Em quanto assim me corriam ali horas de feitiço, ¿onde estava e que
fazia realmente ella?
Só muito depois o vim a saber: pela sympathia inexplicavel que nos
attrahia mutuamente, sentia-me tambem comsigo na sua soledade. Eu era lá
o seu phantasma carinhoso, como ella cá o meu; a lua que de cá e de lá
contemplavamos em commum, observava lá e cá as mesmas scenas tão
parecidas, tão eguaes, que a duplicidade lhes não tirava a identidade.
Supprimam os accidentes de logar; era no mesmo ponto do oceano dos
tempos um só ninho de duas alcyones, que, embaladas mollemente no seu
bemquerer, ignoravam que houvesse mundo para fóra da esphera dos seus
affectos. Assim, não eram já imaginarios os abraços que dava, os abraços
que recebia cada um de nós; as nossas declarações, juras, e protestos,
entravam nos ouvidos, desciam ao coração a que se dirigiam.
O amor, a quem os milagres são naturalissimos, triumphava já da
distancia, como havia de triumphar do tempo e da fortuna.
O sol e o movimento mundano e prosaico do dia seguinte, enfraqueceram
seu tanto as impressões do drama nocturno e intimo. Encerrei-me no meu
quarto; fechei as janellas para revocar no remanso de trevas artificiaes
a sombra magica; reappareceu-me, porém não já a mesma; faltava-lhe a
animação que a vehemencia da minha fé lhe prestára; de tão real que
tinha sido, tornava-se de novo problematica. As objecções da razão
gelada e desabrida, oppunham-se outra vez á prophecia da vontade. A
linguagem nativa e sincera da carta, era um protesto eloquente e
energico da innocencia e do amor contra as suspeitas; mas as suspeitas
murmuravam sempre; a vaidade (¿quem a não tem?) a vaidade, similhante
áquelles rhetoricos subtis das escolas antigas, sustentava
alternativamente o pró e o contra: ora pretendia se acreditasse n'um
affecto, que enobreceria a quem lhe servia de objecto; ora repulsava uma
crença, que, a sahir burlada, redundaria em vergonha muito grande e
muito certa.
N'estas alternativas passaram dias e noites; dias penosos, estirados, e
ermos; noites acompanhadas, festivas, instantaneas. Só quando repoisava
tudo, velava e vivia eu. Os meus pensamentos e as minhas alegrias, com
as flores nocturnas se abriam, com as flores nocturnas se fechavam. Só
as estrellas se podiam mirar n'elles, n'elles que tanto se lhes
assimilhavam no brilho e na pureza.
Quando, apagadas em casa as ultimas luzes, e reinando já profundo
silencio ao longe por toda a cidade, cerca de meia noite, eu entrava com
pé furtivo e o coração pulando, no aprazado arvoredo dos meus amores, já
ali encontrava á minha espera a figura branca. Com mil beijos soffregos
nos saudavamos, vingando-nos em minutos da eternidade do sol. Pedia-lhe
de joelhos perdão de a ter renegado, de ter duvidado da sua existencia,
durante as horas insipidamente allumiadas. Com um abraço restauravamos
as pazes.
Sentava-a ao meu lado, n'um banco rustico, afoufado para ella por minha
mão com mangeronas, que as havia em grande espessura á sombra da
laranjeira mais alta. Reclinava ella a sua cabeça languida para cima do
meu hombro, ou eu a minha face ardente sobre o seu seio, a escutar-lhe e
a interrogar-lhe o coração. Repetiamos os nossos incendidos dialogos da
vespera, como novos. Misturavamos lagrimas de ternura e felicidade.
Reviviamos antecipados os mais bellos futuros. A qualquer tenue rumor,
d'estes com que a noite, maliciosa amiga dos namorados, se diverte a
assustál-os, estremeciamos como dois culpados colhidos em flagrante;
ella, forcejava por fugir; eu, escondia-a, rindo, com os meus braços
contra o meu peito; guardava-a ali muito tempo como filha; embalava-a,
adormecia-a, inspirava-lhe com beijos os sonhos que havia de sonhar,
insinuava-me n'elles, e lhe repetia em voz baixinha as mais suaves
coisas d'este mundo. Se um grillo cantava então, se um ramo ciciava lá
por cima, impacientava-me de que m'a acordassem. Perguntava-lhe ao
ouvido pelo seu nome, pela sua familia, pela terra da sua vivenda; não
respondia. Inquiria-lhe, em tom ainda mais leve, se já porventura em
algum tempo outro amor lhe sobresaltára o coração; levantava-se de
repente, grande, sublime, aggravada da suspeita, prestes a
desaparecer para sempre; e fal-o-hia, se ambos os meus braços a não
retivessem pela cintura:--«Se eu não tivesse um coração ainda virgem,
¡como ousaria offerecer-t'o! ¡offerecer-t'o espontanea! ¡a ti! ¡ao meu
poeta!»--dizia ella com uma voz que não saberia mentir por mais que
fizesse. Pedia-lhe outra vez perdão, agradecendo-lhe a ineffavel certeza
que me dava da minha felicidade tambem no passado; outorgava-m'o
generosa; mas impunha-me, como penitencia, que lhe improvisasse poesia.
Era a poesia o que a fascinára? o que a attrahira para junto de mim; e
eu (¡bemditos os vinte e quatro annos!) derramava, inspirado só por
ella, poesia nova e fervente, por entre aquelles troncos mudos, como as
Philomelas no seu enthusiasmo a esperdiçam pelos choupaes do seu Mondego.
Como a das aves, se perdeu a minha; mas nunca a exhalei tão de dentro,
nem tão para a alma, como então.