Entretanto, no meio da minha allucinação vaidosa, nunca me desamparou de
todo o previdente instincto da dignidade; as minhas paginas confessavam,
sim, o amor; amor profundo, amor immenso; mas este amor immenso e
profundo, qual eu o emprestára á Nympha aerea dos montes, qual eu
proprio o tributára á deidade phantastica da Primavera, e qual mulher
nenhuma deixaria de o colher com avidez, se o encontrasse, apparecia
aqui como um rico fructo do paraizo, ainda pendente no ramo, já maduro,
já proximo a despegar-se, baloiçando-se a um lado e a outro, indeciso
para onde haveria de cahir; era, na realidade, como fôra na fabula o
ramo de oiro, passaporte para os campos ditosos de além mundo,
mysterioso ramo que ninguem por força, nem por fraude, esgalharia da
arvore, mas que por si se deixava tomar da mão chamada pelos destinos
para o haver.
Tal foi, mas em phrase chan, e sem atavios de estylo, a substancia da
minha resposta: enigma contra enigma, oraculo contra oraculo.
N'este vago, de que um e outro, por motivos differentes, mas com egual
cautella, evitavamos deslisar para o positivo, se foi continuando, cada
vez mais frequente, mais ampla, mais amigavel, mais sincera, e mais
interessante, a nossa correspondencia.
Se quem escrevia era aquillo que eu desejava, devia estar contente de
mim; se era outro, e mal benevolo, o empenho que dirigia aquella penna,
esquivava-lhe eu escrupulosamente os azos para triumphos. Eu por minha
parte estava satisfeito de mim, e encantado com tudo quanto se me ia de
novo de dia a dia descobrindo de perfeições na minha Galatéa, que, ao
exemplo da de Virgilio, me atirára a maçan refugiando-se para os
salgueiros; entrevia-a eu por entre as ramas; não a chegava ainda a
conhecer de todo, mas differençava já com evidencia, que não era satyro
travesso, mas sim nympha, namorada e negaceadora como os passaros:
.............................._lasciva puella_.
Não descontinuavam, no emtanto, diligencias para se descobrir o
esconderijo, em que se homisiava sempre que se presumia ir-lhe já lançar
a mão á ponta do veo. Com a obstinação do mysterio, recrescia o affinco
das pesquizas.
Apparece um fio no labyrinto: as minhas cartas vão por Villa do Conde
para Azurara; mas ¿quem as toma em Azurara? Espia-se, colheu-se: é uma
servente do proximo convento de Vairão. Está pois a caçada circumscripta
a um pequeno recinto, d'onde já não ha fuga possivel para a pobre corça:
agora é deixar-se tomar ás mãos rendida e envergonhada.