Em que se explica o explicado.
Antes de ir aos embargos, expliquemos ainda um ponto que já ficou
explicado, mas não bem explicado. Viste que eu pedi (cap. CX) a um
professor de musica de S. Paulo que me escrevesse a toada daquelle
prégão de doces de Matacavallos. Em si, a materia é chocha, e não vale
a pena de um capitulo, quanto mais dous; mas ha materias taes que
trazem ensinamentos interessantes, senão agradaveis. Expliquemos o
explicado.
Capitú e eu tinhamos jurado não esquecer mais aquelle prégão; foi em
momento de grande ternura, e o tabellião divino sabe as cousas que se
juram em taes momentos, elle que as registra nos livros eternos.
--Você jura?
--Juro, disse ella estendendo tragicamente o braço.
Aproveitei o gesto para beijar-lhe a mão; estava ainda no seminario.
Quando fui para S. Paulo, querendo um dia relembrar a toada, vi que a
ia perdendo inteiramente; consegui recordal-a e corri ao professor, que
me fez o obsequio de a escrever no pedacinho de papel. Foi para não
faltar ao juramento que fiz isto. Mas has de crer que, quando corri aos
papeis velhos, naquelle noite da Gloria, tambem me não lembrava já da
toada nem do texto? Fiz-me de pontual ao juramento, e este é que foi o
meu peccado; esquecer, qualquer esquece.
Ao certo, ninguem sabe se ha de manter ou não um juramento. Cousas
futuras! Portanto, a nossa constituição politica, transferindo o
juramento á affirmação simples, é profundamente moral. Acabou com um
peccado terrivel. Faltar ao compromisso é sempre infidelidade, mas a
alguem que tenha mais temor a Deus que aos homens não lhe importara
mentir, uma vez ou outra, desde que não mette a alma no purgatorio. Não
confundam purgatorio com inferno, que é o eterno naufragio. Purgatorio
é uma casa de penhores, que empresta sobre todas as virtudes, a juro
alto e prazo curto. Mas os prazos renovam-se, até que um dia uma ou
duas virtudes medianas pagam todos os peccados grandes e pequenos.