Mau Homem

Quando o Casimiro passava nas ruas, bamboleando-se nas pernas compridas

e em fórma de parenthesis, as mulheres da villa lançavam-lhe das

portas olhadelas de soslaio, e mais de uma, tendo cuspido para o lado,

resmungava phrases indignadas.

E apenas elle se afastava o bastante para não poder ouvil-as, as

senhoras visinhas, tomando o para seu thema, davam largas á loquacidade.

--Então! Já se viu um marau egual?

--Tal desgraça! Parece mesmo que tem coisa ruim comsigo. Mau homem, por

força!

Era até impossivel que não tivesse alguma morte ás costas. Quem sabia

lá?... Talvez tivesse. A Rosa Moniz chegou uma vez a lembrar que

podia muito bem ser elle, e não o Antonio Garcia, quem tinha morto

o velho, que appareceu com a cabeça partida ao pé do forte de Santa

Catharina. Ninguem vira o Antonio fazer mal ao velho, e lá por se

lhe encontrar em casa uma camisa suja de sangue, não se devia jurar

que fosse elle o criminoso. Coitado! Se estaria a pagar as culpas de

outro?... Chamassem o Casimiro á justiça e veriam quantas testemunhas

appareceriam a accusal-o. Mas apezar d’isto--ou talvez por isto mesmo,

diziam alguns--a fortuna favorecia-o constantemente. É que nunca se

tinha visto ninguem mais feliz em negocio. Não obstante a má fama do

dono, não era só a casa de comida posta pelo Casimiro ao pé da praça,

que estava sempre cheia de freguezes; acontecia o mesmo á lojinha de

fazendas, da ilharga. Admirava que houvesse na villa tanto dinheiro

para se gastar. Verdade é que gente de fóra, de Agualva e da villa de

S. Sebastião, antes queria alli comprar, do que ir á cidade, ás lojas,

da rua da Sé, porque o Casimiro vendia tão barato como o Evangelista ou

o Bento Fartura. E tinha então um geito para aviar os freguezes! Quem

lhe entrasse na loja, sempre havia de comprar alguma coisa, o ponto era

ter dinheiro na algibeira. Ninguem melhor do que elle sabia entender-se

com qualquer comprador. Ora, por uma coincidencia que excitava pasmo

geral, aquella prosperidade tinha começado exactamente desde que a

Luiza viera de S. Miguel juntar-se com o marido e levar aquella vida de

negra.

--Vejam lá o que é a justiça de Deus, em que fala tanto a padralhada!

commentava um dia o escrivão Salles, socialista e livre pensador.

* * * * *

A opinião das mulheres, valha a verdade, não encontrava echo na maioria

dos homens. Só um tinha tal raiva ao Casimiro, que se o visse a

afogar-se e lhe bastasse extender a mão para o salvar, ficaria quedo.

Podera! Se depois de o Casimiro pôr a loja, o José Antonio já não

vendia quasi nada, apezar de ter baixado os preços de tudo! Uma noite,

por volta das dez horas, passando elle pela porta do seu inimigo, ouviu

a Luiza a chorar. Pôz-se á escuta. A mulher começou a accusar o marido

de não se importar com ella, de estar com a Margarida, tanto que muitas

vezes depois de fecharem o estabelecimento, elle saía de casa e só

voltava tarde, á noite, a horas mortas.

O Casimiro não respondia nada.

O José Antonio espreitou por uma fisga da porta e viu-o a arrumar as

fazendas n’uma prateleira.

A Luiza continuou:

--Ah! Tu não respondes! É que não tens que responder! Pois eu um dia

pego em mim, e vou a casa d’aquella ganhoa...

O Casimiro atirou ao chão com força uma peça de chita, que tinha na

mão, e voltando-se para a mulher, gritou-lhe:

--Isso é que é falar! Olha que eu!...

--Tu o quê! Não me mettes medo com essa cara de calhau. Talvez queiras

mandar nas minhas falas?

A ranger os dentes, deu dois passos para a mulher.

--Tu estás suffocando commigo, mas eu...

--Embatucaste outra vez, porque és um albardeiro, um corsario!

--Ah! Mulher, não me botes a longe, que eu perco-me por via de ti.

--Não me deites esses olhos, que eu não me faço amarella. Amarella ha

de ficar a Margarida, quando eu...

O Casimiro não se conteve mais tempo e agarrou a mulher por um braço.

--Anda, anda lá! Olha que eu pego a gritar aqui d’el-rei! ameaçou ella.

Ainda não tinha acabado estas palavras, quando a mão do marido,

batendo-lhe no alto das costas, a atirou de bruços, para o chão.

--Aqui d’el-rei! Aqui d’el-rei! Quem m’acode!

O José Antonio não quiz ouvir mais nada e foi de corrida buscar o

administrador do concelho, que estava alli perto, na Assembléa, a jogar

a sua costumada partida de voltarete.

Apenas conheceu a voz da auctoridade, o Casimiro abriu a porta e deu-se

á prisão sem resistir.

* * * * *

No dia seguinte, ás dez horas, foi a perguntas, á casa da audiencia.

O juiz, velho de cabello completamente branco e falar pausado, depois

de ouvil-o, censurou-lhe, com azedume mas sem desabrimento, a baixeza

por elle praticada, em abusar da força para bater n’uma mulher, que se

lhe entregara esperando generosidade e protecção, e não violencia e

tyrannia.

O preso escutou silenciosamente as palavras do juiz. A principio

conservou as sobrancelhas cerradas, e o olhar fixo n’um ponto do

sobrado, como se nenhuma attenção prestasse ao que lhe estavam dizendo.

Afinal, porém, as feições distenderam-se-lhe, um tremor convulsivo

começou de agital-o, e ao mesmo tempo que do peito lhe irrompiam os

soluços, foram-lhe as lagrimas rolando pela cara.

--Bem! Bem! disse o juiz. Não se afflija. Pelo que vejo está

arrependido do que fez...

Interrompendo-o com um gesto, e suffocando dentro em si o ultimo

soluço, o Casimiro começou a falar, com voz pouco perceptivel emquanto

o não arrastou o calor da narração. Se o juiz o tratasse mal, não lhe

diria nada, ou seria até capaz de uma violencia. Todavia a maneira

por que o magistrado se lhe dirigira, os conselhos que lhe dera mais

pezaroso que severo, tudo o fôra vencendo gradualmente. Pareceu-lhe que

se o tio João Furtado--o pae do Casimiro, em vez de estar enterrado no

cemiterio de Villa Franca ha muitos annos, lhe apparecesse n’aquella

occasião, usaria das mesmas falas, mas não tão bem feitas como as do

sr. juiz. Para este não queria portanto o marido da Luiza parecer um

mau homem.

* * * * *

Contou-lhe a sua vida toda, e o juiz quando elle acabou de falar,

apertou-lhe a mão commovido, e mandou-o embora, recommendando-lhe

prudencia.

As mulheres da villa quando souberam que o Casimiro estava solto e que

não passaria trabalhos, vociferaram que tão bom era o juiz como elle.

Talvez dissessem isto, porque não ouviram o Casimiro.

* * * * *

Contou ao magistrado a sua vida: como tinha casado com a Luiza, que

n’esse tempo era a bem dizer uma pequenota, mas que, talvez sem saber,

o puzera como doido. Nem obra de feitiçaria! Estava ainda a vêl-a, no

dia em que o tio João a foi pedir em companhia do filho, responder

muito envergonhada e como se tivesse medo:

--Pois elle vae, senhor! Se a minha mãe leva isto em gosto, eu tambem

levo. Não digo menos de isso.

Os primeiros tempos de casados, viveram-os como se não fossem d’este

mundo. A bem dizer, aquillo era até felicidade de mais. Elle trabalhava

sem descanço o dia inteiro, fazia o seu negocio e á tarde, quando

chegava a casa, lá o estava esperando a Luiza com a ceia prompta, e

extendia ao marido os braços com tanto carinho!

A desgraça foi elle ter de ir ás Furnas por causa de um negocio, que

por signal não lhe rendeu nada.

Como é que a Luiza se perdeu? Como se deixou ir pelas falas do menino

Diogo, filho d’aquelle sujeito que tem uma quinta muito bonita, mesmo á

entrada da villa de Lagoa, á mão direita de quem vae do lado da cidade?

O marido só muito depois veiu a saber tudo.

Uma visinha, a Maria do Jacintho, é que a tinha desinquietado, e uma

noite em que a Luiza foi ceiar com ella, deram-lhe uma gota de vinho a

mais...

--Ah! Que se eu tivesse sabido, matava logo aquella corsaria. Se queria

perder alguem, perdesse as filhas... Mas lá essas não precisaram de que

a mãe as ajudasse!

E o Casimiro, depois d’esta phrase, começou a falar outra vez

vagarosamente, quasi a custo.

Nem sabia dizer ao certo como chegou a descobrir tudo.

Ah! Tinham-lh’o dito. Quando entrou em casa, perguntou-o de repente á

mulher. A Luiza, colhida improvisamente, poz-se a gaguejar, mais branca

do que a cal da parede.

O marido deitou-lhe as mãos ao pescoço e matava-a, matava-a com

certeza, se as visinhas, que acudiram á bulha, não lh’a arrancassem das

mãos.

A pobrinha parecia morta. Chegou-se a pensar que elle a tinha afogado.

Depois foi voltando a si, olhou para todos com os olhos muito abertos e

começou a rir, a rir de tal modo, que uma das visinhas fugiu espavorida

pela porta fóra e as mais sentiram arrepios de frio por todo o corpo.

A Luiza não estava boa de cabeça e poz-se a dizer que tinha morrido,

que o seu anjo da guarda a levava pelo ceo dentro, mas que os outros

anjos fugiam d’ella e não queriam vel-a sequer, porque ... porque... E

desatava a rir e a chorar ao mesmo tempo, rasgando-se, atirando-se ao

chão, quando a não seguravam com força, com muita força.

Esteve assim tres dias. O Casimiro não comeu nem dormiu durante

esse tempo. Ao quarto dia mandou-a para o hospital. Na vespera, de

madrugada, quando a Luiza socegava, elle esteve, vae não vae, a

matal-a, sem força para resistir á tentação. Se a tivesse mais tempo ao

pé de si, era capaz de fazer essa loucura.

Desmanchou a casa e no primeiro vapor foi para a Terceira.

Em Angra não fez nada. Quiz tentar fortuna na Villa da Praia e não se

arrependeu da lembrança. O juiz bem sabia como elle tinha começado o

seu negocio.

* * * * *

Quando um dia o Casimiro estava só na loja, entrou-lhe pela porta

dentro uma mulher embrulhada n’uma capa e atirou-se-lhe aos pés,

chorando muito e dizendo:

--Perdoa-me, meu rico marido, perdoa-me!

O primeiro impeto do Casimiro foi agarrar n’ella e atiral-a para a rua,

como um animal ruim. Mas quando, ao crescer para a Luiza, a encarou,

pareceu-lhe que estava a sonhar.

Não era a mesma. Quer dizer, era a mesma, mas tão differente!... O

cabello tinham-lh’o cortado no hospital, para lhe pôrem neve na cabeça.

Os olhos sumiam-se no fundo d’umas covas negras como carvão. As faces,

d’antes tão córadas, e o corpo tão cheio antigamente, estavam só com a

pelle e o osso.

Como aquella desgraçada não tinha padecido!

Sem se levantar do chão, agarrada ás pernas do Casimiro, dizia-lhe no

meio de gritos entrecortados:

--Meu rico marido, não me deites d’aqui para fóra. Por alma de teu pae!

Elle fitou-a muito tempo, poz-lhe a mão sobre a cabeça e disse-lhe:

--A benção de Deus te cubra. Bem! Fica p’ra ahi.

No começo a Luiza servia o marido como uma escrava. Nem a Mimosa, a

perdigueira, era mais humilde. Mas ao fim de tempo, quiz recuperar o

seu antigo logar, e desconfiada de que o Casimiro fazia pouco d’ella

por ter alguma outra mulher, queixava-se, accusava-o.

Muitas vezes elle não lhe dava resposta, mas outras desesperava-se, e

como tinha genio, levantava a mão e...

--Que quer V. S.^a, sr. juiz? concluiu o desgraçado. Eu bem lh’o tenho

dito, mas a Luiza ainda não me entendeu: o vidro que se partiu uma vez,

por muita massa que lhe ponham, nunca mais torna a ser o que era.

[Ilustração]

[Ilustração]

Historias das Ilhas · 第 19 / 52 题