A Colina de Humor

— Em um pequeno jardim quadrado de rosas amarelas, ao lado do mar —

disse Auberon Quin — houve um ministro dissidente que nunca tinha ido a

Wimbledon. Sua família não entendia a tristeza ou o olhar estranho em

seus olhos. Mas um dia eles se arrependeram de sua negligência, pois

ouviram que um corpo havia sido encontrado na costa, fustigado, mas

usando botas de couro patente. Aconteceu dele não ser o tal ministro.

Mas no bolso do homem morto havia um bilhete de volta para Maidstone.

Houve uma breve pausa enquanto Quin e seus amigos, Barker e Lambert,

foram andando no meio da relva lamacenta dos jardins de Kensington.

Então, Auberon retomou:

— Essa história — disse respeitosamente — é o teste de humor.

Eles caminharam cada vez mais rápido, atravessaram a grama alta quando

começaram a subir uma ladeira.

— Percebo — continuou Auberon — que passaram no teste, e consideram a

anedota dolorosamente engraçada, já que não dizem nada. Só o humor

grosseiro é recebido com aplausos de taverna. A grande anedota é

recebida em silêncio, como uma bênção. Sentiu-se muito abençoado, não é,

Barker?

— Entendi — disse Barker, um tanto arrogantemente.

— Sabe — disse Quin, com uma espécie de alegria idiota — tenho muitas

histórias tão boas quanto esta. Ouça isso.

E limpou um pouco a garganta:

— O dr. Policarpo era, como todos sabem, um bimetalista invulgarmente

pálido. Pessoas de larga experiência diziam: “Lá vai o mais pálido

bimetalista de Cheshire”. Uma vez isso foi dito de forma que ele ouviu:

foi dito por atuário, sob um por do sol lilás e cinza. Policarpo se

voltou para ele. “Pálido!”, gritou ferozmente, “Pálido! Quis tulerit

Gracchos de seditione querentes”. Foi dito que nenhum atuário jamais se

meteu com o dr. Policarpo novamente.

Barker concordou com uma sagacidade simples. Lambert só grunhiu.

— Aqui está outra — continuou Quin, insaciável. — Em um oco das colinas

verde cinzentas da chuvosa Irlanda, viveu uma mulher muito velha, cujo

tio sempre torcia para Cambridge na regata. Mas em seu oco verde

cinzento, ela não sabia nada disto: não sabia que houve uma regata.

Também não sabia que tinha um tio. Ela não sabia de nada, exceto de

George I, de quem tinha ouvido falar (não sei porquê), e nessa memória

histórica, ela confiava. Até que Deus quis que chegasse o dia quando

descobriu-se que esse tio dela não era realmente seu tio, e vieram-lhe

dizer isso. Ela sorriu em meio às lágrimas, e disse apenas: “A virtude é

sua própria recompensa.”

Novamente houve um silêncio, e então Lambert disse:

— Parece um pouco misterioso.

— Misterioso! — exclamou o outro. — O verdadeiro humor é misterioso. Não

percebe o principal incidente dos séculos XIX e XX?

— E qual é? — perguntou Lambert, breve.

— É muito simples — respondeu o outro. — Até então era a ruína de uma

piada que as pessoas não a entendessem. Agora é a vitória sublime de uma

piada que as pessoas não a entendam. Humor, meus amigos, é a santidade

que restou para a humanidade. É a única coisa que causa medo. Olhe para

a árvore.

Seus interlocutores olharam vagamente para uma faia que se inclinava em

direção a eles a partir do cume da colina.

— Se — disse o Sr. Quin — eu dissesse que não viram as grandes verdades

da ciência exibidas por aquela árvore, embora estejam escancaradas para

um homem de intelecto, o que pensariam ou diriam? Simplesmente me

considerariam como um pedante com uma teoria irrelevante sobre algumas

células vegetais. Se dissesse que não veem naquela árvore a vil má

gestão da política local, iriam me repudiar como um socialista maluco

com alguma mania particular sobre parques públicos. Se dissesse que

vocês são culpados da blasfêmia suprema de olhar para a árvore e não ver

nela uma nova religião, uma revelação especial de Deus, poderiam

simplesmente dizer que sou um místico, e não pensar mais em mim. Mas — e

levantando uma mão pontifical — se digo que não podem ver o humor

daquela árvore, e que eu vejo o humor dela, meu Deus! Poriam-se sob os

meus pés.

Parou um momento, e depois retomou.

— Sim; um senso de humor, um estranho e delicado senso de humor, é a

nova religião da humanidade! É para onde os homens vão se dirigir com o

ascetismo dos santos. Farão exercícios, exercícios espirituais.

Perguntarão: “Consegue ver o humor desta grade de ferro?” ou “Pode ver o

humor deste campo de milho? Pode ver o humor das estrelas? Pode ver o

humor dos pores do sol?” Quantas vezes ri sozinho até dormir por causa

de um por do sol violeta.

— Isso mesmo — disse Barker, com um inteligente embaraço.

— Deixe-me contar uma outra história. Quantas vezes acontece que os

deputado de Essex são menos pontuais do que se poderia supor. O deputado

menos pontual de Essex foi, talvez, James Wilson, que disse, no instante

de arrancar uma papoula...

De repente, Lambert se voltou e bateu sua bengala no chão numa atitude

desafiadora.

— Auberon, pare. Não suporto isso. É tudo tolice.

Os dois homens olharam para ele, pois havia algo muito explosivo nas

palavras, como se estivessem entaladas penosamente por um longo tempo.

— Você — começou Quin — não tem..

— Não me importo com uma maldição — disse Lambert, violentamente — se

tenho “um senso de humor delicado” ou não. Não vou suportar isso. É tudo

uma fraude para confundir-nos. Não há nenhuma piada naqueles contos

infernais. Você sabe disso tão bem quanto eu.

— Bem — respondeu Quin, lentamente —, é verdade que eu, com meu processo

mental gradual, não vi nenhuma piada neles. Mas, Barker, com seu sentido

mais sutil, achou engraçado.

Baker ficou bem vermelho, mas continuou a olhar para o horizonte.

— Seu idiota – disse Lambert — por que você não pode ser como as outras

pessoas? Por que não pode dizer algo realmente engraçado, ou segurar a

sua língua? O homem que se senta em um chapéu em pantomina é uma visão

muito mais engraçada do que você.

Quin o considerou firmemente. Eles haviam chegado ao topo da serra e o

vento atingiu seus rostos.

— Lambert — disse Auberon —, você é um grande e bom homem, embora que eu

seja enforcado se você aparenta isso. Mais ainda. É um grande

revolucionário ou um salvador do mundo, e estou ansioso para vê-lo

esculpido em mármore entre Lutero e Danton, se possível na sua atitude

atual, o chapéu ligeiramente para o lado. Eu disse enquanto subia o

morro que o novo humor era a última das religiões. Você fez do humor a

última das superstições. Mas deixe-me dar-lhe um aviso muito sério.

Tenha cuidado ao me pedir para fazer algo outré, como imitar o homem da

pantomima, e me sentar no meu chapéu. Porque eu sou um homem cuja alma

foi esvaziada de todos os prazeres, exceto a loucura . E por dois pence

faria isso.

— Então faça — disse Lambert, balançando com impaciência sua bengala. —

Seria mais engraçado do que a bobagem que conta.

Quin, de pé no alto do morro, estendeu a mão em direção à avenida

principal do Jardim de Kensington.

— A duzentos metros de distância, estão todos os seus conhecidos

elegantes com nada para fazer na terra exceto olhar para si mesmos e

para nós. Estamos de pé sobre uma elevação sob o céu aberto, como se

fosse um pico de fantasia, um Sinai de humor. Estamos num grande púlpito

ou plataforma, iluminado com a luz solar, e metade de Londres pode nos

ver. Tenha cuidado com o que sugerir para mim. Porque há em mim uma

loucura que vai além do martírio, a loucura de um homem completamente

ocioso.

— Não sei do que você está falando — disse Lambert, com desprezo. — Só

sei que prefiro você preso na sua cabeça tola, do que falando tanto.

— Auberon! Pelo amor de Deus.... — gritou Barker, saltando para a

frente, mas foi muito tarde. Faces de todos os bancos e avenidas se

viraram em sua direção. Grupos pararam e pequenas multidões se reuniram,

e a luz do forte sol pegou a cena toda em azul, verde e preto, como uma

imagem em uma livro infantil. E no topo da colina o pequeno Sr. Auberon

Quin estava, com destreza atlética considerável, de ponta cabeça, e

acenando com suas botas de couro no ar.

— Pelo amor de Deus, Quin, levante-se e não seja um idiota — gritou

Barker, torcendo as mãos — teremos a cidade inteira aqui.

— Sim, levante, levante-se, homem — disse Lambert, divertido e irritado.

— Eu só estava brincando, levante-se.

Auberon o fez com um salto, e atirando seu chapéu acima das árvores,

começou a pular em uma perna com uma expressão séria. Barker passou a

bater o pé no solo descontroladamente.

— Oh, vamos para casa, Barker, e deixá-lo — disse Lambert —, alguns

policiais adequados e corretos vão cuidar dele. Aí vêm eles!

Dois homens de aparência séria com uniformes discretos vieram até o

morro na direção deles. Um deles trazia um papel na mão.

— Lá está ele, oficial — disse Lambert, alegremente. — Não somos

responsáveis por ele.

O oficial virou-se para o travesso sr. Quin com um olhar silencioso.

— Meus senhores, não viemos aqui por causa do que acredito estão

aludindo. Nós viemos do quartel-general anunciar a seleção de Sua

Majestade, o Rei. É a regra, herdada o antigo regime, que a notícia deve

ser trazida para o novo soberano imediatamente, onde quer que esteja;

então o seguimos até o jardim de Kensington.

Os olhos de Barker estavam em chamas no seu rosto pálido. Ele era

consumido com a ambição por toda sua vida. Com a magnanimidade

embrutecida do intelecto, realmente acreditava no método de seleção de

déspotas pelo acaso. Mas esta sugestão súbita, que a seleção poderia ter

caído em cima dele, o enervou com prazer.

— Qual de nós — começou, mas o respeitoso funcionário o interrompeu.

— Não o senhor, sinto informar. Se me é permitido dizê-lo, sabemos de

seus serviços para o governo, e seriamos gratos se fosse. A escolha

recaiu ....

— Deus abençoe a minha alma! — disse Lambert, saltando dois passos para

trás. — Não eu. Não diga que eu sou o autocrata de todas as Rússias.

— Não, senhor — disse o oficial, com uma leve tosse e um olhar para

Auberon, que estava, naquele momento, colocando a cabeça entre as pernas

e fazendo um barulho como uma vaca. — No momento, o cavalheiro a quem

temos que parabenizar parece estar -er-er- ocupado.

— Quin? Não! — gritou Barker, correndo até ele — não pode ser. Auberon,

pelo amor de Deus, componha-se. Você foi escolhido Rei!

Com a cabeça ainda de cabeça para baixo entre as pernas, o sr. Quin

respondeu modestamente:

— Não sou digno. Não posso razoavelmente pretender me igualar aos

grandes homens que já empunharam o cetro da Grã-Bretanha. Talvez a única

peculiaridade que posso afirmar é que sou provavelmente o primeiro

monarca que expressou sua alma ao povo de Inglaterra com a cabeça e

corpo na presente posição. Isto pode dar-me, para citar um poema que

escrevi na minha juventude: Um ofício mais nobre na terra

Do que por valor, poder cerebral, ou nascimento

Poderiam dar aos reis guerreiros antigos. Assim, com o intelecto

esclarecido por essa postura...

Lambert e Barker foram encima dele.

— Não entende? — gritou Lambert. — Não é uma piada. Eles realmente te

escolheram rei. Por Deus! Devem ter gostos extravagantes.

— Os grandes bispos da Idade Média — disse Quin, chutando as pernas no

ar, enquanto era arrastado mais ou menos de cabeça para baixo — tinham o

hábito de recusar a honra da eleição três vezes e depois aceitá-la. Uma

mera questão de detalhes me separa desses grandes homens. Aceitarei o

cargo três vezes e recusá-lo depois. Oh! vou trabalhar duro para vocês,

meus fiéis! Terão um banquete de humor.

Por então, já havia sido aterrizado de cabeça para cima, e os dois

homens ainda estavam tentando em vão impressioná-lo com a gravidade da

situação.

— Não me disse, Wilfrid Lambert, que eu teria mais valor público se

adotasse uma forma mais popular de humor? E quando uma forma popular de

humor deveria ser mais firmemente pregada senão agora, quando me tornei

o queridinho de todo um povo? Oficial, — continuou ele, dirigindo-se

para o mensageiro assustado — não existem cerimônias para comemorar a

minha entrada na cidade?

— Cerimônias — começou o oficial, com constrangimento — foram mais ou

menos esquecidas por algum tempo, e...

Auberon Quin começou a gradualmente tirar o casaco.

— Toda cerimônia — disse ele — consiste na inversão do óbvio. Assim, os

homens, quando desejam ser padres ou juízes, vestem-se como mulheres.

Por favor, me ajude com este casaco — e o segurou.

— Mas, Majestade — disse o oficial, depois de um momento de confusão e

manipulação — está colocando-o com as caudas na frente.

— A inversão do óbvio — disse o rei, com calma — é o mais próximo a que

podemos chegar de um ritual com nosso imperfeito aparato. Pode continuar.

O resto da tarde e noite foi para Barker e Lambert um pesadelo, que não

poderiam apropriadamente compreender ou recordar. O rei, com seu casaco

invertido, foi para as ruas que estavam à espera dele, e para o antigo

palácio de Kensington, que era a residência real. Enquanto passava

pequenos grupos de homens, os grupos se transformou em multidões, e

emitiam sons que pareciam estranhos para acolher um autocrata. Barker

andou atrás, seu cérebro cambaleando, e, enquanto a multidão crescia

mais espessa, os sons se tornaram ainda mais incomuns. E quando alcançou

o grande mercado local em frente à igreja, Barker sabia que tinha

chegado, embora estivesse bem atrás, porque subiu uma gritaria como

nunca antes havia recebido nenhum dos reis da terra.

O Napoleão de Notting Hill · 第 12 / 30 题