Todos os ridentes allegorisadores da antiguidade falaram de um Cupido
filho de Venus, armado de fogo e settas, cruel e suave ao mesmo tempo,
incoercivel e fugitivo como os sonhos. Existe esse, não ha duvida; mas
ha outro amor, podéra eu affirmar-lhes, que nasceu do casamento de uma
açucena com o zephyro; que mesmo suspirando está a rir; que sóbe em
espiraes melodiosas para o ceo até se perder de vista, mas não foge;
reapparece, e redescende fiel ás mesmas amenidades d'onde levantára o
vôo. Não fere, nem envenena; encanta. Não accende fogo para deixar
cinzas; brilha na alma como sol. Não se rodeia de aves de agoiro, nem de
sonhos temerosos. Não desvela as noites, já com prazeres instantaneos,
já com delirios, e arrependimentos contumazes, mas se imbebe na
andorinha do beirado para nos acordar cada ante-manhan com as alegrias
puras que ella sabe. Não cura de ciumes; quizera que todos amassem como
elle. Não é um amor concentrado, exclusivo, incompleto, que só põe a
mira n'um objecto caduco; é outro amor profundo e infinito como a
Creação, com cujas maravilhas, maravilha elle proprio, se renova; a sua
venda, se a tem, não escurece; é toda de brilhantes diaphanos e
prismaticos, que redobram os prestigios do Universo. É o primogenito de
todos os amores, e o que a todos sobrevive. É o que serviram, adoraram,
e nos ensinaram a adorar, sem nome, todos os grandes poetas, desde
Orpheu até o _Thomaz dos passarinhos_. É o que a virgem mais ingenua
está sonhando voluptuosa, quando absorta suspira, e parece triste. É o
que á mente do religioso levanta escadas floridas para o Empyrio. É o
que annuncia, como boa nova, ao caduco, uma arregaçada de saudades, um
chorão, um gorgeio estivo, e prateados raios da lua para cima da cova.
É, em summa, o que aos impotentes da infancia segreda tantas coisas
ineffaveis que os alvoroçam, e de que o outro amor, em chegando, ha-de
receber porventura muita herança. Tal era a mysteriosa divindade que
presidia aos nossos passatempos, sem que eu então a adivinhasse.
Amavamos pois decididamente.