O primeiro filho.
--Dê cá, deixe escrever uma cousa.
Capitú olhou para mim, mas de um modo que me fez lembrar a definição
de José Dias, obliquo e dissimulado; levantou o olhar, sem levantar os
olhos. A voz, um tanto sumida, perguntou-me:
--Diga-me uma cousa, mas fale verdade, não quero disfarce; ha de
responder com o coração na mão.
--Que é? Diga.
--Se você tivesse de escolher entre mim e sua mãe, a quem é que
escolhia?
--Eu?
Fez-me signal que sim.
--Eu escolhia... mas para que escolher? Mamãe não é capaz de me
perguntar isso.
--Pois, sim, mas eu pergunto. Supponha você que está no seminario e
recebe a noticia de que eu vou morrer...
--Não diga isso!
--... Ou que me mato de saudades, se você não vier logo, e sua mãe não
quizer que você venha, diga-me, você vem?
--Venho.
--Contra a ordem de sua mãe?
--Contra a ordem de mamãe.
--Você deixa seminario, deixa sua mãe, deixa tudo, para me ver morrer?
--Não fale em morrer, Capitú!
Capitú teve um risinho descorado e incredulo, e com a taquara escreveu
uma palavra no chão; inclinei-me e li: _mentiroso._
Era tão extranho tudo aquillo, que não achei resposta. Não atinava com
a razão do escripto, como não atinava com a do falado. Se me acudisse
alli uma injuria grande ou pequena, é possivel que a escrevesse tambem,
com a mesma taquara, mas não me lembrava nada. Tinha a cabeça vazia.
Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguem nos pudesse ouvir ou
ler. Quem, se eramos sós? D. Fortunata chegara uma vez á porta da casa,
mas entrou logo depois. A solidão era completa. Lembra-me que umas
andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro
de Santa Theresa; ninguem mais. Ao longe, vozes vagas e confusas, na
rua um tropel de bestas, do lado da casa o chilrear dos passarinhos
do Padua. Nada mais, ou sómente este phenomeno curioso, que o nome
escripto por ella, não só me espiava do chão com gesto escarninho,
mas até me pareceu que repercutia no ar. Tive então uma ideia ruim;
disse-lhe que, afinal de contas, a vida de padre não era má, e eu podia
acceital-a sem grande pena. Como desforço, era pueril; mas eu sentia a
secreta esperança de vel-a atirar-se a mim lavada em lagrimas. Capitú
limitou-se a arregalar muito os olhos, e acabou por dizer:
--Padre é bom, não ha duvida; melhor que padre só conego, por causa das
meias roxas. O roxo é côr muito bonita. Pensando bem, é melhor conego.
--Mas não se póde ser conego sem ser primeiramente padre, disse-lhe eu
mordendo os beiços.
--Bem; comece pelas meias pretas, depois virão as roxas. O que eu não
quero perder é a sua missa nova; avise-me a tempo para fazer um vestido
á moda, saia balão e babados grandes... Mas talvez nesse tempo a moda
seja outra. A egreja ha de ser grande, Carmo ou S. Francisco.
--Ou Candelaria.
--Candelaria tambem. Qualquer sorve, comtanto que eu ouça a missa nova.
Hei de fazer um figurão. Muita gente ha de perguntar: «Quem é aquella
moça faceira que alli está com um vestido tão bonito?»--«Aquella é D.
Capitolina, uma moça que morou na rua de Matacavallos...»
--Que morou? Você vae mudar-se?
--Quem sabe onde é que ha do morar amanhã? disse ella com um tom leve
de melancolia; mas tornando logo ao sarcasmo: E você no altar, mettido
na alva, com a capa de ouro por cima, cantando... _Pater noster..._
Ah! como eu sinto não ser um poeta romantico para dizer que isto era um
duello de ironias! Contaria os meus botes e os della, a graça de um e a
promptidão de outro, e o sangue correndo, e o furor na alma, até ao meu
golpe final que foi este:
--Pois, sim, Capitú, você ouvirá a minha missa nova, mas com uma
condição.
Ao que ella respondeu:
--Vossa Reverendíssima póde falar.
--Promette uma cousa?
--Que é?
--Diga se promette.
--Não sabendo o que é, não prometto.
--A falar verdade são duas cousas, continuei eu, por haver-me acudido
outra ideia.
--Duas? Diga quaes são.
--A primeira é que só se ha de confessar commigo, para eu lhe dar a
penitencia e a absolvição. A segunda é que...
--A primeira está promettida, disse ella vendo-me hesitar, e
accrescentou que esperava a segunda.
Palavra que me custou, e antes não me chegasse a sair da boca; não
ouviria o que ouvi, o não escreveria aqui uma cousa que vae talvez
achar incredulos.
--A segunda... sim... é que... Promette-me que seja eu o padre que case
você?
Que me case? disso ella um tanto commovida.
Logo depois fez descair os labios, e abanou a cabeça.
--Não, Bentinho, disse, seria esperar muito tempo; você não vae ser
padre já amanhã, leva muitos annos... Olhe, prometto outra cousa;
prometto que ha de baptisar o meu primeiro filho.