LXXXVII

A sege.

Chegara ao ultimo degrau, e uma ideia me entrou no cerebro, como se

estivesse a esperar por mim, entre as grades da cancella. Ouvi de

memoria as palavras do pae de Manduca pedindo-me que fosse ao enterro

no dia seguinte. Parei no degrau. Reflecti um instante; sim, podia ir

ao enterro, pediria a minha mãe que me alugasse um carro...

Não cuides que era o desejo de andar de carro, por mais que tivesse o

gosto da conducção. Em pequeno, lembra-me que ia assim muita vez com

minha mãe ás visitas de amizade ou de ceremonia, e á missa, se chovia.

Era uma velha sege de meu pae, que ella conservou o mais que poude. O

cocheiro, que era nosso escravo, tão velho como a sege, quando me via á

poria, vestido, esperando minha mãe, dizia-me rindo:

--Pae João vae levar nhonhô!

E era raro que eu não lhe recommendasse:

--João, demora muito as bestas; vae devagar.

--Nhã Gloria não gosta.

--Mas demora!

Fica entendido que era para saborear a sege, não pela vaidade, porque

ella não permittia ver as pessoas que iam dentro. Era uma velha sege

obsoleta, de duas rodas, estreita e curta, com duas cortinas de couro

na frente, que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair.

Cada cortina tinha um oculo de vidro, por onde eu gostava de espiar

para fóra.

--Senta, Bentinho!

--Deixa espiar, mamãe!

E em pé, quando era mais pequeno, mettia a cara no vidro, e via o

cocheiro com as suas grandes botas, escanchado na mula da esquerda, e

segurando a redea da outra; na mão levava o chicote grosso e comprido.

Tudo incommodo, as botas, o chicote e as mulas, mas elle gostava e

eu tambem. Dos lados via passar as casas, lojas ou não, abertas ou

fechadas, com gente ou sem ella, e na rua as pessoas que iam e vinham,

ou atravessavam deante da sege, com grandes pernadas ou passos miudos.

Quando havia impedimento de gente ou de animaes, a sege parava, e então

o espectaculo era particularmente interessante; as pessoas paradas na

calçada ou á porta das casas, olhavam para a sege e falavam entre si,

naturalmente sobre quem iria dentro. Quando fui crescendo em edade

imaginei que adivinhavam e diziam: «É aquella senhora da rua de

Matacavallos, que tem um filho, Bentinho...»

A sege ia tanto com a vida recondita de minha mãe, que quando já não

havia nenhuma outra, continuámos a andar nella, e era conhecida na rua

e no bairro pela «sege antiga». Afinal minha mãe consentiu em deixal-a,

sem a vender logo; só abriu mão della porque as despezas de cocheira

a obrigaram a isso. A razão de a guardar inutil foi exclusivamente

sentimental; era a lembrança do marido. Tudo o que vinha de meu pae

era conservado como um pedaço delle, um resto da pessoa, a mesma alma

integral e pura. Mas o uso, esse era filho tambem do carrancismo que

ella confessava aos amigos. Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos

velhos habitos, velhas maneiras, velhas ideias, velhas modas. Tinha o

seu museo de reliquias, pentes desusados, um trecho de mantilha, umas

moedas de cobre datadas de 1824 e 1825, e, para que tudo fosse antigo,

a si mesma se queria fazer velha; mas já deixei dito que, neste ponto,

não alcançava tudo o que queria.

Dom Casmurro · 第 94 / 157 题