ILL.^MO E EXC.^MO SENHOR.

Os louvores nem sempre são filhos da lizonja, nem sempre são a linguagem

baixa, em que os infelices fazem o seu commercio com os Poderozos;

quando assentão em merecimento sólido, são huma paga devida ás Virtudes;

o Ceo as dá; os Reis devem-lhe os premios; os outros homens os louvores.

Hoje, Ill.^mo e Exc.^mo Senhor, nos apontão os Fastos de Portugal o

feliz Nascimento de V. Excellencia; o costume consagra com Elogios estes

dias solemnes; a Patria recompensa assim os Annos, que a ella se derão;

e se em hum dia destinado aos obsequios, eu fosse hum méro espectador,

hum assistente ociozo, o silencio, tantas vezes virtude, seria agora hum

crime, seria huma prova da minha ingratidão.

A força do agradecimento, e a abundancia, da materia me porião na boca

huma torrente de louvores; mas V. Excellencia põe tanto cuidado em

merecellos, como em não querer ouvillos; temo a sua modestia; e huma

virtude de V. Excellencia me não deixa fallar-lhe nas outras; porém ao

menos seja-me permittido, que a minha alma se encha de complacencia,

lembrando-se de que tres Reis elogiárão a V. Excellencia, chamando-o a

grandes coizas; não quizerão que estes talentos jazessem debaixo da

terra; sobre ella, e sobre os mares os fizerão luzir.

Na flor dos annos, quando as paixões, os exemplos, a natureza abrem

guerra viva ao coração do homem, então vio a severa Magestade do Senhor

Rei D. João o V, que V. Excellencia tão moço nos annos, era já ancião

no conselho, e nos costumes, queria o seu voto nos Tribunaes, e o seu

braço nas Armadas, negros ventos, mares cavados, ferro, sangue, erão os

leitos brandos, em que V. Excellencia hia descançar das honrozas fadigas

da terra.

Que direi do Augusto, Piedozo, e ainda de fresco banhado das nossas

lagrimas, o Senhor Rei D. Jozé o I.? O merecimento, junto com a

semelhança dos genios, e de idades, puzerão sempre a V. Excellencia ao

lado daquelle Monarca; mandou-lhe que acceitasse novos, e importantes

Empregos; recebeo mil provas do seu poder, e da sua familiaridade, e

entre ellas aquella, que V. Excellencia não disse, mas que todos sabem;

aquella de que V. Excellencia nunca poderá lembrar-se sem dôr, e sem

gloria.

Os Benignos, e Amaveis Soberanos, que vemos sobre o Throno, puzerão o

Sêllo na Obra, que seus Augustos Predecessores tinhão começado;

encarregárão a V. Excellencia dos mais importantes Negocios do Estado: a

madureza nos conselhos, o sevéro espirito de inteireza, os Reis, a Lei,

a utilidade pública, são os objectos, que vírão sempre na frente dos

cuidados de V. Excellencia.

Mas, Senhor, eu vou abuzando da bondade, com que V. Excellencia se digna

ouvir-me: eu converto a minha falla ao Throno do Todo-poderozo, que tem

na sua mão as vidas, e os successos dos homens; alli peço ardentemente,

que dilate, que prospére tão bem cultivados annos; que conserve em V.

Excellencia o bom Pai, o Vassallo zelozo, o grande Ministro.

Vós, Illustres Mortos, antigos Instituidores da Caza de Angeja, que

trouxestes no peito o Sangue de dois Reis, não peçais conta delle;

descançai em paz nos frios moimentos, cheios de Victorias, cheios de

Serviços, que pagárão Deos, e os Reis por quem se fizerão. O vosso

Herdeiro he digno de Vós; caminha sobre as vossas pizadas; herdou os

vossos Titulos, e as vossas Virtudes.

E Vós, Moços Illustres, seus dignos Filhos, cujos costumes, frutos do

exemplo, são alto elogio da mão, que vos educa, já os Reis vos chamão;

querem nos Filhos perpetuar o Pai. Os largos, e felices annos, que o Ceo

lhe concederá de vida, serão a vossa escola. Servi os Reis, e a Patria;

sacrificai-lhe os vossos annos, e as vossas fadigas; sede affaveis,

justos, inteiros; sede como elle.

Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II · 第 34 / 41 题