_Tres linhas escriptas e eu farei enforcar quem as escreveu_
Nada ha que mais se preste á critica e á satyra do que as leis.
Anacharsis comparava-as ás teias d'aranha que prendem as pequenas e
deixam passar as grandes moscas. La-Fontaine rimou a mesma ideia quando
disse:
«Assim, conforme o que és, ou grande ou miseravel «A justiça fará
que sejas branco ou negro.»
Não confirma a sabedoria das nações, os juizos do philosopho e do
fabulista, quando concede ao condemnado vinte e quatro horas para
maldizer a um juiz? Mas a cabula, o processo, o codigo n'uma palavra não
justifica hoje estas accusações? e os traços que acabamos de citar são
uma calumnia ou maledicencia? O presidente d'Ormesson parece ter
respondido a esta pergunta quando disse:
--«Se eu fosse accusado de ter roubado as torres de Notre Dâme, e
ouvisse gritar atraz de mim--_agarra que é ladrão!_--eu fugiria
desesperadamente.»
Este terror que inspira a justiça, mesmo ao mais innocente, está
plenamente justificado por estas palavras:
--«_Deem-me tres linhas da escripta d'alguem e eu o farei enforcar._»
Os eruditos estão divididos sobre o auctor d'esta celebre phrase, que
attribuem a Laubardemont, ao Padre Joseph, a Richelieu, a Jeffries, e
que M. Proudhon, mais prudente, attribue a um ... criminalista.
O cardeal Richelieu, que conhecia o poder do equivoco, citava um dia
esta phrase deante dos seus secretarios. Um d'elles, julgando
embaraçal-o, escreveu n'um cartão--«Um e dois fazem tres.»--«Blasphemia
contra a Santissima Trindade!--exclamou o cardeal--um e dois só fazem
um.»