas ou tres perguntas

sobre a minha situação moral; não me arrancando nada, continuou o seu

officio. Chegando a casa, deitei aquellas emoções ao papel; tal seria o

discurso.

Dom Casmurro · 第 128 / 157 题