Digam embora que me biographei; vou escrever uma pagina da minha vida.
Se mais ninguem a lêr, lêl-a-hão os meus amigos. Ella tambem, êrma de
interesses grandes, desenfeitada de estilo, e só attendivel, se o fôr,
por verdade e affecto, aspira unicamente a captivar a attenção dos
poucos para quem um murmurio de folhas n'um retiro de estio, e de vez em
quando uns gorgeios ou pios de duas aves que se entrereclamam
emboscadas, supprem conversações, leituras, e até pensar.
Emfim, se nem para os meus intimos valer o que eu tenho de bosquejar,
muito saudoso de tempos que lá vão, ficará sendo só para mim, e para
quem m'o inspirou; ¡ah! quem m'o inspirou já m'o não póde lêr, mas por
ventura o ouve. Será um devaneio, e um solilóquio; será uma folha
sôlta de uma deliciosa arvore longinqua, hospedeira minha ha muitos
dias; folha que uma viração despegou, volveu nos ares, me atirou á
fronte, e me lançou aos pés, para ahi fenecer esquecida.
Não vale a pena de mais prologo. Nem tanto me está parecendo agora que
fosse necessario.
I
Antes de tudo, releva conhecer o individuo. Não é empenho muito facil;
mas tentemos.
Levanta-se logo a primeira difficuldade d'este capitulo na averiguação
da identidade:
Reflicta cada um comsigo mesmo n'este grave ponto: ¿a repetição de nome,
a similhança das feições, a conservação, com mais ou menos mudanças, da
indole primitiva, dos gostos, e das relações activas e passivas com as
pessoas e coisas do mundo externo, bastarão para que, em boa
philosophia, um homem qualquer se repute unidade consoante, e unico
indestructivel no meio da metamorphose universal? ¡Embaraçoso problema!
O espirito immaterial e immorredoiro quer, por instincto, por egoismo,
por fé, acredital-o; mas o estudo da Natureza, e a propria experiencia
quotidiana, desmentem em boa parte essa presumpção.
O individuo não é só a alma; o corpo que a reveste, a serve, e tantas
vezes a domina, é mais que sujeito a continuas e espantosas variações;
renova-se incessantemente, perecendo e renascendo a cada instante; a sua
carne de hoje era ainda hontem vegetaes, ruminantes, aves, peixes, agua
nas fontes, gazes na atmosphera, calorico no sol, terra debaixo dos pés,
e electricidade sabe Deus por onde; congregaram-se essas myriadas de
particulas... existiu; ámanhan partirão, todas ellas destacadas para
novas combinações e destinos, sem que o espirito lhes haja sentido a
fuga, porque outras particulas, accorridas do universo, terão vindo
rendel-as sem estrondo nem abalo.
N'este sentido cada individuo é simultaneamente filho, irmão, e pae,
influidor e influido, conservador, destruidor, modificador, herdeiro,
usufructuario, e testador, de quantos entes sensitivos, vegetativos,
inorganicos, imperceptiveis, imponderaveis, são, como elle, parcellas
componentes do planeta em que elle se proclama senhor e potentado.
Mas se esta desidentificação incessante do corpo escapa ás nossas
percepções, por não apresentar de hora para hora mudanças apreciaveis no
ser, no sentir, e no pensar, já assim não é quando nos outros, e em nós
mesmos, confrontâmos a infancia com a puericia, a puericia com a
adolescencia, a adolescencia com a virilidade, a virilidade com a
velhice, a velhice com a decrepidez; ou, supprimindo os graus
intermedios para maior evidencia, a caducidade com a madureza, a
madureza com o desabrochar no berço.
¿Que ha ahi de commum?!
Unicamente o nome, accidente impessoal, insignificativo, nullo.
O corpo é manifestamente diversissimo, e em tudo outro; e com o corpo
outro e tão diverso, outras e diversas egualmente são as faculdades
intimas, outro e diverso o sentir, o querer, o recordar, o ambicionar.
Não são épocas de uma vida; são vidas verdadeiramente distinctas, talvez
contrarias, que se encadeiaram por um trabalho simultaneo e occulto da
Natureza e da fortuna, dos successos e de nós mesmos.
É por isso que o louvor ou vituperio, a recompensa ou o castigo,
conferidos tarde, conteem sempre mais ou menos, uma injustiça
distributiva; e talvez duas: preteriram aquelle que fez, e já não
existe, e vão-se dar ao que existe mas não fez. ¡Que de vezes se não
haverá suppliciado um justo pelo malfeitor que annos atraz o precedêra,
e nada mais lhe legára que o seu nome e umas parecenças no semblante!
A solidariedade do homem comsigo, em remotos prasos da existencia, é
pois tão infundada, como a de um individuo com outros, com quem nenhuns
vinculos o prendem, e que operam, independente cada um na sua esphera,
como elle na sua propria.
D'aqui vem que, sendo altamente suspeita de romance toda e qualquer
historia que se escreva de um personagem, ou de um povo (ás vezes
remotissimos em logar e tempo), sobre tudo quando o narrador pretenda
assignar como causas aos successos o que se passou sem testemunha em tal
ou tal coração, em tal ou tal espirito, pouco menos se eximirá de
similhantes suspeições a noticia que o homem mais sincero pretenda
transmittir-nos de si mesmo. «Escreve o seu preterito»--dirão os
benevolos; mas escrever o seu preterito ¿não é escrever já de outrem?
Demais: ¡quantas perplexidades! ¡quantas conjecturas temerarias!
¡quantas supposições de boa fé, mas erroneas, quando ao clarão
interrupto de reminiscencias enfraquecidas pretender levantar do pó as
flôres, e os espinhos que n'elle se converteram, reedificar edificios,
sobre os quaes se levantaram edificios novos, insuflar vida a sombras,
resuscitar o coração de outr'ora, e achar a harpa interior com todas as
suas cordas e a mesmissima afinação!
São estas, para quem bem o pensar, umas difficuldades, e tambem uns
desenganos, e umas tristezas muito grandes. Nunca tão claro o senti,
como ao reler agora este pobre livro. Forcejarei todavia por trazer á
vossa intimidade, meus amigos, o autor d'elle, se ainda me fôr possivel,
depois de tão apartados um do outro.
Um bem que ha n'esta desidentificação, n'este apartamento dos dois
_eus_, é que, se algum bem me fôr necessario dizer do que foi, já ao que
é se não poderá carregar em conta de vaidade.