_Lavar as mãos como Pilatos_
Poncio Pilatos, governador da Judeia, sob Tiberio, seria completamente
desconhecido hoje, se o seu nome se não achasse envolvido no maior
successo da historia. Jesus, perseguido desde muito pelo odio dos
principes dos padres e dos phariseus, tinha sido apresentado perante o
tribunal de Caiphaz, e condemnado á morte por se dizer Christo, filho do
Deus vivo. Mas esta sentença não podia ser executada sem as ordens do
governador romano. Os judeus levaram Jesus a Pilatos. Este convencido da
sua innocencia, perturbado, além d'isto, por um estranho sonho que sua
mulher Claudia Procula tinha tido durante a noite e que lhe despertára o
maior interesse pelo Christo, procurava illudir a sentença de morte. Mas
a populaça tendo reclamado o ultimo supplicio com gritos de furor, e
ameaçado o proprio Pilatos com a cólera de Cesar, o fraco governador
abandonou Jesus á raiva dos algozes. No entretanto, querendo protestar
contra o que elle considerava uma suprema injustiça, elle fez trazer
agua, e lavando as mãos deante do povo, exclamou:
--«Estou innocente da morte d'este justo; sois vós que respondereis por
ella!»
--«Sim, sim--gritaram os loucos--que o seu sangue cáia sobre nossas
cabeças e sobre nossos filhos!»
E crucificaram-n'o!
Alguns annos mais tarde, Pilatos, cahindo em desagrado sob Caligula, foi
exilado, e no exilio, perseguido pelos remorsos, matou-se de desespero,
dizem.
A sentença iniqua que Pilatos pronunciou contra Jesus pesará sempre
sobre a sua memoria, e até ao fim dos seculos Pilatos será o typo dos
magistrados pusillanimes, que, obedecendo á voz do medo e dos seus
interesses, teem a cobardia de pronunciarem condemnações que a
consciencia reprova. Embora lavem as mãos, o sangue innocente derramado
deixará sempre uma nodoa indelevel, que será para elles uma nodoa
infamante.
--É, fazendo allusão á acção de Pilatos, que em linguagem familiar se
diz:--«_D'ahi lavo as mãos_», como declaração de que se não tem
responsabilidade nas consequencias de successos para que se concorreu.