Com ser a luz uma communhão universal do Amor Divino, meza infinita em
que os soes aos milhares ministram aos planetas sem conto; e aos entes
sem limite de que os povoou o Omnipotente, é comtudo certo, que, assim
como vão desiguaes os quinhões de luz de cada sol aos planetas e
satellites que a distancias entre si diversas o rodeiam, assim tambem na
esphera que habitâmos, por exemplo, a luz vem medida aos sitios, ás
estações e ás horas, ás especies, aos individuos, ás edades e ás
circumstancias, em proporções diversissimas, todas calculadas, todas
certas, e todas em harmonia com as complicadas precisões de um systema
geral e perfeitissimo.
Comparae a claridade das cinco zonas; em cada zona, a das quatro
estações; e em cada estação, a das montanhas, dos valles, dos bosques, e
das cavernas; a da manhan, do meio dia, da tarde e da noite. Depois em
cada logar e á mesma hora, considerae no como a luz, banhando e tingindo
unicamente a superficie dos corpos inorganicos, incapazes de a sentir,
vai abraçar com as suas caricias os entes organisados, que n'ella, e no
calor seu companheiro, parecem aspirar a vida, o amor, a alegria; a
adoração, como sectarios de Zoroastro. Os vegetaes, sem olhos, a bebem,
se inebriam, riem-lhe em flores, com murmurios lhe falam, com
fragrancias a lisonjeiam; brincam-lhe com os raios, decompondo-os na
folhagem buliçosa, resurtindo-os; alvoroçam-se com a aurora, pendem-se e
fecham-se ao escurecer; despem galas no inverno; na primavera
retoucam-se e amam; no estio pompeiam e triumpham. Mas n'esta mesma
generalidade ¡que differenças e quasi excepções! Para todos a luz é
condição do ser e felicidade; mas o musgo que prospera na penumbra da
Islandia, pereceria fulminado como Sémele, se o ardente sol dos tropicos
o visitasse; as plantas magnificas dos tropicos, nas nossas latitudes,
só temperadas, morreriam cegas á mingua de esplendores. Uma herva ala-se
do fundo do fojo para o celeste amante, a quem o girasol no seu jardim
vai tambem seguindo com a larga fronte doirada, que parece um retrato
ephemero do bello astro, explica a fabula de Clície, e dá razão aos dois
versos do Camões:
_Transforma-se o amador na coisa amada_
_por virtude do muito imaginar._
Entretanto as grutas e os subterraneos lá teem não menos seus jardins
umbrátiles, onde mil especies vegetaes, com uma só gotta de luz diluida
nas trevas, alimentam e aditam a existencia.
Os animaes, se exceptuarmos algumas raras especies mais baixas na
gerarchia, que parecem não ver, dado se voltem para a luz como as
plantas, os animaes absorvem-n-a com delicias.
Os seus olhos são os vasos de gemmas finissimas por onde os seus
espiritos a bebem; mas n'estes vasos sem conto, ¡que differenças nos
tamanhos, nos feitios, nas cores, nas propriedades! Todos se enchem á
immensa cascata de luz que jorra inexhaurivel: quaes em golfadas
copiosas, quaes em estillas diminutas; estes, sombria, que fôra trevas
para aquelles; aquelles, tão luxuosa, que cegaria a estes. A aguia
devassa do alto os pormenores da campina; o insecto perscruta, com
inveja dos sabios, o ignorado mundo dos infinitamente pequenos; e
eximindo-se por sua tenuidade á perspicacia humana, é ainda por ventura
condor, elephante, e lince para universos vivos, nem por nós sonhados, e
de mil vezes mais espantosa exiguidade. Ha olhos-telescopios, ha
olhos-microscopios, olhos que aproximam, olhos que afastam, olhos que
alternativamente afastam e aproximam, olhos que se fitam rectos n'um só
ponto, olhos que miram para todas as partes ao mesmo tempo, olhos para o
dia, olhos para a noite, olhos unicos, olhos multiplices, olhos, em
summa, que só a Sabedoria de Quem os ideou e perfez poderia
discriminar e abranger em descripção ou cómputo.
No meio d'estas myriades de orgãos destinados a pascer-se nas lindezas e
magnificencias exteriores da Natureza, foi ao homem, seu filho
predilecto, que ella deu com a razão e o engenho os mais admiraveis de
todos os olhos. Emquanto os dos outros viventes, afinados pelas
precisões circumscriptas dos que os possuem, não transpõem limites
relativos e determinados, os do homem, pelos milagres da Arte, tornam-se
mais que de aguia no alcance longinquo; rivalisam com os dos insectos,
mergulhando profundamente pelos abysmos da pequenez; vão buscar para o
dominio da Sciencia astros sumidos nas profundezas do espaço, arcanos de
anatomia nos vermes imperceptiveis, nos globulos do polen das florinhas
mais tenues, nos atomos da poeira impalpavel; e dominadores da luz,
pelos instrumentos com que se completam, a refrangem á vontade, e a
decompõem, como a divina Iris no firmamento.
¡Entretanto a vista humana, assim mesmo dotada, quão pobre não é para
saciar o animo curioso! ¡e então no seu estado natural, que myopia! ¡que
imperfeição! ¡que fallibilidade! Aquelles mesmos objectos, que pelo seu
volume e proximidade mais parecem estar em relação activa, passiva,
necessaria, quotidiana, com o espectador, não passam de uns mascarados e
uns fingidos, que, divertindo-o e ajudando-o, zombam d'elle continuamente.
¿Que é ver uma rosa, uma arvore, um edificio, um monte, o Oceano, mesmo
com os olhos mais perspicazes e attentos? É receber de cada coisa
d'estas uma ideia vaga, superficial, imperfeita, diminutissima, falsa.
Quando não, acuda a lente a averiguar uma só petala da rosa, uma só
folha da arvore, uma só pollegada do edificio, um só grão da terra do
monte, uma só gotta do Oceano (mas ainda a lente não diz tudo); para
logo se reconhecer com espanto que isso que se chamára ver, não passava
de illusão; era um andar palpando em grosso e ás cegas alguns vultos
grandes; nada mais. Se o mundo moral e intellectual nos estão inçados de
mysterios, erros, e ignorancias, os aspectos do mundo physico não são
menos enganosos; representa-se a comedia da vida n'um theatro já para
ella de proposito armado pela Natureza, com o mais ficticio de
todos os scenarios: _Mundum tradidit Deus disputationi hominum._
N'este cahos universal de enigmas e chimeras, o instincto de saber
impacienta-se, agita-se, barafusta, sonda, investiga, conjectura;
adivinha ás vezes; aspira a matar a grande esphinge, que se ri d'elle, e
que não morre.
O instincto da Arte, menos ambicioso, mais pacato e mais philosophico a
seu modo que o ardor scientifico, contenta-se com as brilhantes
apparencias; estuda-as, sem pensar em as dissecar; e, como de todas lhe
resultam harmonias, todas falam ao espirito e ao coração, sobre todas
paira o ideal, de todas se reflecte o amor e a sabedoria, não precisa,
nem pede mais, posto o deseje, e o aproveite quando a Sciencia o
desencanta e lh'o ministra.
Reflectindo nas verdades incontestaveis e vulgares que deixâmos
indicadas, tem-se logo de reconhecer que os poetas, na sua qualidade de
pintores, só reproduzem apparencias, perseguem sombras; e, combinando-as
e variando-as ao sabor da phantasia e do gosto, aquecendo-as de affecto,
e arraiando-as de idealidade, criam para a alma, dentro n'um mundo
phantastico, outro mundo ainda mais phantastico. ¿Não é assim?
Ora pois: a criança tão nossa conhecida recebêra, nos annos das
primeiras e fortissimas impressões, as ideias, como vós em egual edade
as recebestes, e as continuais a receber, dos objectos que aos olhos se
offerecem em multidão; depois, fechada a sós com essas ideias, não as
destruiu: fortaleceu-as, confirmou-as; depois finalmente, quando entre
ella e o espectaculo se ergueu de novo o panno, e a scena lhe appareceu
transfigurada, isto é, quando reviu menos vividos e distinctos os mesmos
objectos, tirou das suas reminiscencias com que os completar.