Depois, esperando, faz-se sempre votos para que o outro touro seja

melhor do que o seu antecessor; como se para saciar a avidez dos

espectadores fosse pouco todo o sangue derramado.

É que a Hespanha é realmente assim, em meio da sua vida tumultuosa e

larga. Pouco lhe importa a morte de dez, vinte, trinta homens; a questão

é que o enthusiasmo não decresça nunca, e que a vida não deixe jámais de

ser uma terna e doce folgança, onde os risos e as lagrimas, as

alegrias e as tristezas crescem e augmentam, temperados na mesma proporção.

E, no entanto, nenhum paiz existe de mais vastos recursos do que a

Hespanha, onde as minas de cobre, de ouro, de prata são quasi tantas

como as suas provincias e os seus concelhos.

Nas suas planicies, por igual risonhas e productivas, medra e

desenvolve-se toda a especie de productos agricolas; as suas paizagens,

se bem que aridas na Extremadura, pela escacez de agoa, tomam todavia um

aspecto deliciosissimo na Andaluzia, onde as mulheres e os horisontes se

disputam a palma e o amor.

Abençoado paiz! Nem as guerras, nem as dissidencias civis, nem as

revoltas populares poderam ainda prostral-o.

Uma nação que tão sinceramente ama as touradas, não poderá nunca deixar

de ser guerreira e sanguinosa.

Ai de nós, no momento em que a Hespanha deixasse de ser o que

é--lutadora, _torera_ e ruidosa.

_A los toros! a los toros!_

XVI

O PRADO E O RETIRO

Dizem os physiologistas que o calor é a vida; e por isso é, creio, que

os cafés, assim como as _soirées_, assim como os _clubs_, assim como os

_boulevards_ se tornam hoje uma verdadeira e insubstituivel necessidade

social.

Que o homem nasceu para a sociedade--escrevem-o philosophos abalisados e

tem-o repetido ha um seculo, e ininterruptamente, o corpo cathedratico

da nossa universidade.

Esta verdade passou, porém, da metaphysica á pratica; e assim é que, ao

contrario de Rousseau--que na natureza fundava todo o pacto entre

os homens--se elevaram, como por encanto, o _Bois de Boulogne_, em

Paris, o _Hyde Park_, em Londres, e o _Central Park_, em New-York.

A não ser Lisboa, a velha fanatica do passeio publico, poucas cidades ha

agora na Europa, que não tenham o seu pequeno _boulevard_, especie de

_rendez-vous_ do mundo elegante e da fina sociedade do bom tom.

E necessario é que isto assim seja. O _boulevard_ não é simplesmente uma

ostentação de capital, mas ainda mais uma parte indispensavel á educação

de um povo, que não é só intellectual e moral, senão tambem physica e

social.

Em Paris qualquer creança aprende mais pelos olhos e pelo ouvido do que

nós nas nossas escolas. E o motivo é facil. Habituados desde a infancia

a frequentar os differentes jardins--botanico, zoologico, etc.--quando

chegam a uma edade razoavel, quasi se póde dizer que são dotadas de uma

vasta e profunda educação.

Praticamente aprendem os nomes aos animaes; ouvem-lhes a historia;

assistem-lhes ao desenvolvimento e acompanham-lhes os movimentos e os

instinctos. E tudo isto, porque desde pequenos frequentam os

_boulevards_, onde brincam e onde muitas vezes arranjam os meios de

ganhar a vida no futuro.

Mas o _boulevard_ tambem é hygiene, pelo bom ar que lá se respira, pelos

exercicios a que convida, e pela facilidade com que se passeia. Depois

nem só isto. Ha ali campo para largas observações e assumpto para

profundos estudos. Muitos romances conheço eu que tiveram lá a sua

origem, além de muitas mulheres que lá foram procurar a sua felicidade e

a sua riqueza.

O _Prado_ é um dos mais celebres e um dos mais concorridos passeios da

sociedade elegante de Madrid. Diz-se que a sua origem, tal qual se acha

presentemente, data do reinado de Carlos III. Rodeado de fontes, de

lagos, de arvores, de estatuas, de _restaurantes_, de praças, o seu

espaço é enorme, extendendo-se da fonte de Cybele quasi em linha recta

até encontrar o passeio de Atocha, formado pela prolongação da rua

do mesmo nome.

É raro o dia em que ali não passeiam de quinhentas a mil carruagens,

vendo-se frequentemente dentro d'ellas rostos formosissimos, adornados

de bellos olhos, profundos e escuros, como só os sabem ser os olhos

hespanhoes.

Com dois ou tres passeios ao _Prado_ quasi se fica conhecendo toda a

sociedade madrilena, nas suas distincções e nos seus vicios, nas suas

virtudes e nos seus erros.

E depois--que mulheres!

A uma historieta assisti eu, divertidissima por signal e extremamente

curiosa.

Um amigo meu, amoroso e simples, encontrou-se um dia profundamente

apaixonado por uma gentilissima menina, que todas as tardes ali

costumava expôr-se á admiração geral dos passeiantes e dos leões da moda.

Até aqui, já se vê, nada de extraordinario.

O ingenuo rapaz, porém, não se podendo mais conter, entrou-se

tristemente na desgraçada usança portugueza, e abeirando-se da

mulher, fez-lhe a seguinte declaração:

--Deponho aos seus pés, minha senhora, a mais pura e sincera homenagem

dos meus respeitos e do meu amor...

Ao que a deusa respondeu:

--Ai! que graça!... Se o cavalheiro soubesse em que eu agora estava a

pensar?!...

O galã aproximando-se mais:

--Em que estava a pensar?!...

--Sim, pois não adivinha? aflautou a ingenua.

--Certamente que não.

--Pois olhe estava a pensar num bonito vestido de riscas...

Ó illusões! ó facadas!

No dia immediato o apaixonado moço pegou num lapis, e escreveu á pressa

num bilhete de visita as seguintes e doces palavras:

«Pepa (era o nome da heroina)--«Pepa--aborreço-me, e adoro-te».

A resposta, porém, não veio. Pegou noutro bilhete, e tornou a escrever:

«Quem a adora, onde a poderá encontrar?»

Então o coração de Pepa pulsou violentamente dando de si uma tremenda

explosão que em seguida passamos a transcrever fielmente.

«Cavalheiro--Recebi o seu primeiro e o seu segundo bilhete. Não respondi

ao primeiro, porque não quiz, e ao segundo apenas tenho a dizer que o

acho de um arrojo extraordinario e nunca visto».

Assignado por um nome supposto que não era o de Pepa.

Assim continuaram as cousas. Os episodios succederam-se uns após outros.

Numa noite, comtudo, ás tristezas do costume seguiram-se no meu amigo

umas alegrias estranhas. Interroguei-me a mim e interroguei-o a elle.

Reparei-lhe nos olhos, e reconheci-os mortiços; olhei-lhe as narinas, e

vi-lh'as extraordinariamente dilatadas. Então a minha consciencia deixou

o estado de duvida em que se achava, e entrou serenamente na estrada da

certeza. A conquista havia-se effectivamente realisado. Pepa, a sublime

actriz, depois de varias piruetas, de varios zig-zagues, de varias

fórmulas, concluira emfim por se render. Não era praça inexpugnavel.

Presentiu metralha, e caiu. Cumpriu religiosamente o dever que a sua

condição lhe impunha.

E nada mais. O meu patricio, o indigena, sahia todos os dias de casa,

alegre e bem disposto, e entrava altas horas da noite com algumas libras

de menos na algibeira e com algumas desillusões a mais no espirito, até

que por fim se saciou.

Ao deixar Madrid, elle vinha menos ingenuo e mais pratico. Lições do

_boulevard_!

Na hora da partida escreveu á sua amada uma carta frisante, que bem nos

póde revelar a transformação que no seu caracter se operára ultimamente.

«Minha menina--Um negocio urgente me chama a Lisboa. Digo-lhe adeus. A

menina é formosa, elegante e distincta. Com duas ou tres horas de

janella por dia, estou convencido, encontrará um digno substituto á

minha pessoa. Sem mais. O seu...»

E assim é, de facto, o _boulevard_:--a vida, o amor, a formosura--e

tambem a lição aos ingenuos e a practica aos inexperientes.

* * * * *

Agora, marqueza, tenha paciencia, caminhemos para o _Retiro_.

Dizem que o sol é o pae da vida--approveitemos o sol. _Bras-dessus_,

_bras-dessous_, conversemos. Que lindo tempo! É verdade!--sabe a

marqueza de um facto que hontem se deu na cidade? Não sabe? Pois eu lhe

conto. Conhecia a Dolores, a formosissima _cocotte_ da _rua de Alcalá_?

Que elegante mulher! Tinha uns cabellos louros, que pareciam estrellas

do céo. Os amantes, que eram aos centos, querendo comparar a côr do seu

cabello com a côr do ouro, por mais de uma vez tinham ficado sem o

dinheiro, e, o que é peior ainda, privados tambem do proprio cabello de

tão gentil _señorita_. Que ferro, minha amiga, que ferro!

Ha de haver seis mezes, Dolores appareceu, como de costume, no _Prado_.

Seriam quatro horas, quando eu a vi chegar. Trajava um elegante vestido

de seda escarlate, cuja fimbria recebia quotidianamente os beijos dos

amantes e os suspiros do solo, que muito ao de leve pisava e quasi sem

mesmo se aperceber. Porque Dolores, a vaidosita, não era mulher que por

ahi se gastasse em qualquer passeio solitario. Ella tinha a sua

carruagem--uma bonita carruagem moderna e commoda--e tinha tambem, além

de muitos escravos, de que o seu coração por vezes escarnecia, os seus

creados e as suas governantas.

Dolores era, no fim de contas, como todas as mulheres do _boulevard_, um

espirito risonho, attrahente, leviano,--nem Rigolboche, nem Magdalena.

Ella alimentava em seu seio o sublime sentimento da familia, educára

suas irmãs; e conduzia seu pae--um triste cego!--pelo braço. Não amava

porque não queria; tambem não odeiava; mas, se fugia do amor era

simplesmente porque lhe reconhecia os perigos. Afóra isto, como se

encontrou só e desamparada no mundo, destituida de prendas e de

educação, fez vida pela sua formosura, e caminhou rectamente,

serenamente, desassombradamente, sem attrictos, sem desvios, sem atalhos

pela estrada dos assalariados da terra.

No subir para este calvario, ella, que não queria passar por santa,

sentiu que a cruz lhe era demasiadamente pesada e quiz descarregar-se

d'ella. Mas ao olhar para traz viu que a sua familia--uma pobrissima e

desgraçada familia--carecia, para não morrer de fome, de comer e de se

alimentar.

Então chorou. Pobre Dolores! Quantas mulheres como tu não terão passado

pelo mesmo desespero e pela mesma agonia!...

Um raio de esperança, porém, penetrou-lhe no coração. A passo lento

approximou-se do espelho. O espelho reflectiu-lhe a gentileza sem par.

Que alegria, meu Deus!--exclamava ella. Finalmente... finalmente...

E foi-se para a rua nuns impetos estranhos, nervosos,

incomprehensiveis...

D'ahi a um mez, Dolores, trajando sedas e veludos, era uma das mil e

perigosissimas rainhas do _Prado_.

Mas vamos ao escandalo. Havia um mez seguramente que em redor d'ella

como que tentava esvoaçar um ingenuo da provincia--bom rapaz, é verdade,

mas algum tanto lorpa. Dolores não gostava d'elle. Mas, emfim, ou por dó

ou por capricho permittiu-lhe um dia a approximação. Effectuou-se o

_rendez-vous_, que durou meia hora. Ella fallou sempre; elle, porém,--ó

pudor!--apenas a comprimentou á entrada e á saída.

Muito bem.

No dia immediato, ao de semilhante encontro, recebia Dolores a seguinte

carta:

«_Minha senhora_,

«Pretendo ardentemente o seu coração. Amo como nunca amei. Exijo que me

attenda. No caso contrario, suicidar-me-hei.»

--Curioso, curioso!--exclamava ella, rindo e correndo pela sala.

--Original, original!... Tinha graça... ficar sem o meu _chacho_... elle

que me póde render ainda tão boas, tão santas libras... Oh! pois não...

attendel-o-hei... Cahirei aos pés d'elle, que não falla... aos pés

d'elle... não, não te suicidarás, formoso!....

E, e sem mais, Dolores tomou a penna e escreveu laconicamente:

CONTA CORRENTE

«_Deve o sr. F. por meia hora de conversação commigo, no dia 1.º do

corrente, a simples quantia de 1:000$000 réis, que pagará em oiro ou

prata, dentro de vinte e quatro horas a contar de hoje das 11 da manhã._

_Assignada_--DOLORES.»

E assim foi. O rapaz, ao receber o bilhete, sentiu-se quasi allucinado.

Depois, porém, recobrou animo e serenidade. Pensando que seria aquelle o

unico meio de a conquistar, volvidas duas horas, após a recepção da

carta, respondeu com a mesma singeleza:

«_Minha senhora_,

«Por si darei tudo, a minha vida e o meu futuro. Póde, quando quizer,

mandar receber o dinheiro que pede no banqueiro C., rua de ***, n.º....»

Dolores passou, então, pela primeira impressão forte na sua vida. Esta

resposta laconica e expressiva, como era, agitou-lhe violentamente as

fibras da sua alma, d'ella. Reflectindo bem no caso e na dedicação, com

que fôra brindada, ella a orphã, ella, a _desdichada_, ella, a

meiga, ella--a preciosissima joia, engastada numa sociedade de

meras apparencias e de meras formalidades, ella, a Dolores, ella chorou

sinceramente.

--Não!--dizia ella--Eu não receberei este dinheiro. Nunca! Mas em vez do

seu dinheiro--oh, sim!--eu receberei o seu amor, que deve ser sublime

com a sua generosidade; o seu amor, a pura expressão de um coração

honesto e simples.

E escrevendo, ella disse-lhe a chorar:

Meu amigo,

«Renuncio ao seu desinteresse. Sinto que o amo doidamente. Desejo vel-o.

Venha quando quizer.

«_Dolores._»

Assim se encadearam os acontecimentos. Dolores, sem ser Margarida

arrependida, tornou-se, todavia, mulher séria e grave. O nosso

provinciano, sem ser Armando, adquiriu pelo amor de Dolores a

consciencia de si e a elevação da sua dignidade abatida.

Mas, quando menos a gente as espera, é quando o diabo as arma.

Dizem-me que hontem, tanto Dolores como o seu amante, foram encontrados

mortos, na propria casa em que desde muito habitavam.

Oh! os _boulevards_, minha querida marqueza...

Mas, por Deus, entremos no _Retiro_.

O seu braço, minha amiga, o seu braço!...

* * * * *

O passeio do _Retiro_, um dos mais afamados da Europa, foi fundado no

reinado de Filippe IV, sob a inspiração do conde duque de Olivares,

especie de marquez de Pombal na Hespanha.

Quasi todos os despotas gostam de deixar assignalada a sua passagem

na terra com monumentos immorredouros, por via de regra attestados de

inepcia, de orgulho e de mau gosto.

Foi assim que, entre nós, no tempo de D. João V se originou o celebre

convento de Mafra. E foi assim que nasceu o _Escurial_, embora de melhor

gosto e de mais elevação artistica.

Durante o reinado do seu fundador, o _Buen-Retiro_, pelos seus passeios,

pela sua magnificencia, pelos seus jardins, pelos seus palacios, pelos

seus theatros, quasi se podia dizer um Eden, entreaberto aos sorrisos

das morenas feiticeiras e um paraiso entresonhado pelos cavalleiros

desde aquelles periodos aventurosos.

Tudo, porém, neste mundo tem a sua decadencia. Filippe V, querendo

guindar-se á altura do monarcha francez, virou-se para os jardins de

Aranjuez, onde lhe pareceu divisar competencias, embora longinquas, com

Versailles, de todos os passeios actuaes da Europa o mais célebre e o

mais sumptuoso, ainda quando mais não fosse senão pelo jogo das aguas,

as quaes, na sua ascensão phantastica e miraculosa, se alteiam

muitas vezes, numa extensão de cincoenta metros acima do nivel do lago.

Assim foi decaindo tão rara maravilha. Fernando VII tentou restituil-a á

vida. E o facto é que o _Retiro_, mercê das grandes e enormissimas

quantias nelle sepultadas, atravessou incolume até nós, a salvo das

revoluções e em plenos sorrisos de felicidade.

Leitora amiga--se realmente ama o passeio, percorra a _Carreira de S.

Jeronymo_ e entre no _Retiro_. Levante-se cedo, tome o seu chaile, calce

as suas luvas, e prepare-se afoitamente para banhar-se numa boa

atmosphera, salutar e agradavel. Esta pequena digressão ha de fazer-lhe

bem, porque é hygienica e variada. Em casa póde dispensar o seu

chocolate; ha de saboreal-o lá, depois de ter passeado, depois de ter

ido ao lago, depois de ter visto as feras, emfim, depois de estar

cançada. E verá que a não engano. Lá encontrará um bom _restaurant_

aceiadissimo e commodo. Á cautella, porque o almoço é tarde, sempre

lhe aconselho que mande vir duas ou tres bolachas.

Como queira. Perto de nós temos a _montanha artificial_ e o _salão

oriental_. Já lá foi? Que soberbo panorama! D'ali, d'aquella eminencia,

apparece-nos Madrid, em toda a sua vida e em toda a florescencia. Que

magnifica cidade, e sobretudo, que cidade tão moderna!

É verdade--e o _jardim botanico_? É logo no passeio do _Prado_. Dizem

que só está aberto desde 30 de maio até 30 de setembro. Mas é um famoso

recinto, bem cultivado, com excellentes plantas e situado num magnifico

local. Possue, além disso, este jardim uma notavel variedade de plantas

e uma curiosissima secção _zoologica_, cujo objecto é alimentar e

propagar, na Hespanha, toda a especie de animaes.

E a _Recoletos_--já foi a leitora?--E á _fuente Castellana_?

O primeiro tem, como o _Prado_, oito lindissimas fontes, todas ellas no

meio de praças, de arvores, e de mil outros attractivos, que dão ao

nacional o supremo consolo de poder passar bem duas ou tres horas

por dia.

Porque estes passeios não servem apenas de meras distracções. Outros são

os seus fins e outras são tambem as suas vantagens.

Os _boulevards_, em geral, além de possuirem no seu seio mil cousas

dignas de um estudo especial, são por outro lado um espectaculo que as

municipalidades offerecem á pobreza, tão curiosa como digna de divertir-se.

No nosso paiz os operarios não encontram um espectaculo gratuito. Por

isso, á falta de entretenimentos, entram nas tabernas, e embriagam-se.

Tivessem elles uma boa musica, um bom passeio, um exercicio attrahente e

o amor do vinho desapparecera. Tivessem elles, sobretudo,

municipalidades desinteressadas e independentes, e as suas doenças,

assim como o seu mal estar não teriam mais razão alguma de ser.

O artista tem no _boulevard_, uma formosa galeria, especialmente

merecedora de analyse e de critica. Nos museus encontram-se os

quadros pintados. Pois o _boulevard_ é um museu--ao vivo, já se entende.

Dizia Richelieu que costumava esmagar o amor debaixo do tacão da sua

bota. D'onde se vê que nem o illustre cardeal se pôde eximir ás

influencias do mundo exterior e dos _boulevardiers_.

O _boulevard_ é ainda mais o figurino, a moda, o _chic_. Quem fôr á

_fuente castellana_, que começa na casa da moeda e termina na

fonte do mesmo nome, encontra ali o mais selecto da sociedade

madrilena--_toilletes_ finissimas, aristocracia elegante e burguezia

desempenada.

Foi na _fuente castellana_ que se originou uma elegantissima paixão

ainda hoje inedita nos annaes da historia hespanhola.

Conta-se que um notavel tribuno, escriptor e poeta, andando um dia a

recrear-se neste passeio, fôra apanhado de surpreza pelos olhos

abrasadores de uma sevilhana gentil; e por tal fórma se deu este facto

que elle, hoje politico illustre no seu paiz, nunca mais pôde

subtrahir-se ás influencias d'aquelle dominio.

A menina foi, passado um mez, pedida á familia em casamento. Ella

acceitou, e o matrimonio ficou assim solemnemente tratado.

Demorou-se, porém o negocio. A noiva pretextava desculpas, que ninguem

sabia a que attribuir. Em casa, além da familia, só entrava um padre. O

noivo, furioso, tratou de indagar. Sabendo finalmente, que fôra o padre

o motor de similhante desordem, elle, com a maxima serenidade,

procurou-o em casa, e disse-lhe expressivamente:

--Entre o insulto e o assassinio prefiro o segundo. Queira fazer o acto

de contricção.

O padre ajoelhou.

--Agora levante-se, e peça perdão a Deus.

E zás, sem mais tir-te nem guar-te, ouviu-se a detonação de um tiro. Uma

bala havia atravessado o peito do hypocrita.

--Finalmente--exclamou o tribuno.--Para os frades bacamarte, para a

batina clavina.

E fugiu.

Volvidos annos, este mesmo cavalheiro voltava á patria, casava com a

mesma menina que em tempos namorára, e preparava-se para ser ministro, o

que já foi ha muitos annos.

Oh! os _boulevards_, minha querida marqueza, os _boulevards_...

Mas, a proposito, quer a marqueza jantar commigo?

XVII

HISTORIA INEDITA

Ha de haver nove mezes que isto succedeu. Ia eu de Madrid para o

Escurial. O unico companheiro de viagem que a fortuna me concedeu,

durante o trajecto que vae da cidade do sr. D. Affonso XII ao Versailles

hespanhol, era uma senhora alta, de cabello louro, de olhos azues e de

uma distincção profundamente aristocratica.

Mudos, por muito tempo, foi ella, afinal, quem rompeu o silencio.

--_Es usted español?_--perguntou-me a minha amavel companheira.

--Não, minha senhora, sou portuguez--respondi.

--Ah! portuguez.... conheço perfeitamente Lisboa; já lá estive tres

mezes. É uma cidade bonita, mas muito monotona. A natureza é admiravel,

mas a sociedade é demasiadamente ficticia. Não tem uma vida propria, e

vive do que os outros lhe querem dar...

--E posso eu ter a honra de saber a quem me dirijo?

--Ora! por Deus! sou muito modesta para que deseje saber quem sou. Nasci

na America, em Nova-York. Depois meus paes mandaram-me para Paris, onde

fui educada. De Paris passei á Suissa, onde residi alguns annos, e da

Suissa vim para Madrid, onde vivo ha dez annos com meu marido e um unico

filho que tenho.

--E a opinião de v. ex.ª ácerca de Madrid?

--Um magnifico centro com muita vida propria e alguma corrupção. Detesto

muito a politica hespanhola, e amo do coração a sua litteratura. Gosto

muito dos seus poetas e dos seus litteratos. São enthusiastas

ardentes e mais que tudo fanaticos _à outrance_.

--E a respeito das litteratas hespanholas, que me diz v. ex.ª?

--Uns verdadeiros talentos. Conheci de perto D. Carolina Coronado. Tem

uma historia engraçada. Um dia ella, a caprichosa, que tanto e tão a

peito defendia a emancipação da mulher, arrojou para longe de si o trajo

feminino, e fez-se rapaz. Engraçadissima! Entrou na universidade ao

mesmo tempo que seu marido, formou-se em direito, e já escreveu sobre

direito penal. Hoje é uma distinctissima poetisa, e ainda uma

deslumbrante mulher.

--Admiravel!

--Tambem tive relações intimas com a melhor novellista hespanhola, que

usava do pseudonymo Fernand Caballero. Havia sido perceptora dos filhos

do duque de Montpensier, e presentemente pouco escreve, creio eu.

--E a baroneza de Wilson, conheceu?

--Perfeitamente. D'essa senhora conta-se tambem uma anecdota curiosa.

Diz-se que Zorrilla estivera doente, e que, na sua enfermidade,

fôra tratado desveladamente por uma senhora, sua vizinha. Ao cabo da

doença, elle, querendo ser grato, esposou a sua enfermeira, a qual,

então, vivia com uma sobrinha, mulher de um grande talento, que mais

tarde casou com um inglez e que por isso se chamou baroneza de Wilson. E

tambem vivi muito de perto com D. Maria Pilar Sinués de Marco. É

romancista afamada. Vem-lhe de seu marido o nome de Marco, e por isso os

hespanhoes dizem d'elle--_se le conoce porque és marido de la Sinués_,

(similhança de _Cabeza e Calabazas_).

--Nunca fallou em Lisboa com uma distinctissima senhora, que usa do

pseudonymo Leon de la Vega?

--Pois não! Sei que é esposa de um engraçado escriptor chamado D. Thomaz

de Mello.

--Exactamente.

--Além d'estas, convivi com Angela Grassi, mulher, talvez não muito

formosa mas de muito talento; com D. Antonia de Arciniega e Martinez,

que cultivou um genero de poesia quasi pastoril; com D. Josepha

Estevez del Canto, admiradora em excesso das fabulas de Lafontaine, com

D. Emilia Cale Torres de Quintero, com D. Sofia Tartilau e com muitas

outras. Bem vê que seria impossivel recordar-me agora de todas as minhas

relações. Unicamente lhe affianço que em Hespanha as mulheres que

escrevem, embora não sejam muitas, são todas dotadas de um immenso talento.

--Mas, minha senhora, permitta-me que lhe manifeste os meus mais

ardentes desejos de a conhecer...

--Perdão... isso é que não está no contracto. Tenho respondido a todas

as suas perguntas e isso me basta... O meu nome, não lh'o posso por ora

revelar. É possivel que mais tarde o saiba. Por agora desculpe-me.

--_Escurial! Escurial!..._--gritaram os guardas do caminho de ferro.

A minha companheira apeou-se, e, estendendo-me a mão, nem sequer me deu

tempo para me despedir d'ella.

* * * * *

Dois dias depois, o creado do hotel, em Madrid, entregava-me um bilhete

concebido nos seguintes dizeres:

_D. Maria del Sarto_

_pede-lhe a fineza da sua companhia para o jantar de hoje,

ás 6 horas da tarde, na Calle de Alcalá---8._

--Maria del Sarto! Quem será Maria del Sarto?--exclamei.

E ás 6 horas da tarde, em ponto, dirigi-me para a rua de Alcalá.

Qual foi, porém, o meu espanto, quando, ao entrar na sala dei de rosto

com a minha formosa amiga de viagem.

Costumes Madrilenos Notas de um Viajante · 第 4 / 5 段