_Faça cabelleiras, mestre André_
Em 1760 um cabelleireiro francez chamado André, arrojou-se a escrever
uma tragedia em 5 actos, em verso, intitulada--_O terramoto de
Lisboa_--e mandou a peça a Voltaire, que elle chamava _caro confrade_ na
seguinte obra prima epistolar:
AO ILLUSTRE E CELEBRE POETA
M.ʳ DE VOLTAIRE
«_Meu caro confrade._
«É um estudante, noviço na arte da poesia, que se aventura a dedicar-lhe
a sua primeira obra, tendo-o sempre reconhecido por um dos nossos
celebres, pelas pomposas obras que tem dado e dá á luz todos os dias. Eu
julgar-me-hei feliz se quizer lançar um rapido olhar a essa pequena
obra, favorecendo-a com a menor das suas recordações. Faltaria a um
grande dever se não confessasse que o reconheço por meu mestre. Se pela
sua bondade se dignar favorecer-me eu prometto-me que, livre de todo o
receio, publicarei constantemente os seus louvores e testemunharei em
toda a parte, quanto lhe sou devedor por a haver acceitado.
«Sou, M.ʳ e caro confrade, humillissimo e affeiçoado servo
_André._»
O grande poeta divertiu-se muito com esta singular e comica
confraternidade. E respondeu ao _seu caro confrade_ com uma missiva de
quatro paginas, encerrando apenas estas palavras, cem vezes
repetidas:--«Faça cabelleiras, mestre André; faça cabelleiras, mestre
André.»
Esta espirituosa resposta fez dizer a mestre André que Voltaire
envelhecia, porque começava a repetir-se.
A obra prima de mestre André fez muito ruido, porque em 1805, mais de
quarenta annos depois, um director alegre fez representar a peça _O
terramoto de Lisboa_, n'um pequeno theatro de _boulevard_ e ella obteve
um immenso successo comico, em oitenta representações successivas!
--A phrase--_faça cabelleiras_, tornou-se uma das locuções mais
pittorescas da lingua franceza, com emprego em todas as outras. É uma
traducção espirituosa e comica do _ne sutor ultra crepidam_, dos
latinos.