DESENHOS DE CELSO HERMINIO

LISBOA

PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA

LIVRARIA EDITORA

_50, 52--Rua Augusta--52, 54_

1899

LISBOA

TYPOGRAPHIA E STEREOTYPIA MODERNA

Becco dos Apostolos, 11

[Ilustração]

O Casamento do Veterano

¿Su esposo la perdona aunque lo infama?

¿Ama y perdona?--Es imposible; no ama.

CAMPOAMOR.

I

No dia em que o Jorge casou com a filha da Isabel houve grande reboliço

no Castello de S. João Baptista. Depois da missa regimental, o padre

capellão de caçadores 10 recebeu os noivos, com prévia dispensa do

prelado da diocese, na grande capella da fortaleza. Era numerosa a

assembléa, formada especialmente pelos curiosos.

Officiaes e soldados, logo que o batalhão destroçou, correram para o

templo, onde já encontraram muitas mulheres, algumas de _manto_,

aguardando anciosas a chegada do cortejo nupcial, e fazendo em voz

baixa e com enorme dispendio de gestos, abundantes commentarios,

qual d’elles mais frisante, á resolução tomada pelo cabo de

veteranos.--Escolher para mulher uma raparigota, que podia á vontade

ser sua neta!--

--Eu cá por mim, exclamava a Luiza Braga, escancarando a boccaça meio

desdentada, ía jurar que lhe deram _coisa para querer bem_. Aqui

onde me vêm, _destrinço_ o Jorge desde rapaz pequeno, e nunca lhe

descobri tenções de casar. Não era então aos cincoenta e oito annos,

que estando com o juizo todo, havia de... Nada! Nada! Elle bem sabe que

«albarda nova em burro velho é matadura certa».

--E a quem o Jorge foi buscar?... Á Rosa!... acudiu a Josepha Julia,

cunhada do sargento Migueis, piscando muito o olho esquerdo, unico de

que era possuidora.

--Eu não digo que a rapariga seja _somenas_, mas sempre é filha da

Isabel, e ninguem desmente o seu sangue. D’arredio, d’arredio, é que eu

gosto de vel-as a ambas!

--Deixe a tia Luiza estar que a Rosa tambem não é nenhuma santinha,

replicou a Josepha. Não lhe quero pôr _pitafe_, mas se foi verdade

aquella historia com o sargento Luiz...

--Não seria, menina. Olhe que a Isabel é rata sabia e não a deixava ir

á noite, sósinha, para o baluarte de S. Pedro. O 33 da artilheria é que

disse, que tinha lá visto os dois, mas como todos lhe conhecem a má

lingua... Pois não foi elle que andou por ahi a espalhar que a menina

Josepha olhava para o alferes da segunda, um homem casado e pae de

filhos?!

A Josepha, ao ouvir estas palavras, que lhe foram quasi segredadas,

poz-se vermelha que nem malagueta, e redarguiu promptamente:

--Tão damnada é a lingua d’elle, como as que repetem o que o marau

vomita. _Ubei!_

--Ó menina, olhe que eu não tenho falas com o 33!

--Nem deve ter, que a tia Luiza, por ter essa edade, não escapa a

similhante navalha. Sempre que o tio Braga passa ao pé d’elle, apanha a

sua risadinha e é apontado com o dedo...

A velha despediu-lhe um olhar terrivel, enguliu em secco, e atalhou:

--Bem, bem, não se fala agora nas patifarias do 33. Em todo o caso o

Jorge devia saber que a Rosa não era para a sua bocca.

--E que pode empanzinar com o petisco, accrescentou a outra, já de

perfeito accordo.

N’esta occasião sentiu-se o ruido dos passos de muita gente que vinha

atravessando a parada, e os noivos d’ahi a instantes entravam na

capella, acompanhados pelos padrinhos, pelos convidados e pelas pessoas

que, impellidas pela curiosidade, tinham ido esperal-os á porta da

casa terrea, onde a viuva do sargento José de Medeiros vivia desde ha

muito, por mercê dos governadores do castello. O Jorge, aprumado dentro

da sua farda de gola alta, botões muito lusidios e divisas alvas de

neve, mal deitava os olhos para a gente que o rodeava, e, com a cara a

escaldar, seguiu machinalmente pela capella adeante, ao lado da noiva,

que vestida de cassa branca semeada de raminhos vermelhos, e toucada de

grinalda e veo, dava mostras de vergonha, mal deixando ver os grandes

olhos pretos por baixo das longas pestanas assetinadas e bastas. No

rosto oval, branco e pequenino, esbatia-se um rubor intenso.

Nunca tinha imaginado poder tornar-se o alvo da attenção de tanta

gente, e, se não fosse uma vergonha, fugiria d’alli, a bom correr.

Agora é que deveras se arrependia de ter acceitado a grinalda e o veo á

menina Elvira, filha do capitão da segunda companhia de caçadores 10,

que estava casada, desde o mez anterior, com o tenente Aurelio Joaquim,

ajudante da praça. Se tivesse trazido como tencionava, o seu lenço

de seda de barras azues, não daria tanto nas vistas. Era tambem esta

a vontade do Jorge, porém a Isabel insistira pelo veo, proclamando-o

«coisa muito mais fina».

O cortejo rompeu atravez da multidão, direito ao altar, onde havia de

effectuar-se a ceremonia.

Notaram alguns dos presentes, e antes de todos a Luiza Braga, que a

Rosa tinha córado mais ainda, e estremecido levemente, ao dar com os

olhos no sargento Luiz, que, muito apertado na fardeta côr de pinhão,

se bamboleava, com ar de escarneo, na primeira fila dos curiosos.

--Nem aqui mesmo a deixa! Já é pouca vergonha! murmurou a Luiza ao

ouvido da Josepha Julia.

--Elles lá se entendem, regougou esta ultima, e concluiu, suspirando:

«Tal desgraça!»

Entretanto o padre capellão ia tartamudeando as palavras sacramentaes,

e o sargento Luiz muito satisfeito de si cofiava o farto bigode louro.

--Olhem! Lá está o sr. governador! murmurou a Luiza Braga para as

mulheres que a rodeavam.

O coronel Jeronymo Cardoso acabava effectivamente de surgir a uma

porta lateral da capella e deitava olhares perscrutadores para os

noivos, sem comtudo esquecer as dores cruciantes, que lhe impunham os

terriveis joanetes.

A Isabel tinha querido que o Jorge o convidasse para padrinho, e

chegara até a sondar _sua incellencia_ com exito razoavel, mas o

veterano puzéra os pés á parede, e a despeito de uma formal reprimenda

da futura sogra, insistiu em escolher o José Maria, seu camarada desde

o cerco do Porto, que lá estava na egreja á ilharga do amigo, tentando

aprumar quanto possivel o corpo já muito derreado pelos janeiros.

O jantar do casamento foi em casa do Jorge.

Tudo correu bem e só houve de notavel o pregar a Isabel, já um tanto

avinhada, uma furiosa descompostura na Luiza Braga, porque a viu á

porta da rua, espreitando.

Os convivas apaziguaram a questão e d’alli a pouco despediram-se, indo

o José Maria, um quasi nada alegrote, acompanhar a Isabel, até casa.

--Parecemos tambem dois noivos, disse o velho, batendo-lhe, com a

mão aberta, no meio das costas, e foi-se embora a trocar as pernas,

em quanto a viuva lhe gritava do limiar da porta que «para um marido

_tanto_ fino só a rainha que estava em Lisboa!»

N’aquella noite, mercê das copiosas libações, dormiram mais

profundamente alguns dos habitantes do burgo militar, que pousado

no isthmo que liga a peninsula do Monte Brazil ao resto da ilha

Terceira, olha sobranceiramente para Angra atravez das suas numerosas

canhoneiras.

Historias das Ilhas · 第 5 / 52 题