á sua companhia na aula e na rua, e em praticarem com elles
delicadamente, ainda que não andem bem trajados; ou consistirá tambem em
auxilial-os, obtida licença dos paes e mestres, para que lhes não faltem
cousas indispensaveis, taes como o lapis, papel, compendios, etc., para
comprar as quaes lhes não chegar o dinheiro.
E.--Parece-me que é dever dos estudantes endinheirados proteger em tudo
os que o não são, e até repartir com elles o _lunch_, e a merenda, por
isso que os collegas se devem amar como irmãos.
P.--Muito bem. E o amor fraternal dos collegas permittirá que andem a
fazer queixas uns dos outros?
E.--Não, senhor.
P.--Que deverá fazer um bom collega quando outro commetter uma pequena
falta.
E.--Deve advertil-o de que não fez bem, e aconselhal-o a que se emende.
P.--E se um estudante quizer commetter um crime, ou praticar uma acção
má, ou se tiver delinquido, e se mostrar obstinado em não se emendar, o
que deverá fazer o collega?
E.--Se não poder evitar o mal, nem conseguir que o menino, que o
praticou, trate de se corrigir, cumpre-lhe avisar o professor.
P.--Em voz alta, diante de todos, com acrimonia, e maneiras hostis, ou
em particular, e por modo, que não aggrave o delinquente?
E.--Em particular e sem azedume.
P.--Se o professor perguntar a um estudante quem commetteu certa falta
ou maldade, e o estudante interrogado souber quem foi, que deverá fazer?
E.--Dizer a verdade.
P.--Quando tal aconteça, ficará mal ao estudante implorar a clemencia do
professor para o collega?
E.--Não, senhor; antes lhe ficará muito bem.
P.--Disse ainda agora um dos meninos que deviam os collegas ser amigos.
A amisade é um sentimento mui delicado e nobre, e por isso mesmo mui
raro. Umas vezes nasce do parentesco e convivencia intima, tal é a que
aos filhos consagram os paes, e a estes os filhos, tal a dos avós e
netos, e a dos tios e sobrinhos; outras vezes provém da sympathia,
augmenta com a camaradagem, principalmente entre pessoas de indoles
similhantes, e fortifica-se pela troca reciproca de serviços
desinteressados e honestos. Mas, assim como «nem tudo o que luz é ouro»,
assim nem toda a convivencia, posto que deleitavel, extremosa, e até
util, se póde considerar amizade verdadeira.
E.--Em que consiste, pois, a verdadeira amizade?
P.--Em duas ou mais pessoas se estimarem reciproca e honestamente, como
cada uma a si propria se estima.
E.--Em vista do que dizeis, devem ser mui poucos os verdadeiros amigos;
porque eu, não obstante ser ainda muito creança, tenho notado que quasi
todas as pessoas gostam mais de si, que dos outros.
P.--Rarissimos são, é verdade, e por isso mesmo quem teve a felicidade
de encontrar um, deve cuidar muito de o não perder.
E.--E o que nos acontecerá, se nunca tivermos um amigo verdadeiro?
P.--Seremos menos felizes do que seriamos, se o tivessemos.
E.--Vós, sr. professor, sois muito feliz.
P.--Por que me consideraes muito feliz?
E.--Porque tendes muitos amigos.
P.--Quem vos disse que tenho muitos amigos?
E.--Ninguem; mas tenho visto que pelas ruas uns vos cortejam,
tirando-vos o chapéu, outros vos dizem adeus com a mão, outros vos
tratam por tu, muitos vos abraçam e param a fallar comvosco.
P.--Como estaes enganado! Esses todos, com pouquissimas excepções,
sabeis o nome que merecem? Eu vol-o digo--_conhecidos_.--Se eu caísse de
cama, quantos viriam acompanhar-me? se eu estivesse preso, quantos iriam
suavisar-me a solidão do carcere? se eu tivesse fome, quantos
repartiriam commigo as suas sôpas? se eu tivesse a desgraça de commetter
um crime, quantos no dia seguinte se desbarretariam ao passar por
mim?... Conhecidos, indifferentes, amigos do theatro, do baile, do
passeio, que desapparecem, quando o verdadeiro amigo mais se approxima
de nós, nos dias sombrios e luctuosos da desgraça, e das tribulações.
E.--Como é então que fallaes e mostraes tão bonito modo a homens, que de
nada vos prestam? Não seria melhor desprezal-os?
P.--Não se deve desprezar ninguem. Quem não póde beber por uma taça de
ouro, ou de crystal, ha de quebrar o copo de vidro ou o pucaro humilde
de barro? Para os conhecidos, caridade e delicadeza; para os amigos, os
affectos todos do coração.
E.--Se vos não enfado, far-vos-hei ainda uma pergunta.
P.--Quantas quizerdes.
E.--De que traça nos havemos de servir para grangear amigos verdadeiros?
P.--Um sabio, a quem fizeram igual pergunta, respondeu: _Se quizeres ser
amado, ama_. A semente da amisade é a sympathia, ou reciproca
inclinação, gerada, ou da analogia das indoles e estados, ou de certas
qualidades, que mal se póde dizer quaes sejam, mas que parecem attrair
umas para as outras as pessoas, que as tem.
E.--De maneira que, se eu entrar n'uma casa e me agradar de uma pessoa,
que não conheça, ainda que não seja da minha idade, nem bonita, e sentir
para ella inclinação, poderei dizer que _sympathizei_ com ella.
P.--De certo.
E.--Mas ás vezes tambem succede o contrario; olha a gente para um homem
ou para uma senhora, e posto que nem sejam feios, nem desastrados,
experimenta certa repugnancia em tratal-os.
P.--A essa repugnancia se dá o nome de _antipathia_.
E.--Quando pois, sympathisarmos com alguem, poderemos contar com um
verdadeiro amigo?
P.--Nem sempre. Á vossa pergunta respondeu ha muito tempo um escriptor
portuguez dos mais eruditos, chamado Antonio de Sousa de Macedo, cujas
obras vos recommendo desde já para quando fordes maiorzinhos. Ouvi o que
elle a tal respeito escreveu. «D'entre os mesmos em que se acham
sympathias, se deve fazer distincção, antes de trabalhar pelos fazer
amigos, por que nem todos serão convenientes.
Suetonio diz de Augusto, que os _escolhia_ com vagar, e os conservava
constantemente. Devem-se preferir os de _melhor juizo_, _bons costumes_,
_valor_, _sinceridade_, e _bôa fama_. Nem com o _nescio_, diz o
ecclesiastico, nem com o _mau_, diz santo Agostinho, nem com o _pouco
verdadeiro_, diz Aristoteles, póde haver amizade.»
E.--São essas as qualidades que devem ter os amigos, e muito folgo de
que tão claramente nol-as expozesse esse auctor portuguez, cujo nome
citastes; mas quando se nos depare alguem com todos esses requisitos,
que deveremos fazer para lhe captivarmos a amizade?
P.--Seja tambem Macedo quem vos responda. Diz elle: «Feita a eleição, a
communicação e conversação faz os amigos, concordando nos ditos, e nas
acções (suppondo que tudo ha de ser honesto e judicioso) e para a facil,
sincera, e agradavel concordia, contribue especialmente a sympathia, a
qual, accrescentou um sabio, se deve ajudar com algum beneficio, feito
graciosamente, sem ser rogado, nem depois publicado.»
E.--Algum beneficio?
P.--Não fiqueis ahi pensando que os beneficios, que penhoram a amizade,
sejam tão sómente mimos e presentes de cousas, que se merquem nas lojas,
ou de fructas e manjares; boas são essas provas de amizade, mas não são
as unicas, nem as mais apreciaveis. Por beneficios deveis entender
tambem, os conselhos prudentes, os exemplos dignos de imitação, a
companhia na doença, e nas tribulações, o ensino fraternal e até a
reprehensão suave das faltas e defeitos.
Resumo
Os condiscipulos são quasi irmãos, filhos espirituaes do professor.
Devem ser delicados, bons, e amigos. Devem cumprimentar-se á entrada e
saïda da aula e sempre que se encontrarem. Devem prestar uns aos outros
todos os serviços, que puderem. Os estudantes pobres, defeituosos, mal
vestidos merecem, sendo bons, tanta estima e consideração, como os
abastados, sãos, e tafues. Nem sombra de alcunhas, principalmente
allusivas a quaesquer deformidades, ou imperfeições do corpo ou do
espirito. Se nos pedirem cousa, que possamos emprestar ou ceder,
emprestemol-a, ou cedamol-a, sem exigir paga, nem agradecimento.
Delicadeza não é bondade. Toda a acção contraria á lei de Deus, ou ás
leis humanas, quando estas não offendem aquella, é má.
O mandrião merece castigo e desprezo. Desde a aula deve o rico ajudar o
pobre.--Se algum estudante fizer maldades advirtam-n'o os que as
presenciarem; mas não as divulguem. Quando um estudante praticar acções
indignas, e admoestado pelos condiscipulos, se não emendar, recorra-se
ao professor, dizendo-lhe em particular, e sem aggravar o mal, quanto
baste para que elle proceda como fôr de justiça. É prova de delicadeza e
bondade de coração implorar misericordia para os que estiverem em risco
de ser castigados. Nunca se deve mentir; a mentira é a torpeza das
torpezas.
São amigas duas pessoas que reciproca e honestamente se estimam como
cada uma d'ellas se estima a si propria. Ha amizade verdadeira, e
falsa.--Nem todos os que parecem amigos, o são; não se deve confundir o
amigo com o conhecido. Amar é o meio de grangear amigos. A amizade nasce
da sympathia; mas nem todos com quem sympathisâmos podem ser nossos
amigos. As qualidades que deverá ter um amigo, são: bom juizo, bons
costumes, valor, sinceridade, bôa fama. Não deve ser nescio, nem mau,
nem mentiroso. Para o grangear bastará a communicação e conversação,
auxiliadas por obsequios desinteressados.
Reflexões
É finda a nossa palestra de hoje. Temos dito muitas cousas, mas não
basta fallar; é indispensavel fugir do mal e praticar o bem. Muito falla
o papagaio, mas que faz tamanho palrador? Come o que lhe deitam no
comedouro, e nas horas vagas vae roendo a gaiola. Ninguem dirá com
verdade, que seja muito para se imitar a tal ave palreira. Palavras,
leva-as o vento, dil-o o rifão, e não mente. Para vos não parecerdes com
aquelle animalzinho inutil, amae-vos muito uns aos outros; auxiliae-vos
fraternalmente, cumprí á risca todas as vossas obrigações, e lembrae-vos
a cada momento de que os homens do futuro, os paes de familia, os
mestres, os escriptores, os ministros, os deputados, os juizes, os
sacerdotes, os militares, os medicos, os pharmaceuticos, os advogados,
os artistas, os negociantes, os industriaes, os lavradores haveis de ser
vós, e de que para profissões tão variadas, tão nobres, tão difficeis e
de tantissima responsabilidade, vos deveis desde já preparar, estudando
e praticando todas as virtudes, para que, chegada que seja a hora de
entrardes na vida activa e de servirdes a civilisação, que exige
obreiros intelligentes e honrados, possaes cabalmente desempenhar os
vossos deveres.
QUARTA LIÇÃO
VIDRO[11]
Escolheu o professor Mayo o vidro para assumpto da primeira lição do
ensino intuitivo, ou de objectos, por lhe parecerem as qualidades d'este
corpo mais perceptiveis aos nossos sentidos, que as de qualquer outro.
Aconselha o mesmo professor que fiquem os meninos defronte do quadro
preto, onde se hão de ir escrevendo os resultados de suas observações; e
que o pedaço de vidro vá passando de mão para mão, para que cada um dos
estudantes individualmente o examine. O tomar cada menino o fragmento de
vidro em suas mãos e o il-o observando com attenção é, como atraz
observámos, ponto de grande importancia para o bom resultado do ensino.
Diz a este proposito o excellente pedagogista Mayo o seguinte: «D'este
modo cada individuo, dos que compõem a aula, se vê obrigado a exercitar
as suas faculdades sobre o objecto, que se lhe apresenta; servindo as
perguntas, que depois lhes faz o professor, para que elles revelem suas
idéas, e para a emenda d'estas, se forem erroneas.
P. (Mostrando um bocado de vidro)--Que é isto, que eu tenho na mão?
E.--É um bocado de vidro.
P.--Vamos soletrar a palavra _vidro_.
(_Feita esta advertencia, escreve o professor no quadro preto a palavra
vidro, dividida em duas syllabas_; pronuncía alto e bom som, em primeiro
logar as lettras _v-i-d-r-o, acompanhando a pronunciação de cada uma
d'ellas de uma pancada com o ponteiro no quadro, ou de uma palmada; e
pronuncía depois as duas syllabas mui distinctamente. Em seguida repetem
os estudantes primeiro individualmente, e depois em côro, aquella
soletração, até que a saibam correctamente fazer_.)
P.--Todos vós examinastes este vidro; e que notastes n'elle? Que podeis
dizer que é?
(Põe-se esta pergunta em logar de: Quaes são as suas propriedade? porque
é muito provavel que a principio não entendam os meninos o sentido da
palavra «propriedade»; mas applicando-a repetidas vezes o professor ás
respostas que os estudantes derem, em pouco tempo se acostumarão a ella
e lhe perceberão o sentido).
E.--É brilhante.
P. (Depois de ter escripto no quadro a palavra «propriedade», escreve
por baixo: «É brilhante»).--Pegae-lhe; apalpae-o. (Deverá o professor
dirigir aos estudantes perguntas conducentes a pôr-lhes successivamente
em acção os differentes sentidos).
E.--É frio. (Escreve-se esta resposta no quadro por baixo da outra
qualidade).
P.--Tornae a pegar no vidro, e comparae-o com este fragmento de esponja,
com que limpâmos o quadro, e dizei-me o que notastes no vidro. (O
intento do professor ao fazer esta pergunta, deve ser conseguir que os
estudantes observem a «lisura», contrapondo esta propriedade á sua
opposta, a «aspereza» de outra substancia; meio de demonstração que
muitas vezes se poderá empregar).
E.--É lizo; é duro.
p.--Ha na aula outro objecto de vidro?
E.--Ha sim senhor; os vidros das vidraças.
P.--Olhae pelas vidraças, e dizei-me o que vêdes.
E.--Vemos o jardim.
P. (Fechando as portas da janella)--Olhae agora e dizei-me o que vêdes.
E.--Agora não podemos vêr nada.
P.--Porque é que não vêdes nada?
E.--Porque atravez das portas não se póde vêr nada.
P.--Que differença notaes entre as portas e o vidro?
E.--Notâmos que atravez das portas nada podemos vêr, e que atravez do
vidro vêmos o jardim.
P.--Podeis dizer-me alguma palavra, que indique essa qualidade, que tem
o vidro?
E.--Não, senhor.
P.--Eu vol-a digo. Tomae sentido, para que vos não esqueça. É
_transparente_. D'aqui por diante que idéa fareis d'um corpo, se vos
disserem que é transparente?
E.--Que se pode vêr atravez d'elle.
P.--Respondestes muito bem. Lembraes-vos de alguma cousa que seja
transparente?
E.--A agua.
P.--Que aconteceria se eu deixasse cair no chão este pedaço de vidro?
E.--Quebrar-se-ia.
P.--E se da rua atirassem pedras á janella?
E.--Quebrar-se-iam os vidros.
P.--Sabeis como se chamam os corpos, que tem esta qualidade, ou
propriedade de se partirem, quando caem n'um corpo duro, ou quando se
lhes bate?
E.--Não, senhor.
P.--Chamam-se _quebradiços_, ou _frageis_,--Dizei-me, se deixassemos
cair a porta da janella ou se contra ella atirassemos uma pedra, que
succederia?
E.--Ficaria inteira.
P.--E se eu lhe batesse muito de rijo com outro corpo durissimo?
E.--Quebrar-se-ia.
P.--A madeira é quebradiça, ou fragil?
E.--Não, senhor.
P.--Deveremos chamar frageis a todas as substancias, que podermos
quebrar?
E.---Não, senhor; _frageis_ diremos só aquellas, que se quebrarem com
facilidade.
P.--Para que serve o vidro? que prestimo tem?
E.--Serve para as janellas.
P.--Que vantagem ha em pôr vidraça nas janellas?
E.--Ter as casas abrigadas do vento, da chuva, da poeira, e das moscas.
P.--Parece-me que, fechando-se as portas das janellas, não entrariam
pelas casas dentro, nem moscas, nem poeira, nem chuva, nem vento.
E.--Mas cerradas as portas das janellas, ficariam as casas ás escuras, e
não poderiamos vêr para fóra.
P.--Muito bem. Dizei-me porque razão não tira o vidro a claridade ás
casas, nem obsta a que se vejam os objectos que estão fóra?
E.--Porque é _transparente_.
P.--Não ha outros objectos de vidro?
E.--Ha cópos, garrafas, castiçaes, espelhos, tinteiros, etc.
É provavel, diz o professor Mayo, que na primeira lição não occorram aos
meninos outras qualidades; mas estas sós, escriptas no quadro preto,
constituirão um bom exercicio de soletração. Devem-se depois apagar; e
se os estudantes já souberem escrever, poderão exercitar a memoria e
repetir a lição, escrevendo-as de novo nas ardosias.
QUINTA LIÇÃO
CAOUTCHOUC--GOMMA ELASTICA--BORRACHA[12]
Escolheu o professor Mayo esta substancia para objecto da segunda lição,
para que os meninos observem as qualidades, ou propriedades, que os
physicos denominam _opacidade_, _elasticidade_, e _inflammabilidade_.
P.[13]--Que é isto? (Mostrando um bocado de caoutchouc).
E.--É um bocado de _borracha_.
P.--Parece-se com o vidro?
E.--Em nada.
P.--Ponde esse pedacinho de _borracha_ diante dos olhos e olhae para
mim... Vêdes-me?
E.--Não, senhor.
P.--Se nas janellas, em vez de vidros, estivessem laminas de borracha,
que aconteceria?
E.--Ficariam as casas ás escuras, e não poderiamos vêr para fóra.
P.--Sabeis como se chama a qualidade, que tem a _borracha_ de não deixar
vêr atravez de si, como o vidro?
E.--Não, senhor.
P.--Chama-se _o-pa-ci-da-de_. Repetí commigo esta palavra.
E.--_O-pa-ci-da-de._
P.--Vou escrevel-a; olhae attentamente. (O professor escreve no quadro
preto: _Propriedades ou qualidades da borracha_--_O-pa-ci-da-de_).
Menino F., como chamareis aos corpos, que tem opacidade?
E.--_Opacos._
P.--Ponde diante dos olhos a lousa, que ahi tendes, e olhae para mim.
Vêdes-me?
E.--Não, senhor.
P.--Porque me não vêdes, quando entre mim e vós está um bocado de lousa?
E.--Porque a lousa é _opaca_.
P.--Menino G., dizei-me se está alguem ali n'aquelle quarto.
E.--Eu vou vêr. (Levantando-se).
P.--Não vos levanteis; olhae d'ahi, do vosso logar.
E.--D'aqui não posso vêr.
P.--Porque não podeis vêr d'ahi o que se passa n'aquelle quarto?
E.--Porque se mette de permeio a parede.
P.--E se a parede fosse de vidro, poderieis ver para dentro d'aquella
casa?
E.--Veria de certo, porque o vidro é transparente; mas a parede não é.
P.--Como diremos que é a parede, attendendo a que nos tira a vista das
cousas, que estão para além d'ella?
E.--Diremos que é opaca.
P.--A borracha póde facilmente cortar-se com a thesoura. Vou cortar umas
tiras, para os meninos fazerem uma brincadeira. Eil-as: Tomem estas
tirinhas de borracha, segurem-n'as pelas extremidades e puxem-n'as, como
quem quizesse esticar uma linha... Basta, basta; agora larguem-n'as de
um lado... Que vistes?
E.--A borracha deu de si, estendeu, estendeu; e, logo que a largámos,
voltou ao primitivo comprimento.
P.--Tomem agora este bocado de vidro, e puxem-n'o bem.
E.--Não dá de si; não estende.
P.--Temos, pois, que a borracha, sendo puxada, estende, e logo que a
soltam volta á primeira; e que o vidro, por mais que o puxem, não dá de
si. Porque será isso?
E.--Provavelmente é por que a borracha tem alguma qualidade, que nós
ignorâmos.
P.--Como é que a ignoram, se acabam de a observar?! O que os meninos
ignoram é o nome que essa propriedade tem.
E.--Podeis-nos dizer como se chama?
P.--Chama-se _e-las-ti-ci-da-de_. Repeti commigo este nome:
E.--_E-las-ti-ci-da-de._
P.--Reparae; vou escrevel-o no quadro preto, por baixo do nome da outra
qualidade da borracha, por baixo da palavra... (Tapando com a mão a
palavra no quadro).
E.--_Opacidade._
P.--Muito bem; não se esqueceram.
(Escreve) Aqui está: _Elasticidade_. Tomae outra vez as tirinhas de
borracha; e em vez de puxal-as, torcei-as entre os dedos, que se chamam
_pollegar_ (Mostra o dedo pollegar) e est'outro (Mostra o indicador),
que se chama _indicador_... Agora largae-as. Que observaes?
E.--Destorcem-se por si.
P.--Menino A... por que é que se destorcem por si essas tirinhas de
borracha?
E.--Provavelmente, pela mesma qualidade, pela qual ainda agora
estenderam e encolheram, ficando do comprimento, que tinham, antes de as
estarmos a puxar.
P.--Assim é. Dizei-me agora o que é isto? (Mostrando uma péla)
E.--Isso é uma péla de brincar.
P.--Porque será que todos os meninos gostam de jogar a péla?
E.--É porque as pélas saltam muito, e nós temos de correr atraz d'ellas,
caio aqui, acolá me levanto.
P.--Sabeis de que são feitas as pélas?
E.--São feitas de borracha[14].
P.--Porque não fazem as pélas de barro, ou de folha de Flandres, ou de
pau, ou de cortiça?
E.--Porque se fossem feitas d'essas materias não saltariam.
P.--Que ha, pois, nas pélas de borracha, que as faz andar aos pulos?
E.--Não sabemos.
P.--E se eu lhes disser, que sabem? Pensem, meditem. Atiro esta péla ao
chão, ella bate no sobrado, achata-se, immediatamente toma a primitiva
fórma, a fórma de bola, ou de esphera, como dizem os sabios, e eil-a a
pular.
E.--Já sabemos porque as pélas de borracha saltam, e as outras não. É
por causa da _elasticidade_.
P.--Acertastes. N'aquelle retomar a fórma de esphera ou bola
immediatamente depois de se ter achatado ao bater no chão, é que está a
elasticidade. Outra pergunta ácerca d'esta qualidade. Dizei-me, se vos
occorre, o nome com que podemos designar os corpos, que tem
elasticidade.
E.--Podem chamar-se _elasticos_.
P.--Assim é. Reparae agora no que vou mostrar-vos. (O professor acende
uma véla). Temos aqui um rolosinho de ferro (Mostra-o), um rolosinho de
barro (Mostra-o), este pedaço de pederneira (Mostra-o), e um fragmento
de borracha. Pego no rolo de ferro pelo cabo de madeira, para me não
queimar, chego-o à luz, como vedes, mas elle fica no mesmo estado. Pego
no rolo de barro, que não tem cabo de madeira, por que não aquece tão
depressa como o ferro, chego-o á luz e nada de novo; com a pederneira
acontece o mesmo. Ide agora ver o que succede ao approximar da luz um
fragmento de borracha. Tomae sentido, porque me haveis de dizer o que
virdes. Por cautela, em vez de tomar a borracha com os dedos, pego-lhe
com a thesoura. Attenção. (O professor chega a borracha á luz, e apenas
ella se inflammar, affasta-a da véla, e a colloca por cima de um vaso,
que tenha agua, evitando que lhe caia derretida nas mãos). Que vistes?
E.--Vimos a borracha incendiar-se e arder com chamma mui intensa e
clara.
P.--Só isso observastes?
E.--E derreter-se.
P.--Nada mais?
E.--Mais nada.
P.--Não prestastes bastante attenção. Vou repetir a experiencia.
(Repete-a). Dizei-me se vistes mais alguma cousa?
E.--A borracha derretida cair em pingos sobre a agua, que está n'esse
vaso.
P.--Exactamente. Esta qualidade da borracha é mui differente das outras
duas: _elasticidade_ e _opacidade_.
E.--Certamente.
P.--Sabeis como se chama?
E.--Não sabemos. Fazei mercê de nol-o dizer.
P.--Chama-se _in-flam-ma-bi-li-da-de_, ou propriedade de arder com
chamma. Bom será que repitaes commigo o nome d'esta qualidade, ou
propriedade da borracha, para que vos não esqueça.
E.--_In-flam-ma-bi-li-da-de._
P.--Vou escrever este nome, que nada tem de pequeno, sob o das outras
qualidades. Qual de vós é capaz de me dizer como chamaremos aos corpos,
que chegados a uma luz, arderem com chamma?
E.--Sou eu.
P.--Dizei pois.
E.--Os corpos, que ardem com chamma, denominam-se _inflammaveis_.
P.--O ferro, o barro, a pederneira, são inflammaveis?
E.--Não, senhor; mas a borracha é, e muito.
P.--Podeis dizer-me a côr da borracha?
E.--_Negra._
P.--Vou escrever o nome d'essa qualidade no quadro preto (Escreve).
Dizei-me, meus meninos, se vos lembra alguma cousa, bastante vulgar, á
qual a borracha se assemelhe não só na côr, mas principalmente na
grossura, na consistencia, na impressão que nos faz, quando a apertâmos
e revolvemos entre os dedos.
E.--Assemelha-se ao couro.
P.--Muito bem. O que provavelmente não sabeis é como se nomeiam as
substancias analogas ao couro.
E.--Não sabemos.
P.--Dizem se _co-ri-a-ce-as_. Repetí pausadamente esta palavra.
E.--_Co-ri-a-ce-as_.
P.--Menino B...; vejo que estaes passando as cabeças dos dedos por cima
d'esse bocado de borracha, e esse acto tão simples accordou-me o desejo
de vos fazer uma pergunta. Quando passâmos a mão, ou sómente as cabeças
dos dedos por cima de diversos corpos, sentimos a mesma impressão?
E.--Não, senhor; umas vezes é agradavel a impressão, que sentimos;
outras vezes, desagradavel.
P.--Podereis dar-me exemplo de uma e outra?
E.--Correndo a mão por cima de um panno de lã grosseiro, ou por uma
taboa, que não esteja aplanada, sinto impressão desagradavel; correndo-a
por sobre uma folha de papel de peso, ou por um vidro bem polido, tenho
uma impressão agradavel.
P.--Sabeis que nome se dá aos corpos, quando a sua superficie é como a
do panno de lã grosseiro, e da taboa não aplanada?
E.--Diz-se que são _asperos_.
P.--E quando a superficie dos corpos é como a do papel fino, ou de peso,
e a do vidro?