A Alegria do Mar

O Manuel João abalou dos Cedros aos primeiros arreboes da madrugada, e,

apezar de já ter os seus sessenta bem puxados, não afrouxou na extensa

caminhada até á Horta, a _villa_, como o povo do Fayal teima em

chamar á sua pequena cidade.

Quando chegou ao alto da Lomba, deu um suspiro de satisfação. _A

Alegria do Mar_ ainda não estava no ancoradouro. Só viu fundeado um

patacho e um hiate, e, navegando do Pico para S. Jorge, o paquete da

carreira, que tinha chegado, na vespera, das Flores, com a noticia de

já lá estar a barca, onde o filho voltava dos Estados Unidos.

Ha que annos o rapaz estava ausente, e quasi sempre sem escrever! Mas

o pae não estranhava a falta de noticias. Quando o José se despediu

d’elle e da mãe, a Andreza, pediu-lhe que escrevesse muitas vezes, o

que o Manuel João contrariou, dizendo bruscamente:

--Deixa falar tua mãe, e só gastes o tempo a trabalhar! Cartas são

papeis, não servem de nada. Se poderes mandar alguma coisa, manda

dinheiro. É com elle que a gente se governa!

O rapaz quasi nada lhes mandou, porque não obstante a grande lida em

que andava constantemente, poucas economias conseguiu coalhar. Só nos

ultimos tempos havia tido uma aragem de sorte, de maneira que voltava

remediado. O Francisco Madruga, um visinho chegado dois mezes antes,

contou aos dois velhos que o José tinha um collete de pelles todo

acolchoado de bellas aguias--aquellas moedas de ouro tamanhas e tão

luzidias, que, mal comparadas, fazem lembrar o sol abençoado, e que são

como elle fonte de vida e de alegria!

Tendo descido a ladeira da Conceição, o velho atravessou a disforme

e corcovada ponte, e entrou na cidade, indo parar no caes proximo do

castello de Santa Cruz.

Estava a informar-se, quando o facho do monte da Guia começou a fazer

signaes.

--Talvez aquellas bandeirinhas lhe estejam a responder, lembrou um

barqueiro, apontando para o alto da collina.

Effectivamente era o annuncio de que já se avistava a barca.

--Com este vento, a _Alegria do Mar_ não dá fundo antes d’essas

quatro horas, opinou o mesmo barqueiro.

--Ou das cinco, resmungou outro.

Como lhe sobrava tempo, o Manuel João foi comer alguma coisa a casa de

um primo, que tinha _botequim_ defronte do mercado.

* * * * *

A barca deitou ferro á tardinha.

Acossadas pelo vento sueste, pelo _carpinteiro_, as vagas batiam

com força recrescente na muralha da cidade e espadanavam com violencia,

ou formavam grandes rolos na areia. Saltando a cada instante para

o caes, a agua varria-o, de lado a lado, para logo se despenhar em

abundante cascata. Ás vezes, do meio do tapete espumoso apenas emergia,

como ilha exotica, o guindaste de ferro, muito luzidio com os banhos

consecutivos.

Á cautela, os barcos varados no caes tinham sido puxados para a rampa

superior.

Tanto que a _Alegria do mar_ fundeou, appareceu, do lado do

castello, o capitão do porto, seguido do patrão-mór, ambos embrulhados

em gabões impermeaveis. Só ao chegarem á porta da barraca da alfandega,

é que viram ser impossivel a execução do serviço.

--A minha pena, disse o official de marinha, é não ter mandado vir para

terra as tripulações dos navios, que já cá estavam. O barometro desceu

tanto!...

--É que a brincadeira vae ser um boccado seria, alvitrou o patrão-mór,

designando o céo com um gesto circular.

O Manuel João, que tinha acabado de voltar e que os ouviu, perdeu o

acanhamento e perguntou afflicto:

--Ha perigo, sr. capitão? Valha-me Nossa Senhora! Ha perigo de a barca

vir a terra?! Ai! O meu filho, o meu rico filho!...

Compadeceu-se o official de marinha e para socegal-o disse-lhe que

o navio tinha boas amarras, que o temporal havia de amainar, e que

ficasse elle certo de que na manhã seguinte veria o filho ao pé de si,

são e escorreito.

--Deus Nosso Senhor o ouça! Mas que noite eu vou passar!...

E como do alto do caes não via a barca, foi em busca de um sitio d’onde

ao menos podesse enxergar o navio, em que estava o José. Ah! Em casa

do primo havia uma _falsa_ fronteira ao ancoradouro!... D’alli

a pedaço lá estava o Manuel João, olhando para o mar por um oculo

americano que o primo lhe emprestou, e que em tempo claro punha a

Magdalena mesmo ao pé da gente, apezar das cinco milhas que ella dista

do Fayal.

Ainda bruxuleavam os ultimos clarões da tarde. Depois de muitas

tentativas, o velho lá conseguiu descobrir o tombadilho da barca

... e tres homens... Se algum d’elles seria o filho?... Pareceu-lhe

que sim!... O mais alto!... Bastava-lhe poder vel-o bem um instante

sequer... Em vão!... Quanto primeiro lobrigara, desvaneceu-se de todo

com as trevas que augmentavam.

Os olhos, a arderem como se os picassem alfinetes, deixaram de ver.

Não! Viram logo depois uma luzinha, a do pharol de bordo, passar e

repassar no vidro immovel do oculo, a compasso com os balanços do

navio, n’um movimento de vaevem, como a dizer-lhe que não! que não!

que elle não veria o filho! Atordoado, fechou a janella, a que já era

difficil estar, pela violencia da ventania.

Em baixo, no botequim, o primo deu-lhe animo, e, repetindo a prophecia

do capitão do porto, affirmou-lhe que o José, d’alli a meia duzia de

horas, lhe metteria os tampos dentro com um abraço.

--Sabes que mais? Vae dormir, que é a maneira de não sentires passar o

tempo.

Como achou boa a lembrança, o velho deitou-se para cima de um monte de

saccos de milho, e adormeceu pouco depois, a rezar um padre nosso pelo

José e por todos os que andavam sobre as aguas do mar.

* * * * *

Por volta da meia noite, acordou estremunhado.

--Está aqui, está na areia! dizia uma voz, que elle não conheceu. Ande,

ó tiosinho, dê-me um copo de aguardente da terra, para me consolar o

interior! Bem vê que estou como um pinto.

Assomou á porta e perguntou ao barqueiro, que assim falava:

--A _Alegria do Mar_ é que está em perigo?

--Bem visto que sim! Aquella já fez a sua ultima viagem. Está aqui,

está feita em estilhas.

O Manuel João desatou a correr pela porta fóra, como um doido, e pela

primeira travessa que topou á mão direita, arremetteu para o lado do

mar.

No sitio aonde foi ter, as vagas não batiam na muralha, porque lhes

quebrava a furia um cómoro de areia.

Ninguem! Nenhum som de voz humana, atravez dos bramidos do temporal!

Não viriam accudir áquelles desgraçados?... Sim! Ao pé da alfandega,

lampejou um clarão avermelhado. Archotes, que marcavam ao navio em

perigo o sitio melhor para encalhar.

--Mas a _Alegria do Mar_ obedeceria ainda ao governo?...

N’isto surgiram ao pé do velho uns vultos, que nem deram por elle, tão

entretidos estavam em observar o ancoradouro.

--Aqui é que ella vem dar!

--_Eh, home!_ Como o sabes?

--Verás! Mas queira Deus que d’esta vez não seja, como quando se perdeu

a baleeira americana. Afogou-se teu irmão e não apanhámos quasi nada.

--Nanja agora. Vem muita familia com dinheiro.

--Ah, _seus_ maraus! _Seus_ grandes ladrões! bradou furioso o Manuel

João crescendo para os _tarraços_, que fugiram desconcertados e foram

ajustar para outra parte os seus planos de rapinagem, infalliveis em

occasião de naufragio.

A sombra escura do navio estava já a curta distancia, pelo garrar

constante da amarração. Sobre o céu acinzentado, que o luar velado de

nuvens allumiava debilmente, os mastros desenhavam linhas negras mal

definidas, e no de traquete brilhava ainda o pharol, fazendo lembrar

pupilla de moribundo a espreitar o golpe de misericordia.

Mas nem se podia olhar para o navio, que a areia levantada da praia

pela ventania, chicoteava como ponta de azorrague, e cegava a quantos

assistiam á catastrophe.

[Ilustração]

Entretanto a barca vinha caminhando lugubremente para a costa, onde

havia de espedaçar-se. Por entre os lamentos da tempestade, mais

horriveis que os uivos de uma alcateia de lobos famintos, já se ouvia

o gemer da mastreação. Despidos das vergas pelo vendaval, os mastros

ainda se conservavam em toda a sua altura, inteiriçados, erectos como

braços chamando por soccorro afflictivamente.

O velho, agachado por traz do parapeito da rua do Mar, foi caminhando

para o Castello Novo, ao perceber que o navio derivava para o nascente.

N’isto sentiu-se uma pancada surda, outra e outra: a _Alegria do

Mar_ tinha dado no fundo. Em volta do velho já remoinhavam muitos

homens, attonitos, anhelantes, por verem que não podiam valer áquelles

desgraçados, que estavam alli tão perto, ao alcance da voz, e que

dentro em pouco seriam victimas da morte cruel, que havia umas pouca de

horas os estava chamando, attrahindo, hypnotisando.

--Só Deus lhes póde acudir! disse alguem ao pé d’elle.

--Quem ha de valer-lhe é o Senhor Santo Christo da Praia! pensou

o Manoel João, cheio de esperança. Pois se aquelle Senhor é tão

milagroso, que, levado em procissão ha cem annos, quando a terra tremeu

uma semana a fio, logo que chegou ao pé da costa fez parar a corrente

de fogo, que rebentara no Pico e vinha atravessando o canal, melhor

podia agora com certeza... Até lhe custava menos!

E, de joelhos, prometteu-lhe uma festa luzida, como aquella que lhe faz

todos os annos a camara da _villa_. Elle por si não aguentava com

os gastos, mas lá estava o collete do seu rapaz... Umas quatro ou cinco

aguias chegariam para a funcção.

* * * * *

O temporal estava no seu auge. A bahia, coberta litteralmente de

espuma, tinha o aspecto de um immenso lençol--livida e sinistra

mortalha.

Tombado sobre estibordo, o navio debruçava a mastreação para o lado da

terra, e, ainda mal cravado na areia, estremecia convulsivamente ás

furiosas investidas do oceano.

As ondas, batendo em cheio no costado, repuxavam a enorme altura, e

despenhavam-se em catadupa sobre o convez. Bastaram poucas arremettidas

para quebrar os mastros, sem todavia os separar completamente do casco.

N’este comenos viram-se distinctamente, sobre o fundo cinzento do

céu, tres vultos humanos agarrados á amurada do lado da pôpa. Ainda

escabujavam na lucta suprema da morte.

--Fiquem a bordo! gritou-lhes de terra um homem, alongando as syllabas

e fazendo porta-voz com ambas as mãos.

--A bordo! Podem lá resistir áquelles mares! objectou o patrão-mór,

embora calculasse que seria irremessivelmente envolvido e tragado pela

resaca, o temerario que pretendesse ganhar a costa, nadando.

--Ahi veem elles! Ahi veem elles! bradou subitamente uma voz e

repetiram logo muitas outras.

--Aproveitaram-se dos mastros! Salvam-se com certeza!

Então os espectadores da tragedia olvidaram o perigo e, atravez de

uma aberta da muralha, correram para o areal. Tres ou quatro mais

affoutos entraram pela agua dentro a buscar os naufragos, que vinham

engatinhando ao longo dos mastros, arriscados, uns e outros, a que os

esmagassem aquelles madeiros, já meio partidos e desconjuntados, mas

que ainda se erguiam e baixavam pesadamente ao embate dos vagalhões.

Afinal conseguiram salvar-se tres naufragos, e foram levados em braços

para uma loja perto d’alli.

O velho furou por entre os curiosos, que se apinhavam á porta, e

achou-se no interior da casa.

Mas era difficil ver qualquer coisa, á luz dubia espalhada lá dentro

por uma candeia. Por fim conheceu que dois d’elles eram já de bastante

edade e que sómente o terceiro... Estava deitado sobre uma enxerga, com

os olhos fechados, o parecer quasi cadaverico, os cabellos collados

á testa. Mas a estatura era a mesma do José... E as feições, a côr,

tudo!... Era elle, por força!... Só se Deus Nosso Senhor não fosse de

bondade e misericordia, deixaria que o pobre rapaz...

Examinou melhor o infeliz, que já ia recuperando os sentidos.

--Ah! Se elle abrisse os olhos!...

Faltavam poucos instantes.

Mas quasi teve medo de que a certeza viesse já tão proxima.

--Quem sabia lá se?...

N’esta occasião o naufrago disse umas palavras, que elle não entendeu.

--É americano, notou alguem, ouvindo a phrase dita em inglez, mas com a

pronuncia nasal caracteristica dos cidadãos dos Estados-Unidos.

O Manoel João ficou perplexo.

Sim, o seu José tambem devia saber falar americano... Mas em tal

occasião falaria outra lingua, que não fosse aquella em que a mãe o

tinha ensinado a rezar? Só se não estava bom da cabeça!

N’isto abriu os olhos o naufrago.

--Não era o José!

O velho sahiu d’ali para fóra cambaleando, e parou no sitio onde devia

ter estado sempre, onde podia salvar o filho. Outros certamente o

haviam salvo, em logar d’elle.

--Não! Ninguem mais tinha escapado.

A barca, durante aquelle tempo, acabara de esmigalhar-se. No

principio tinha abalos convulsivos, erguia-se para tornar a cahir

desamparadamente, luctava, estrebuchava, como se o instincto de

conservação lhe déra forças contra o gigante. E o mar tambem parecia

exasperado por aquella resistencia. Sacudia a pobre _Alegria do

Mar_ com os impetuosos estremeções da féra, que abócca a presa e a

abana e estracinha, para reduzil-a por uma vez á immobilidade da morte.

Ao cabo a tempestade foi amainando, e na praia ficavam dois ilhotes

cravados na areia, a curta distancia um do outro--a proa e a pôpa do

navio, com o tombadilho empinado, quasi a prumo. No da proa ainda

existia um pedaço da borda, a que tinham estado aferrados os ultimos

naufragos, e d’onde os levara a um e um o pavoroso remoinhar das vagas.

Aquelles dois fragmentos informes eram quanto restava da _Alegria

do Mar_, que poucas horas mais cedo, as vélas cheias de vento,

cortava ligeira as aguas do Atlantico; os tres naufragos, os unicos

sobreviventes dos quarenta que alli vinham, todos valentes campeões da

lucta pela vida, alguns a procurarem, com a vista no horisonte, a terra

da patria e antegosando as sonhadas alegrias do regresso.

* * * * *

O Manuel João, perdida a ultima esperança, voltou para os Cedros no

outro dia á tarde, mais arrastando-se do que andando por aquella

estrada, que lhe pareceu dez vezes mais comprida.

Logo que a Andreza o avistou, saiu-lhe ao encontro. Já sabia do

naufragio, mas cuidava que o filho tivesse escapado.

Dissera-lh’o por dó um visinho, que acabava de voltar da cidade.

--Onde está o nosso filho, Manoel João? Onde está o nosso filho?

--Ai, mulher, a gente já não tem filho! redarguiu o marido, cahindo

sentado no poial da porta.

--Tu estás doido, homem! gritou a Andreza, aos soluços.

--Quem o deu tambem o podia tirar, obtemperou elle, apontando para o

ceo.

--Dizes isso porque não és mãe! bradou a velha, e fez um gesto de

ameaça para o ente sobrehumano, que o marido acabava de invocar.

--Então, mulher não mettas a alma no inferno! aconselhou o Manoel João,

levantando-se e cingindo-a com os braços. Depois lembrou-se de coisa

muito importante, relanceou a vista em redor, para certificar-se de que

ninguem mais ficaria sabendo aquella nova desgraça, e disse a meia voz:

--Sabes? Como não se encontrou o corpo do nosso José, lá se foi tambem

o collete das aguias!

--O collete das aguias! Seja tudo pelo amor de Deus!

E choraram outra vez, com mais força ainda.

[Ilustração]

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Historias das Ilhas · 第 16 / 52 题