Cuido que não haverá ledor que não tenha lá o seu livro predilecto, para
o qual de todos os outros se aparte por natural tendencia. O escriptor
mais do nosso peito pode variar, e varia, com as transformações da
edade, da saude, da fortuna, das circumstancias; mas ha sempre um, com
quem melhor nos entendemos; com quem nos parece conversarmos; com quem
permutâmos o nosso espirito, porque nos entende, e o entendemos, porque
nos parece vivo e presente, e o qual por derradeiro chega a
encarnar-se em nós, e a influir nos nossos actos e na nossa vida.
A preferencia de Maria para as suas leituras, começadas n'uma pagina, e
continuadas quasi sempre nos espaços imaginarios, não acertava porém
n'uma só obra: pendia indecisa entre Petrarcha e Santa Theresa de Jesus.
Eram dois caudaes brilhantes, ainda que tristes, que iam, patentes ao
Céo um e outro, parar ambos n'um mar de affecto.
¿Que alma houve jámais tão namorada como a da formosa de Burgos, a não
ter sido a do cysne de Arezzo? ¿ou que espirito sé haveria de equiparar,
na doce melancolia da adoração, ao segundo Dante, mais sympathico, se
menos colossal, ao poeta, não já do _Inferno_, mas do _Purgatorio_ e do
_Céo_ do amor, ao bom Petrarcha emfim, se a Hespanha, est'outra Italia
das graças e das paixões, se esquecesse de procrear a Matriarcha das
Carmelitas?
¡Que espantosa similhança entre ella e elle!
São dois corações desmedidamente grandes, a quem não basta para os
encher qualquer affeição terrestre e vulgar, e que só em flôres e
fructos de paraizo poderão achar confôrto.
_Fulcite me floribus, stipate me malis, quia amore langueo. Loeva ejus
sub capite meo, et dextera illius amplexabitur me._[3]
O Cantor tão religioso, e a Religiosa tão cantora, como que só teem de
corpo e sentidos quanto baste para os reter na terra dos deleites
ephemeros, e retardar a sua fuga para regiões de affectos sem limite.
Um e outro amam no intimo, pela delicia do amar, pela necessidade de
amar, e sem pedirem mercê nem recompensa.
Um e outro fabricam da sua ternura, religiões attractivas, dominadoras,
perduraveis: elle, a dos trovadores mysticos e fervorosos; ella, a das
noivas para a eternidade.
Petrarcha tinha-se criado com as poesias voluptuarias da Roma classica:
mas, de amavel pagão, que o estudo o podéra ter feito, se converteu em
eremita namorado.
Theresa, segundo ella mesma se nos historía, seduzida nos primeiros
annos pelos feitiços do mundo, dominada da turbulencia da phantasia, e
escandecida pelos fogos da juventude, só muito a poder de exforços, só
depois de muito bafejada pela Graça, logrou desenlear-se das vaidades,
pegar e lançar raizes no retiro.
Ella e elle podem exclamar como S. Bernardo:--_¡O beata solitudo! ¡o
sola beatitudo!_--porque para um e para a outra o ermo é egualmente
povoado por um phantasma luminoso: lá, pela imagem de Laura; cá, pela de
Jesus; dois verdadeiros ideaes dos amores ao mesmo tempo mais ferventes
e mais castos.
Petrarcha, sabe que não ha-de gosar Laura em toda a vida; espera e
anceia, como Theresa, pelas bodas celestes.
Theresa, desafoga a sua impaciencia, como Petrarcha, em jaculatorias tão
mimosas, que a Esposa dos cantares se deteria para lh'as ouvir.