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A polemica.

No dia seguinte, passei pela casa do defuncto, sem entrar nem

parar,--ou, se parei, foi só um instante, ainda mais breve que este em

que vol-o digo. Se me não engano, andei até mais depressa, receiando

que me chamassem como na vespera. Uma vez que não ia ao enterro, antes

longe que proximo. Fui andando e pensando no pobre diabo.

Não eramos amigos, nem nos conheciamos de muito. Intimidade, que

intimidade podia haver entre a doença delle e a minha saude? Tivemos

relações breves e distantes. Fui pensando nellas, recordando algumas.

Reduziam-se todas a uma polemica, entre nós, dous annos antes, a

proposito... Mal podeis crer a que proposito foi. Foi a guerra da

Criméa.

Manduca vivia no interior da casa, deitado na cama, lendo por

desfastio. Ao domingo, sobre a tarde, o pae enfiava-lhe uma camisola

escura, e trazia-o para o fundo da loja, donde elle espiava um palmo da

rua e a gente que passava. Era todo o seu recreio. Foi alli que o vi

uma vez, e não fiquei pouco espantado; a doença ia-lhe comendo parte

das carnes, os dedos queriam apertar-se; o aspecto não attrahia, de

certo. Tinha eu de treze para quatorze annos. Da segunda vez que o vi

alli, como falassemos da guerra da Criméa, que então ardia e andava nos

jornaes, Manduca disse que os alliados haviam de vencer, e eu respondi

que não.

--Pois veremos, tornou elle. Só se a justiça não vencer neste mundo, o

que é impossivel, e a justiça está com os alliados.

--Não, senhor, a razão é dos russos.

Naturalmente, iamos com o que nos diziam os jornaes da cidade,

transcrevendo os de fóra, mas póde ser tambem que cada um de nós

tivesse a opinião do seu temperamento. Fui sempre um tanto moscovita

nas minhas ideias. Defendi o direito da Russia, Manduca fez o mesmo ao

dos alliados, e o terceiro domingo em que entrei na loja tocámos outra

vez no assumpto. Então Manduca propoz que trocassemos a argumentação

por escripto, e na terça ou quarta-feira recebi duas folhas de papel

contendo a exposição e defesa do direito dos alliados, e da integridade

da Turquia, concluindo por esta phrase prophetica:

«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»

Li-a e metti-me a refutal-a. Não me recorda um só dos argumentos que

empreguei, nem talvez interesse conhecel-os, agora que o seculo está

a expirar; mas a ideia que me ficou delles é que eram irrespondiveis.

Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel. Fizeram-me entrar na alcova, onde

elle jazia estirado na cama, mal coberto por uma colcha de retalhos.

Ou gosto da polemica ou qualquer outra causa que não alcanço, não me

deixou sentir toda a repugnancia que saía da cama e do doente, e o

prazer com que lhe dei o papel foi sincero. Manduca, pela sua parte,

por mais nojosa que tivesse então a cara, o sorriso que a accendou

dissimulou o mal physico. A convicção com que me recebeu o papel e

disse que ia ler e responderia é que não tem palavras nossas nem

alheias que a digam de todo e com verdade; não era exaltada, não era

ruidosa, não tinha gestos, nem a molestia os permittiria, era simples,

grande, profunda, um goso infinito de victoria, antes de saber os meus

argumentos. Tinha já papel, penna e tinta ao pé da cama. Dias depois

recebi a réplica; não me lembra se trazia cousas novas ou não; o calor

é que crescia, e o final era o mesmo:

«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»

Trepliquei, e dahi continuou por algum tempo uma polemica ardente, em

que nenhum de nós cedia, defendendo cada um os seus clientes com força

e brio. Manduca era mais longo e prompto que eu. Naturalmente a mim

sobravam mil cousas que distrahiam, o estudo, os recreios, a familia,

e a propria saude, que me chamava a outros exercicios. Manduca, salvo

o palmo de rua ao domingo de tarde, tinha só esta guerra, assumpto da

cidade e do mundo, mas que ninguem ia tratar com elle. O acaso dera-lhe

em mim um adversario; elle, que tinha gosto á escripta, deitou-se ao

debate, como a um remedio novo e radical. As horas tristes e compridas

eram agora breves e alegres; os olhos desapprenderam de chorar, se por

ventura choravam antes. Senti esta mudança delle nas proprias maneiras

do pae e da mãe.

--Não imagina como elle anda agora, depois que o senhor lhe escreve

aquelles papeis, dizia-me o dono da loja, uma vez, á porta da rua. Fala

e ri muito. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os papeis delle,

entra a indagar da resposta, e se demorará muito, e que pergunte ao

moleque, quando passar. Emquanto espera, relê jornaes e toma notas. Mas

tambem, apenas recebe os seus papeis, atira-se a lel-os, e começa logo

a escrever a resposta. Ha occasiões em que não come ou come mal; tanto

que eu queria pedir-lhe uma cousa, é que não os mande á hora do almoço

ou de jantar...

Fui eu que cancei primeiro. Comecei a demorar as respostas, até que não

dei mais nenhuma; elle ainda teimou duas ou tres vezes depois do meu

silencio, mas não recebendo contestação alguma, por fadiga tambem ou

por não aborrecer, acabou de todo com as suas apologias. A ultima, como

a primeira, como todas, affirmava a mesma predicção eterna:

«Os russos não hão de entrar em Constantinopla!»

Não entraram, effectivamente, nem então, nem depois, nem até agora.

Mas a predicção será eterna? Não chegarão a entrar algum dia? Problema

difficil. O proprio Manduca, para entrar na sepultura, gastou tres

annos de dissolução, tão certo é que a natureza, como a historia, não

se faz brincando. A vida delle resistiu como a Turquia; se afinal

cedeu foi porque lhe faltou uma alliança como a anglo-franceza, não se

podendo considerar tal o simples accordo da medicina e da pharmacia.

Morreu afinal, como os Estados morrem; no nosso caso particular, a

questão é saber, não se a Turquia morrerá, porque a morte não poupa a

ninguem, mas se os russos entrarão algum dia em Constantinopla; essa

era a questão para o meu visinho leproso, debaixo da triste, rota e

infecta colcha de retalhos...

Dom Casmurro · 第 97 / 157 题