XXVIII

Cuido que não haverá ledor que não tenha lá o seu livro predilecto, para

o qual de todos os outros se aparte por natural tendencia. O escriptor

mais do nosso peito pode variar, e varia, com as transformações da

edade, da saude, da fortuna, das circumstancias; mas ha sempre um, com

quem melhor nos entendemos; com quem nos parece conversarmos; com quem

permutâmos o nosso espirito, porque nos entende, e o entendemos, porque

nos parece vivo e presente, e o qual por derradeiro chega a

encarnar-se em nós, e a influir nos nossos actos e na nossa vida.

A preferencia de Maria para as suas leituras, começadas n'uma pagina, e

continuadas quasi sempre nos espaços imaginarios, não acertava porém

n'uma só obra: pendia indecisa entre Petrarcha e Santa Theresa de Jesus.

Eram dois caudaes brilhantes, ainda que tristes, que iam, patentes ao

Céo um e outro, parar ambos n'um mar de affecto.

¿Que alma houve jámais tão namorada como a da formosa de Burgos, a não

ter sido a do cysne de Arezzo? ¿ou que espirito sé haveria de equiparar,

na doce melancolia da adoração, ao segundo Dante, mais sympathico, se

menos colossal, ao poeta, não já do _Inferno_, mas do _Purgatorio_ e do

_Céo_ do amor, ao bom Petrarcha emfim, se a Hespanha, est'outra Italia

das graças e das paixões, se esquecesse de procrear a Matriarcha das

Carmelitas?

¡Que espantosa similhança entre ella e elle!

São dois corações desmedidamente grandes, a quem não basta para os

encher qualquer affeição terrestre e vulgar, e que só em flôres e

fructos de paraizo poderão achar confôrto.

_Fulcite me floribus, stipate me malis, quia amore langueo. Loeva ejus

sub capite meo, et dextera illius amplexabitur me._[3]

O Cantor tão religioso, e a Religiosa tão cantora, como que só teem de

corpo e sentidos quanto baste para os reter na terra dos deleites

ephemeros, e retardar a sua fuga para regiões de affectos sem limite.

Um e outro amam no intimo, pela delicia do amar, pela necessidade de

amar, e sem pedirem mercê nem recompensa.

Um e outro fabricam da sua ternura, religiões attractivas, dominadoras,

perduraveis: elle, a dos trovadores mysticos e fervorosos; ella, a das

noivas para a eternidade.

Petrarcha tinha-se criado com as poesias voluptuarias da Roma classica:

mas, de amavel pagão, que o estudo o podéra ter feito, se converteu em

eremita namorado.

Theresa, segundo ella mesma se nos historía, seduzida nos primeiros

annos pelos feitiços do mundo, dominada da turbulencia da phantasia, e

escandecida pelos fogos da juventude, só muito a poder de exforços, só

depois de muito bafejada pela Graça, logrou desenlear-se das vaidades,

pegar e lançar raizes no retiro.

Ella e elle podem exclamar como S. Bernardo:--_¡O beata solitudo! ¡o

sola beatitudo!_--porque para um e para a outra o ermo é egualmente

povoado por um phantasma luminoso: lá, pela imagem de Laura; cá, pela de

Jesus; dois verdadeiros ideaes dos amores ao mesmo tempo mais ferventes

e mais castos.

Petrarcha, sabe que não ha-de gosar Laura em toda a vida; espera e

anceia, como Theresa, pelas bodas celestes.

Theresa, desafoga a sua impaciencia, como Petrarcha, em jaculatorias tão

mimosas, que a Esposa dos cantares se deteria para lh'as ouvir.

A Chave do Enigma · 第 41 / 95 题