facto que occupa o throno, sabemol-o; mas na realidade é ella quem
governa, desde o momento que o consentimento lhe foi dado, para de novo
residir no palacio _del Oriente_.
Que diria a isto Prim, o heroe de 1868, se por acaso hoje vivesse? Que
dirão a isto os senhores liberaes de Hespanha, que, por suas proprias
mãos, acabam de cavar o proprio sepulchro? E que fará o sr. Canovas del
Castillo, o amigo duvidoso da ex-rainha?
E a Hespanha, a nobre filha da peninsula, consentirá impunemente n'este
attentado contra a sua dignidade? Volverá ao nefasto governo dos Clarets
sem um protesto, sem um brado de indignação, sem uma affirmativa do seu
brio e do seu pundonor?
Nada temos com personalidades. A politica pessoal é, de todas as
politicas, a mais detestavel e a mais perniciosa. Mas se isto nada é, o
principio é tudo. É forçoso respeital-o e seguil-o. De outro modo não ha
paiz que se sustente, da mesma maneira que sem leme é impossivel a
navegação no mar.
Amadeu I, pela sua demasiada simplicidade, não logrou nunca que os
hespanhoes o guindassem ao fastigio da gloria. Muito bem. O sr. Zorrilla
dispensa-o do seu serviço, e prepara-se para dirigir a politica do seu
paiz. Mas, ó incoherencia! o proprio sr. Zorrilla, segundo affirmaram
alguns, é o primeiro a divorciar-se dos republicanos, emigrando e
dizendo-se apenas radical. E, por incoherencia ainda, é elle hoje o
conspirador por excellencia, e, segundo todas as vistas, o chefe do
futuro gabinete republicano.
E tão odioso é de facto o seu nome ao actual governo, que, ainda ha
pouco, o jornal _El Globo_, orgão do sr. Castelar, e de que é director o
sr. Olías, foi supprimido por apenas lhe ter estampado a photographia na
primeira pagina.
E esta suppressão indigna, violação manifesta do direito, da justiça e
da propriedade, foi feita sem denuncias, sem accusações fiscaes e sem
que os tribunaes fossem, ao menos, ouvidos.
Tal é, em geral, o fructo dos governos restauradores!
Quando Affonso XII subiu ao throno não faltaram, nem as apostas, nem os
protestos, nem as indignações.
Mas tudo isso passou. E _el niño de su madre_, o pequeno authomato dos
tempos modernos, convicto de que o seu reinado havia de ser de ouro,
sentou-se no throno, com o serenidade de um fingido Bourbon, sem
consciencia e sem reflexão.
Agora, porém, falla-se com insistencia numa nova revolução. Madrid
agita-se; o exercito divide-se; a fazenda publica está num estado
desesperador; a população descrê; tudo isto, aggravado ainda com a vinda
da rainha Isabel para Madrid, que a todos inspira odio e antipathia, faz
suppôr que o movimento revolucionario se não demorará muito no seu
apparecimento.
Ninguem hoje tem o poder de resuscitar cadaveres. A elevação de Affonso
XII ao throno nunca passou mesmo de uma mera phantasmagoria politica,
especie de entreacto entre o passado e o futuro. Hão de tornal-o a
enterrar, estou convencido, e sem grande difficuldade.
Conta-se que num jantar, ultimamente dado em Barcelona, se reuniram seis
politicos de vulto. Travada a discussão viu-se que cada um d'elles
professava opinião differente ácerca do estado geral da patria.
Progrediram assim as cousas; e de tal maneira que, no fim do banquete,
os copos voaram pelos ares ao clamor estridulo e confuso de uma contenda
infernal. Ninguem se entendia. O meio de persuasão estava já nos punhos
arregaçados e nos calices feitos pedaços. Finalmente parece que tão
delicioso repasto terminou, sem levar a convicção ao espirito dos
convivas, é verdade, mas deixando-lhes, todavia, a liberdade do vinho
absorvido, e a gloria dos destroços por cada um operados em favor da sua
causa.
E assim é, em quanto a nós, tambem a politica em Hespanha--uma
Babylonia!
[1] Este artigo, embora restricto a um facto particular da
actual dynastia reinante em Hespanha, póde, todavia, ampliar-se
á politica geral do paiz, e por elle ser criticada.
IX
MUSEUS
No seculo XVI, ao mesmo tempo que tudo decahia em Hespanha--politica,
commercio, industria--como que para contrastar, surgia, por outro lado,
o primeiro poeta hespanhol, Calderon, e o primeiro pintor, Velasquez.
E desde então para cá as artes e as sciencias têm tomado um incremento
verdadeiramente assombroso; a ponto de, ainda ultimamente, muitos
professores da Universidade de Heidelberg, varios homens politicos
francezes, e alguns sabios de Inglaterra, se terem reunido afim de
lançar os primeiros fundamentos da Universidade livre de Madrid, que o
sr. Canovas del Castillo referiu que se chamasse _Instituto livre de
ensino_.
Em todos os museus de Madrid, que são muitos e admiraveis, se encontra a
immortalidade da historia hespanhola aliada á eloquencia do genio e da
inspiração individual.
O Museu real de pintura e esculptura, situado no passeio do Prado, é
ainda hoje um dos melhores do mundo, e foi fundado por Fernando VII, a
rogo de sua esposa Maria Christina.
Impossivel nos seria dar aqui uma resenha historica de todos os
principaes quadros que adornam aquelle paraiso. Apontaremos no entanto
alguns.
A escóla de pintura _hespanhola_ resente-se extraordinariamente do
catholicismo que lhe servia de inspiração. Assim, para exemplo, pódem
ver-se, entre outros, os quadros de Murillo, um, symbolisando a
_Annunciação de Nossa Senhora_, outro, representando a _Familia
Sagrada_, outro desenhando a _Concepção_, etc.; e os de Velasquez,
que tem um _Nosso Senhor Crucificado_ maravilhosamente acabado, assim
como um outro intitulado o _Quadro dos bebedores_; os de Rivera, que
produziu o _Martyrio de S. Bartholomeu_, _S. Jeronymo em oração_, etc.;
e os de Zurbaran sobre assumptos mysticos, e os de Goya, que realça
principalmente por um retrato a cavallo de Carlos IV, etc.
A escóla _florentina_ é, como a hespanhola, uma escola religiosa. Assim,
temos de Leonardo de Vinci dois esplendidos quadros: o retrato de Mona
Lisa, mulher de D. Francisco Gicondo, cavalleiro florentino, e a
representação da _Familia Sagrada_, tendo S. João e o menino Jesus em
attitude de se beijarem; de Andréas del Sarto, chamado Andrea Vennucci,
um retrato em busto de sua mulher Lucrecia Fede, e muitos outros; de
Miguel Angel Buonarroti um _Nosso Senhor atado á columna_; e, como
estes, outros de Bronsino, de Allori, de Carducei, de Vanni, etc.
Na escóla _romana_ o principal expositor é Sanzio Rafael, chamado
Urbino, que possue, entre outros, _A queda de Nosso Senhor Jesus
Christo com a cruz_, conhecido pelo nome de _Pasmo de Sicilia_, e muitas
allegorias á familia sagrada, umas conhecidas por _Ecce Agnus Dei_,
outras pela _Rosa_, outras pela _Perola_, etc. Seguem-se-lhe Julio
Romano, Sassaferrato, Barroci, etc.
Na escóla _veneziana_ o mais importante é Piciano, que tem uns
magnificos quadros de Carlos V a cavallo, de Jesus Christo apresentado
ao povo, do peccado original, da Victoria de Lepanto, da Virgem das
Dôres e do _Ecce Homo_; depois temos Bellino, Tintoretto, Bassano e mais
alguns.
As menos notaveis, talvez, neste museu são as escolas, _bolonheza_,
_lombarda_, a de Milão, e a de Napoles, as quaes, não obstante, ainda
apresentam nomes como os de Corregio (_lombardo_), Dominiquino e Guido
(_bolonhezes_) e Salvator Rosa (_napolitano_).
Nas escólas _franceza_, _hollandeza_ e _allemã_ ha cecebridades, como
Pedro Paulo Rubens, que apresenta o _Castello de Emaus_, _A serpente de
metal_, _Orpheu e Euridice_, _A dança dos paizanos_, _As tres
Graças_, _Perseu libertando Andromeda_, e outros, sendo 62 a somma total
dos seus quadros, ali expostos, a 28 os da sua escóla.
Antonio Van Dyck dá-nos retratos admiraveis, taes como o do pintor David
Rickart, o da duqueza de Oxford, o de Carlos I a cavallo, e o de D.
Henrique, conde de Berga.
David Teniers é pintor quasi bucolico, e offerece-nos quadros d'um mimo
inexcedivel--_Um colloquio pastoril_, _Uma festa de paizanos_, _Um
banquete campestre_, etc.
Antonio Raphael Mengs (allemão) é auctor de _Santa Maria Magdalena_;
Rembrandt (hollandez) tem _A rainha Artemisa_; e Moso Antonio (da mesma
escóla) pintou a esposa de D. João III, rainha de Portugal.
A escóla franceza tambem ali se acha dignamente representada por Pousin,
Claudio de Lorena, Antonio Watteau, Claudio Vernet e muitos mais.
Emfim, só a narração circumstanciada d'este museu daria para um grosso
volume, não incluindo já na conta a galeria de pinturas da _Academia
de S. Fernando_, na rua de Alcalá, que possue mais de 300 quadros, e o
_Museu nacional de pintura_, na rua da Atocha.
Se o leitor fôr curioso, com certeza não deixará de visitar os _museus_
de Madrid, que evidentemente constituem os monumentos mais notaveis da
civilisação hespanhola.
Só no _museu de antiguidades e medalhas_, na Bibliotheca nacional, se
pódem ver mais de 98:000 medalhas de ouro, prata, ferro, bronze, cobre e
barro, e muitissimas e numerosas antiguidades egipcias, etruscas,
gregas, romanas, godas, arabes, etc.
Na rua de Alcalá encontra-se o _Museu de historia natural_, que foi
fundado no tempo de Carlos III, e que possue ricas collecções de
mineralogia, de paleontologia e de zoologia.
Dos melhores do seu genero são tambem o _Museu anatomico_ de S. Carlos,
na rua da Atocha; o _Museu de artilheria_, no Buen Retiro, e o _Museu
naval_ no ministerio da marinha, o qual contém uma rica collecção de
armas, tropheus, e outros muitos vestigios de guerra e de combate.
Em Hespanha ha uma tendencia especial para esta arte. Raros são os
particulares que não possuam tambem o seu museu.
Um vi eu que me maravilhou devéras. Pertencia a Romero Ortiz. Entre
outras raridades, foi-me dado vêr ali o mappa em que o general Moltke
traçára a guerra franco-prussiana, e a faixa encarnada que Prim tinha
cingida á cinta na noite em que o assaltaram. Muitas reliquias
portuguezas me foram tambem mostradas, e creio até que uma do fallecido
visconde de Castilho.
Não ha de facto palavras que facilmente descrevam tanta arte, tanto
aceio e tanta maravilha.
Sobretudo--que maravilha!
X
A MUSICA
Poucas cidades ha já hoje na Europa que não tenham o seu theatro lyrico.
A musica não é apenas um entretenimento agradavel; é ainda mais, uma
necessidade impreterivel.
Aos domingos e dias santificados, aquelles que, por falta de meios, não
podem concorrer a espectaculos pagos, procuram naturalmente os jardins
publicos, onde, gratuitamente, lhes é dado ouvir uma orchestra ou uma
banda musical. E assim, este simples divertimento faz com que muitas
vezes se afastem da taberna muitos centenares de operarios. É que a
attracção de uma boa musica traz-nos frequentemente o esquecimento das
proprias dôres e dos proprios soffrimentos.
Tres escólas se disputam a palma no campo da lucta.
Uma (a escóla allemã) é a harmonia: raciocina, descreve as lendas do seu
paiz, e obriga á reflexão; outra (a escóla italiana) é a melodia: corre
atraz da sua imaginação, queda-se com um sentimento triste, expande-se
com a dôr, e recolhe-se com o amor. A primeira é grave, solemne,
austera, e pertence naturalmente aos povos do norte; a segunda é meiga
como uma mulher portugueza, leviana como a natureza em que vivemos, doce
como os costumes da Italia, e a sua vida está subordinada aos povos do
meio dia.
Na _Africana_, por exemplo, ha gritos selvagens, notas lancinantes,
harmonias plangentes; mas tudo isto com a inexcedivel pericia de um
maestro consciencioso, e, sobretudo, pensador.
Beethoven tem o condão maravilhoso de nos compellir ao estudo, á
concentração intima, ao seguimento de uma idéa, que é como que o
desabroxar do espirito para um mundo novo.
Grottschalk e Mendelssohn têm nas suas composições o cunho indelevel da
tristeza, prevêem a morte, e cantam-n'a. Não têm horror ao mysterio, e
por isso as suas partituras avivam em nós um não sei quê de vago, de
indefinido, que involuntariamente nos obriga a interrogar os arcanos da
consciencia.
Mozart tem uma certa vivacidade que seduz; em meio das suas lucubrações
pára, e, espraiando a vista pelos horisontes além, sente-se feliz, e
sorri; e tão formosos são os seus sorrisos, que d'elles, como se fossem
um sol, partem os raios animadores das suas obras monumentaes.
Ricardo Wagner, hoje o maior vulto musical da Allemanha, tem nas suas
obras, a par do rythmo, profundamente cadenciado e harmonico, uma feição
notavelmente litteraria e artistica; estudando as lendas do seu paiz,
conta-as com a superioridade de uma grande potencia, a quem não
escasseia nem o genio nem a phantasia.
A terceira escóla é a franceza, sem ideal definido, portentosa umas
vezes, com os arrojos de Meyerbeer, e suavemente deliciosa n'outras
occasiões, com as meigas melodias de Bellini ou Donizetti. E no
entretanto uma coisa distingue esta escóla: é a _verve_, o frescôr
animadissimo, transparente, que se exhala de todas as notas; a harmonia
que nos leva á meditação; a melodia que nos arrasta os sentidos, á
selhança de quem vive numa atmosphera impregnada de vapores e de perfumes.
A escóla franceza tem, é verdade, muito de condemnavel como escóla
_ecletica_; mas ainda assim não devemos nunca esquecer que a ella
pertencem talentos soberbos, como o de Gounod, compositor do _Fausto_,
e o de Berlioz, auctor do _Manfredo_, que para muitos foi o predecessor
de Ricardo Wagner, e o de Auber, e o de Herold e o de muitos outros.
A escóla franceza é, pois, uma intermediaria entre a escola _allemã_,
toda _subjectiva_, inspirando-se nos grandes arrebatamentos da
consciencia humana, cheia de gravidade, como a justiça, rodeada de
esplendores, como a verdade e infiltrada de meditações, como o espirito
da humanidade, e a escóla _italiana_, toda _objectiva_, obedecendo mais
ás impressões dos sentidos, tendo por norma de vida o ideal da natureza,
cercada de flôres, de primaveras e de aves, e cantando o paraizo ao som
das intimas alegrias e dos intimos prazeres.
Os _dilletanti_ do nosso theatro lyrico quasi que chegam a menosprezar
hoje a musica italiana, por obnoxia e anachronica.
Não nos parece razoavel semilhante proposito. A não ser a moda, não
sabemos que outros factos possam abonar tão disparatada opinião.
Portugal não tem uma educação musical verdadeiramente avigorada. Está
longe ainda de poder attingir o classicismo allemão.
Depois, nós somos um povo peninsular. Vivemos com as impressões
exteriores da natureza; o nosso espirito segue as oscillações da
temperatura atmospherica; somos frouxos, levianos, sem o vigor que dá a
consciencia nem a elevação que nos traz a idéa: a nossa escóla ainda
ha de ser por muitos annos a escola italiana.
A musica constitue, como a litterutura, a genuina expressão dos
sentimentos de um povo. A França, que ri sempre e a proposito de tudo e
de todos, não podia deixar de ser a patria da comedia moderna; por
eguaes razões a Inglaterra, que se alimenta de fumo e de _spleen_, se
não possuisse Shakespeare, o sublime tragico, possuiria de certo
qualquer outro que lhe interpretasse os sentimentos e as paixões, com a
mesma eloquencia com que o soube fazer aquelle divino artista; a
Allemanha, á semelhança de quasi todos os paizes do norte, é mais
inclinada ao drama symbolico, de que o _Fausto_ é um exemplo
maravilhoso, do que ao drama de paixão, que pertence naturalmente á raça
latina.
O genero musical mais favorito, em Hespanha, é o _tango_, a _habañera_,
a _malagueña_, a _seguidilla_, n'uma palavra a--zarzuella, com feição
especial e caracteristica, podendo tomar-se como mais uma affirmação do
genio bandoleiro hespanhol, e do espirito aspero, violento e
contradictorio d'aquelle esplendido paiz.
Que a musica entre os hespanhoes é originalissima, sabem-n'o todos. E
por tal fórma é isto verdade que jámais povo algum do mundo foi capaz de
assimilar-lhe a inspiração, o rythmo e o cadenciado da phrase.
A Hespanha ficaria incompleta se porventura lhe subtrahissem este genero
de musica, de todos os generos o mais monotono, talvez, mas com certeza
o mais espontaneo, porque é a expressão das suas tradições e da sua
nacionalidade.
Rara é a mulher em Madrid que não sabe cantar. O proprio amor madrileno
é um tango, em que a amada ou a amante ora quer, ora não quer, ora
solluça e ora ri, ora finge e ora pensa.
D'este modo vê-se que a musica em Hespanha, producto natural d'aquelle
paiz é como tudo o que alli existe--uma contradicção agradabillissima, e
talvez mesmo que um sonho encantador.
Mais adeante, porém, voltaremos a este assumpto.
XI
O CHOCOLATE E O CAFÉ
Eu havia realmente feito uma idéa da minha querida _señorita_; mas, por
Deus, ella, a caprichosa, está muito acima da minha pobre imaginação.
Madrid já não é simplesmente a mulher formosa, que ao sopro da
_ventarola_ agita os olhos avidos e curiosos, inflammada na eterna
chamma do amor e docemente embriagada pelo _Xerez_ do sentimentalismo
peninsular. Não. Madrid é mais alguma coisa do que isso--Madrid resume
em si a altissima idéa industrial do chocolate e o singularissimo
pensamento politico do café.
Peço perdão, minha senhora, se porventura fui menos claro no modo de
exprimir a minha idéa. Eu me explico. O chocolate é aqui o nosso
companheiro inseparavel, o nosso _bâton_ da manha e a nossa _badine_ da
noite.
Pela madrugada, ao descerrar a palpebra, ainda meio adormecida pelo
vivido enthusiasmo d'este _magasin_ pittoresco--a leitora será
mansamente despertada no seu leito, não por um formosissimo sol de
abril, mas sim por um mysterioso toque symbolico na porta do quarto, o
que lhe indicará muito claramente que, não longe d'ali, a está esperando
uma gentil creadinha com uma simples chavena de chocolate.
E, ou queira, ou não queira, ha de tomar o chocolate; do mesmo modo que,
se estivesse no Brazil, havia de tomar café sempre que visitasse um
amigo, e na China havia de aturar o chá vinte vezes por dia.
Ora, em caso de luta, eu prefiro o chocolate, porque, emfim, nem nos
torna nervosos, como o café, nem anemicos como o chá; que a fallar a
verdade elle--que para a Hespanha é o caracter, o amor, a vida, a
poesia, o commercio, a industria, a politica, a arte--elle, o chocolate,
é sobretudo nutriente e impregnado de substancias vivificadoras.
Pobre Hespanha! Alegre filha do estreito Manzanares, eu, em ti, não
canto as mulheres, nem as mantilhas de Sevilha, nem os teus risos
infernaes--eu, em ti, formosa, canto, apenas, o chocolate e o café, isto
é, a revolução e o futuro.
Pois julgam que não? Não acreditam na efficacia do chocolate, o escuro
semsaborão? Perguntem a s. s.ª, o dono da fabrica de _la Saragoza_.
Perguntem-lh'o. Tenham a bondade de perguntar-lhe qual é o seu consumo
diariamente.
Os hespanhoes são alegres, cheios de vida, dormindo pouco, saindo muito,
falladores, enthusiastas. E sabem porquê? Por causa do chocolate, o
mysterioso, que traz sempre estes ventres bem fartos, e, portanto,
orgulhosos de si mesmo.
A Hespanha passeia muito, é ligeira nos seus affectos, caprichosa na sua
politica, sonhadora, aventureira, risonha. E sabem porquê? É porque ella
precisa de fazer a digestão do seu chocolate. E por isso ella, a
olympica, faz duas ou tres corridas por anno por politicas differentes,
e inventa revoluções, que, por causa do chocolate, apenas poderão durar
poucos mezes.
As mulheres voam como andorinhas; correm de coração em coração, são
seductoras, amaveis, familiares, intimamente affectuosas, mas tudo isto
com azas, e portanto, com perigo.
Ora é por isso que eu ouso dar um conselho a s. s.as os srs. maridos de
Hespanha--não dêem chocolate a suas esposas, se é que realmente amam
mais o seu _mènage_ do que o _boulevard_.
Agora o café.
É um _pendant_ ao primeiro: ambos são negros, como suas reverendissimas
os senhores jesuitas que por aqui caminham aos centos.
O café é o complemento do chocolate. Vive-se n'elle, e n'elle se
apura a linguagem, a _toilette_ e o bem-senso.
As mulheres conciliam no seu coração o amor do profano e o amor do
sagrado. Entram no templo catholico com o mesmo _sans façon_ com que
entram no templo social. Porque o café--talvez a leitora o ignorasse--o
café é tambem um templo.
E que templo, minha querida marqueza! De tudo se encontra ali desde o
fidalgo da regencia _ci-devant_ até ao maratista sans-cullote.
Venha v. ex.ª a Madrid aprender a egualdade humana. Venha tomar aqui uma
chavena de café, e verá como, embora desconheça a liberdade, v. ex.ª
fallará na egualdade. Venha, minha senhora. Não se arreceie dos
carlistas, que esses bandidos já hoje não vivem, e pertencem á historia.
Quando S. M., o sr. D. Affonso XII, houve por bem entrar em Madrid,
depois de concluida a guerra carlista, a cidade embandeirou-se,
illuminou-se, gritou, exclamou, abriu a bôcca. E sabem tudo porquê?
Porque a cidade havia tomado muito chocolate. Sem _blague_. Estavam
todos fartos de chocolate, e a vingança foi digerir o patriotismo,
abertamente, rasgadamente, como qualquer leão do deserto.
Só a tropa não havia tomado a sympathica droga, e, por isso, ella entrou
na cidade esfarrapada, com as faces crestadas pelo sol das montanhas,
que não pelo sol das batalhas, e olhos encovados e lobregos. Por isso o
primeiro dever de sua magestade o sr. D. Affonso XII será mandar vestir
os que estão nús e dar chocolate a quem tem fome.
Que sua magestade seja misericordioso. Que sua magestade se inspire no
amor do proximo e no bem da humanidade!
Sua magestade é rapaz, que não prima pela formosura, mas que poderá, de
certo, primar pelo espirito. Eu não tenho a honra de conhecer sua
magestade. Sei que entrou em Madrid, e que a estas horas--tres da
tarde--já terá tomado chocolate no seu palacio de _la Plaza de Oriente_.
Deve ser-lhe de bom proveito, porque, emfim, sua magestade como
primeiro cidadão do seu paiz, tem de andar sempre bem alimentado, porque
muito tem que trabalhar.
Que sua magestade, portanto, haja por bem engordar e deitar fóra a
magreza que o devora, e tornar-se rijo, como qualquer dos seus soldados.
Que sua magestade, como bom catholico, se digne implorar da providencia
tão alta mercê.
Que sua magestade, reinando _por graça de Deus_, não seja frouxo nem
anemico.
Que sua magestade, emfim, tome muito chocolate, para assim angariar a
estima de seus subditos e o amor do proximo!
Que sua magestade não tenha pejo de entrar no café; que entre no café,
que questione, que se torne hespanhol, tomando a sua capa, e passeiando
pelas ruas da cidade, como qualquer humilde mortal.
Posto isto nós não temos mais que dizer a sua magestade.
E, portanto, que sua magestade passe muito bem, e me honre com as suas
ordens sempre que assim lhe aprouver.
* * * * *
Entre os muitos e notaveis cafés de Madrid, avultam, principalmente, o
_Imperial_, o _Oriental_, o das _Columnas_ e o de _Levante_, na Puerta
del Sol, o _Suisso_, na rua de Sevilla, o da _Iberia_, na Carrera de S.
Jeronymo e o _Fornos_ na rua de Alcalá.
O viajante que escolha á sua vontade; na certeza de que em todos elles
encontrará vida, apetite e enthusiasmo.
Portanto--_à l'aventure_!
XII
O SALERO
Por Deus, que se tivesse agora de fallar numa mulher franceza, eu, á
semelhança de um prégador d'aldeia, invocaria em meu auxilio, não a
virgem pura dos altares, mas sim a orgulhosa modista de sua magestade a
rainha--a sr.ª D. Cecilia Fernandes.
Mas o caso é outro. Trata-se de uma cousa engraçada, de uma cousa
extraordinaria, singular, de uma cousa perfeitamente real, e que não
deve a sua existencia neste mundo nem a Marsoo, a modista, nem a
Stellpflug, o sapateiro.
Trata-se, minhas senhoras, trata-se meus senhores, trata-se do grande
rei de Hespanha, da grande alma dos cafés, do grande senhor da politica,
da grande _dama d'honor_ de todos os paços, do grande, do supremo
_Bobeche_ de todos os ministerios, do grande _Pierrot_ de todos os
tribunos; trata-se (mas isto em segredo!) trata-se do _salero_.