Uma egua.
Ficando só, reflecti algum tempo, e tive uma fantasia. Já conheceis as
minhas fantasias. Contei-vos a da visita imperial; disse-vos a desta
casa do Engenho Novo, reproduzindo a de Matacavallos... A imaginação
foi a companheira de toda a minha existencia, viva, rapida, inquieta,
alguma vez timida e amiga de empacar, as mais dellas capaz de engolir
campanhas e campanhas, correndo. Creio haver lido em Tacito que as
eguas iberas concebiam pelo vento; se não foi nelle, foi n'outro autor
antigo, que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. Neste
particular, a minha imaginação era uma grande egua ibera; a menor brisa
lhe dava um potro, que saía logo cavallo de Alexandre; mas deixemos
metaphoras atrevidas e improprias dos meus quinze annos. Digamos o
caso simplesmente. A fantasia daquella hora foi confessar a minha mãe
os meus amores para lhe dizer que não tinha vocação ecclesiastica. A
conversa sobre vocação tornava-me agora toda inteira, e, ao passo que
me assustava, abria-me uma porta de saida. «Sim, é isto, pensei; vou
dizer a mamãe que não tenho vocação e confesso o nosso namoro; se ella
duvidar, conto-lhe o que se passou outro dia, o penteado e o resto... »