_Espada de Damocles_
Damocles, um dos cortezãos de Denys, o Antigo, fazia-se notar pela
emphase das suas adulações, e não cessava de elogiar a ventura de seu
senhor. O tyranno resolveu inicial-o nos prazeres da grandeza, por meio
d'uma allegoria espiritual que faria honra a um califa oriental.
Convidou-o a tomar o seu logar durante um dia, e deu ordens para que
Damocles fosse tratado como rei, e lhe servissem um banquete sumptuoso.
O cortezão tomou logar n'um leito d'honra; tem a fronte cingida do
diadema; as iguarias mais exquisitas cobrem a meza. Damocles está
rodeado d'escravos, attentos aos seus minimos signaes; deliciosos
perfumes fumegam em torno a si, e a mais adoravel musica lhe encanta o
ouvido; as cortezãs adulam-no, e poetas cantam em seu louvor.
Embriaga-se em ventura, quando, de subito, levantando os olhos, vê
suspensa, por cima de sua cabeça, uma espada apenas preza pela crina
d'um cavallo. Pallido e tremulo, deixa escapar a taça das mãos,
levanta-se desnorteado e pede a Denys para pôr termo á sua realeza.
Tinha comprehendido o que é a ventura d'um tyranno.
--De todos os factos historicos que deixaram traço nas linguas, a
_espada de Damocles_ é o mais conhecido, poderemos até dizer o mais
vulgar. É o perigo temido ou previsto, que póde ferir um homem no meio
d'uma apparente prosperidade.
Um escriptor contemporaneo disse:--«A abobada dos céus é para o
criminoso a sala do festim de Damocles, d'onde pendia uma espada sobre
sua cabeça».
E Alfredo de Musset, nas _Confissões d'um Filho do Seculo_,
tambem:--«Conta-se que Damocles viu uma espada sobre a sua cabeça; é
assim que os libertinos parecem ter por cima d'elles um não sei quê, que
lhes grita constantemente:--Vai, vai sempre, estou por um fio!»