A PRIMEIRA NOITE NA SERRA

_.................ibi hæc incondita solus_

_Montibus et silvis studio jactabat inani._

¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! Em solitario monte,

que se espanta de ver-me, e cuja austéra fronte

nada avistou jamais no amplissimo horizonte

do mundo a tumultuar, de cidades a rir...

n'este ermo ignaro, frio? mudo...

aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo,

¡o meu presente e o meu porvir!

Genio invisivel da montanha,

de astros, de sol, o ceo te banha;

o mar de longe te acompanha

no livre cantico sem fim.

Escada de Jacob da terra ao firmamento,

a mansão tua é monumento

da potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.

Emquanto, em derredor do solio teu sublime,

a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,

se volve, se transforma, e sua angustia exprime

n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,

a variedades sobranceiro

mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,

e do diluvio assolador.

Silencio e paz comtigo habita;

o ermo é como o eremita;

loucas vaidades não cogita;

ama o seu rustico trajar;

em apparente inercia ama que ferva occulto

de seus affectos o tumulto,

seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.

Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:

eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,

póde ouvir de tua harpa a casta melodia,

e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;

sim; mas eu, frivolo, profano,

á solidão extranho, affeito ao mundo insano,

¿que hei de esperar? ¿que tenho aqui?

¿Toda a minh'alma se entristece,

e se confrange, e se ennoitece,

ao ver que a sorte lhe destece

de um sopro os aureos sonhos seus.

Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!

sonhava mundo... ¡acho um deserto!

sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!

Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.

¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,

quem me resurgirá! Dos montes a linguagem...

oiço... escuto... medito... e em vão quero entender;

é como uns sons d'ignota fala;

qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,

sem me abalar, nem me embeber.

¡Oh! ¿á minh'alma taciturna

que importa, ó montanha soturna,

que de perfumes sejas urna

da terra erguida sobre o altar?

¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,

que o sol doirado, ao teu deserto

mais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?

Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,

¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,

só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,

bramirei:--«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!

¡são mais pesares, mais saudades,

mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,

mais tentações a dar-me fel!...»--

¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!

¡Tanto vate a ceifar louvores!...

¡Tanto moço a colher amores!...

¡Tantos loireiros e rosaes...

E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,

qual roble que geme indignado,

vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!

Assim ruge, baldão de vingativo nume,

esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;

assim nos gelos sua, agrilhoado ao cume

do caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.

Só o abutre de eterna fome,

que o grande coração algoz sem fim lhe come,

responde em ais á sua voz.

Fenece o dia. ¡Hora jocunda,

que eu tanto amava! ¡hora fecunda

dos cantos meus! ¿porque me inunda

nova amargura o coração?

¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?

a serra em luto se me encobre;

a nocturna mudez duplica a solidão.

Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.

De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;

tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,

nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir

de luzeiros um labyrinto.

¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sinto

é vento em selvas a rugir.

Calae, fugi, ventos agrestes;

sumi-vos, lampadas celestes;

n'um seio a delirios já prestes

não susciteis mais tentações.

Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...

vós, astros, cifras de diamantes,

O arcano me aclarae lá d'essas regiões.

¡Oh! se á minha razão, contradictoria, altiva,

que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,

de vós, faroes do Geo, baixasse a crença viva,

que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...

¡se me volvesseis as ditosas

esp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,

com que se enfeita e esconde a Cruz!...

Tornar-se-me-hiam de improviso

a solidão, em paraizo;

a magua, em perenne sorriso;

em alto cantico, a mudez;

a mallograda lyra, o não colhido loiro,

em harpa augusta, em palmas d'oiro;

e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.

Delirios sempre vãos, fugi d'um peito enfermo;

tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;

ermo para ambições, e inferno, e não ermo;

para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.

Gentis phantasmas de cidades,

vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,

como um esquife em aureo veo.

¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,

(embora em saudades me eu queime)!

O somno, as vigilias enchei-me

da vossa esplendida vizão.

¿Val o riso choroso as festas da loucura?

vinde, guiae-me á sepultura,

crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.

¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,

nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.

Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotos

dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;

não, no silvestre seio vosso,

nem de amenas ficções apascentar-me posso,

nem menos as posso esquecer.

¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futuro

sondou jamais o abysmo escuro?

¡Apenas chego e já murmuro!

¿O de que tremo acaso sei?

Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,

aqui me aguardem, recatados,

dias de estro e de paz, quaes nunca disfructei.

Se além, no presbyterio, humillima choupana,

(Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)

mais que fraterno amor sollicito se afana

em me afofar o ninho, a vida em me inflorar;

se n'um retiro verde e mudo,

por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,

sombras no estio, o inverno ao lar;

se a solidão que me apavora,

sómente o fôr vista de fóra;

se em seus recôncavos demora

gente feliz, povo de irmãos;

se do antigo viver, das crenças de outra edade,

vestigios guarda a soledade;

se poesia se vive entre estes aldeãos;

se a alegria, serena, isenta de pesares,

como a fresca saude, habita os puros ares;

se em toda a parte ha Deus, em ceos, em terra, e mares,

se Deus em toda a parte a Natureza ri...

coração meu, não desanimes,

gozos que não prevês, e cantos mais sublimes

encontrarás talvez aqui.

¡Ah! sendo assim, que importa a fama!

Tambem philomela derrama

sua harmonia ás selvas que ama

longe de ouvintes e do sol.

Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria

que a viva, a lustrosa poesia

de perolas que a flux borbóta o rouxinol?

Sete annos se nos gastaram por ali, menos estranhos em verdade, menos

difficeis e arrastados, do que o eu temêra, ao trocar, tão a subitas,

cidades e amenidades por brenhas alpestres, tão desconversaveis á primeira

vista. Tivemos tempo de sobra para nos irmos aclimando e afazendo, e

haurindo poesia mesmo dos penedos, e estillas de mel mesmo dos urzaes. Mas

tudo isso pertence a outro livro, onde algum dia folgarei de hospedar os

meus leitores; chama-se por signal _O Presbyterio da Montanha_.

A Chave do Enigma · 第 57 / 95 题