XVIII

Em quanto assim me corriam ali horas de feitiço, ¿onde estava e que

fazia realmente ella?

Só muito depois o vim a saber: pela sympathia inexplicavel que nos

attrahia mutuamente, sentia-me tambem comsigo na sua soledade. Eu era lá

o seu phantasma carinhoso, como ella cá o meu; a lua que de cá e de lá

contemplavamos em commum, observava lá e cá as mesmas scenas tão

parecidas, tão eguaes, que a duplicidade lhes não tirava a identidade.

Supprimam os accidentes de logar; era no mesmo ponto do oceano dos

tempos um só ninho de duas alcyones, que, embaladas mollemente no seu

bemquerer, ignoravam que houvesse mundo para fóra da esphera dos seus

affectos. Assim, não eram já imaginarios os abraços que dava, os abraços

que recebia cada um de nós; as nossas declarações, juras, e protestos,

entravam nos ouvidos, desciam ao coração a que se dirigiam.

O amor, a quem os milagres são naturalissimos, triumphava já da

distancia, como havia de triumphar do tempo e da fortuna.

O sol e o movimento mundano e prosaico do dia seguinte, enfraqueceram

seu tanto as impressões do drama nocturno e intimo. Encerrei-me no meu

quarto; fechei as janellas para revocar no remanso de trevas artificiaes

a sombra magica; reappareceu-me, porém não já a mesma; faltava-lhe a

animação que a vehemencia da minha fé lhe prestára; de tão real que

tinha sido, tornava-se de novo problematica. As objecções da razão

gelada e desabrida, oppunham-se outra vez á prophecia da vontade. A

linguagem nativa e sincera da carta, era um protesto eloquente e

energico da innocencia e do amor contra as suspeitas; mas as suspeitas

murmuravam sempre; a vaidade (¿quem a não tem?) a vaidade, similhante

áquelles rhetoricos subtis das escolas antigas, sustentava

alternativamente o pró e o contra: ora pretendia se acreditasse n'um

affecto, que enobreceria a quem lhe servia de objecto; ora repulsava uma

crença, que, a sahir burlada, redundaria em vergonha muito grande e

muito certa.

N'estas alternativas passaram dias e noites; dias penosos, estirados, e

ermos; noites acompanhadas, festivas, instantaneas. Só quando repoisava

tudo, velava e vivia eu. Os meus pensamentos e as minhas alegrias, com

as flores nocturnas se abriam, com as flores nocturnas se fechavam. Só

as estrellas se podiam mirar n'elles, n'elles que tanto se lhes

assimilhavam no brilho e na pureza.

Quando, apagadas em casa as ultimas luzes, e reinando já profundo

silencio ao longe por toda a cidade, cerca de meia noite, eu entrava com

pé furtivo e o coração pulando, no aprazado arvoredo dos meus amores, já

ali encontrava á minha espera a figura branca. Com mil beijos soffregos

nos saudavamos, vingando-nos em minutos da eternidade do sol. Pedia-lhe

de joelhos perdão de a ter renegado, de ter duvidado da sua existencia,

durante as horas insipidamente allumiadas. Com um abraço restauravamos

as pazes.

Sentava-a ao meu lado, n'um banco rustico, afoufado para ella por minha

mão com mangeronas, que as havia em grande espessura á sombra da

laranjeira mais alta. Reclinava ella a sua cabeça languida para cima do

meu hombro, ou eu a minha face ardente sobre o seu seio, a escutar-lhe e

a interrogar-lhe o coração. Repetiamos os nossos incendidos dialogos da

vespera, como novos. Misturavamos lagrimas de ternura e felicidade.

Reviviamos antecipados os mais bellos futuros. A qualquer tenue rumor,

d'estes com que a noite, maliciosa amiga dos namorados, se diverte a

assustál-os, estremeciamos como dois culpados colhidos em flagrante;

ella, forcejava por fugir; eu, escondia-a, rindo, com os meus braços

contra o meu peito; guardava-a ali muito tempo como filha; embalava-a,

adormecia-a, inspirava-lhe com beijos os sonhos que havia de sonhar,

insinuava-me n'elles, e lhe repetia em voz baixinha as mais suaves

coisas d'este mundo. Se um grillo cantava então, se um ramo ciciava lá

por cima, impacientava-me de que m'a acordassem. Perguntava-lhe ao

ouvido pelo seu nome, pela sua familia, pela terra da sua vivenda; não

respondia. Inquiria-lhe, em tom ainda mais leve, se já porventura em

algum tempo outro amor lhe sobresaltára o coração; levantava-se de

repente, grande, sublime, aggravada da suspeita, prestes a

desaparecer para sempre; e fal-o-hia, se ambos os meus braços a não

retivessem pela cintura:--«Se eu não tivesse um coração ainda virgem,

¡como ousaria offerecer-t'o! ¡offerecer-t'o espontanea! ¡a ti! ¡ao meu

poeta!»--dizia ella com uma voz que não saberia mentir por mais que

fizesse. Pedia-lhe outra vez perdão, agradecendo-lhe a ineffavel certeza

que me dava da minha felicidade tambem no passado; outorgava-m'o

generosa; mas impunha-me, como penitencia, que lhe improvisasse poesia.

Era a poesia o que a fascinára? o que a attrahira para junto de mim; e

eu (¡bemditos os vinte e quatro annos!) derramava, inspirado só por

ella, poesia nova e fervente, por entre aquelles troncos mudos, como as

Philomelas no seu enthusiasmo a esperdiçam pelos choupaes do seu Mondego.

Como a das aves, se perdeu a minha; mas nunca a exhalei tão de dentro,

nem tão para a alma, como então.

A Chave do Enigma · 第 31 / 95 题