O papa.
A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda; a de José Dias não lhe
quiz ficar atraz. Na primeira semana disse-me este em casa:
--Agora é certo que você vae sair já do seminario.
--Como?
--Espere até amanhã. Vou jogar com elles que me chamaram; amanhã, lá
no quarto, no quintal, ou na rua, indo á missa, conto-lhe o que ha. A
ideia é tão santa que não está mal no santuario. Amanhã, Bentinho.
--Mas é cousa certa?
--Certíssima!
No dia seguinte revelou-me o mysterio. Ao primeiro aspecto,
confesso que fiquei deslumbrado. Trazia uma nota de grandeza e de
espiritualidade que falava aos meus olhos de seminarista. Era não
menos que isto. Minha mãe, ao parecer delle, estava arrependida do que
fizera, e desejaria ver-me cá fóra, mas entendia que o vinculo moral da
promessa a prendia indissoluvelmente. Cumpria rompel-o, e para tanto
valia a Escriptura, com o poder de desligar dado aos apostolos. Assim
que, elle e eu iriamos a Roma pedir a absolvição do papa... Que me
parecia?
--Parece-me bem, respondi depois de alguns segundos de reflexão. Póde
ser um bom remedio.
--É o unico, Bentinho, é o unico! Vou já hoje conversar com D. Gloria,
exponho-lhe tudo, e podemos partir daqui a dous mezes, ou antes...
--Melhor é falar domingo que vem; deixe-me pensar primeiro...
--Oh! Bentinho! interrompeu o aggregado. Pensar em que? Você o que
quer... Digo? não se amofina com o seu velho? Você o que quer é
consultar a uma pessoa.
Rigorosamente, eram duas pessoas, Capitú e Escobar, mas eu neguei a pés
juntos que quizesse consultar ninguem. E que pessoa, o reitor? Não era
natural que lhe confiasse tal assumpto. Não, nem reitor, nem professor,
nem ninguem; era só o tempo de reflectir, uma semana, no domingo daria
a resposta, e desde já lhe dizia que a ideia não me parecia má.
--Não?
--Não.
--Pois resolvamos hoje mesmo.
--Não se vae a Roma brincando.
--Quem tem bocca vae a Roma, e bocca no nosso caso é a moeda. Ora,
você póde muito bem gastar comsigo... Commigo, não; um par de calças,
tres camisas e o pão diário, não preciso mais. Serei como S. Paulo,
que vivia do officio emquanto ia prégando a palavra divina. Pois eu
vou, não prégal-a, mas buscal-a. Levaremos cartas do internuncio e
do bispo, cartas para o nosso ministro, cartas de capuchinhos...
Bem sei a objecção que se póde oppôr a esta ideia; dirão que é dado
pedir a dispensa cá de longe; mas, além do mais que não digo, basta
reflectir que é muito mais solemne e bonito ver entrar no Vaticano,
e prostrar-se aos pés do papa o proprio objecto do favor, o levita
promettido, que vae pedir para sua mãe ternissima e dulcissima a
dispensa de Deus. Considere o quadro, você beijando o pé ao príncipe
dos apostolos; Sua Santidade, com o sorriso evangelico, inclina-se,
interroga, ouve, absolve e abençoa. Os anjos o contemplam, a Virgem
recommenda ao santissimo filho que todos os seus desejos, Bentinho,
sejam satisfeitos, e que o que você amar na terra seja egualmente amado
no ceu...
Não digo mais, porque é preciso acabar o capitulo, e elle não acabou o
discurso. Falou a todos os meus sentimentos de catholico e de namorado.
Vi a alma alliviada de minha mãe, vi a alma feliz de Capitú, ambas em
casa, e eu com ellas, e elle comnosco, tudo mediante uma pequena viagem
a Roma, que eu só geographicamente sabia onde ficava; espiritualmente,
tambem, mas a distancia que estaria da vontade de Capitú é que
não. Eis o ponto essencial. Se Capitú achasse longe, não iria; mas
era preciso ouvil-a, e assim tambem a Escobar, que me daria um bom
conselho.