CANTIGAS

_Feitas nas caldas com o Estribilho_.

_Olhos meus, cansados olhos,

O vosso officio he chorar_.

Nas Caldas, nas tristes Caldas

Alegria vim buscar;

Quiz de noíte ver o Sol,

Quiz achar fogo no mar.

_Olhos meus, etc._

Que importa mudar de terra,

E baldados passos dar,

Se a toda a parte a que os volto

Vai comigo o meu pezar.

_Olhos meus, etc._

Vejo pálidos doentes

Pela Copa passear,

Oiço de antigas molestias

Tristes effeitos contar.

_Olhos meus, etc._

Vejo nas férvidas aguas

Mirrados corpos banhar,

E de balde aos surdos Ceos

Convulsos braços alçar.

_Olhos meus, etc._

Vejo de perdido pranto

Tristes ais acompanhar,

Com as lagrimas alhêas

Vou as minhas misturar.

_Olhos meus, etc._

Que importa ver Ninfas bellas,

Se accrescentão meu pezar?

Gostão de attrahir os olhos,

E as almas tyrannlzar.

_Olhos meus, etc._

Ao som de feridas cordas

Dão doces vozes ao ar,

Quaes enganozas Serêas,

Que cantão para matar.

_Olhos meus, etc._

Se o meu pobre coração

Se deixa huma vez tocar,

Com escarneos, com rizadas,

Meu pranto vejo pagar.

_Olhos meus, etc._

Fartai-vos, pois, olhos meus

De lagrimas derramar;

Vós nascestes para tristes,

E escolhestes o lugar.

_Olhos meus, etc._

_A hum Leigo, que era vesgo, e que nunca teve fastio; e a quem por acazo

tocou na cabeça a ponta de hum espadim_.

Ferio sacrilega espada,

Alçada por mão traidora,

Cabeça, que sempre fôra

Té aos Barbeiros vedada;

D'entre a grenha profanada

Corre o sangue á terra dura;

Tosquiou-se a matadura;

E o casco rebelde a ordens,

Precizou destas desordens

Para ter Prima Tonsura.

Feroz Soldado imprudente,

Que nova espada esgrimio,

Foi o ímpio que ferio

Esta victima innocente;

A quem do golpe insolente

O motivo lhe procura,

Diz que fez compra segura;

Pois duvidozo na escolha,

Quiz ver que tal era a folha,

Cortando por coiza dura.

Homem de tenção damnada,

Só tu conseguiste o fim

De entrar o teu espadim

Aonde não entra nada;

Da repentina estocada

Cahe o Padre desmaiado;

Mas quando recuperado

A ti os olhos volveo,

Sabes o que te valeo?

Foi teres já almoçado.

Todo o Mundo te pragueja,

Porque em detestavel guerra

Hias deitando por terra

Esta columna da Igreja;

Mas se triunfaste a inveja,

E o Padre morresse então,

Dize, ó ímpío coração,

Que tanto em furor te atiças,

Quem ajudaria ás Missas?

Quem tocaria ao Sermão?

Quem nos daria a certeza

De haver outro homem sizudo,

Que pudesse comer tudo

Ouanto se puzer na meza?

Da próvida Natureza

Quem havia as Leis seguir!

Observante em digerir

Qual outro havia saber

Depois de acordar, comer,

Depois de comer, dormir!

Que importa, ó cruel Soldado,

Para desculpar teu erro

Ter sido o teu ímpio ferro

Já pela Patria arrancado?

Que importa que em campo armado

Junto a si Lippe te veja,

Que importa que o Mundo seja

Das tuas acções o abono,

Se a mão que defende o Throno,

Ataca depois a Igreja?

E tu, que segues os trilhos,

Que S. Francisco te fez,

E pões os teus gordos pés

Sobre os seus santos ladrilhos;

Pois que a seus devotos filhos

Guarda no Ceo largas pagas,

Nos olhos he bem que o tragas,

E de modélo não mudes;

E pois não he nas virtudes,

Que o seja ao menos nas chagas.

_Estando o A. doente, e mandando pedir algum prato á meza, aonde jantava

o sobredito Leigo_.

Hum estomago cansado,

De cuja antiga ruina

Tem sido cauzas iguaes

A molestia, e a Medicina;

Que tendo em si dos tres Reinos

As perigozas heranças,

Só não bebeo das Boticas

Os S. Migueis, e as balanças;

Hum estomago sem forcas,

E ás leis geraes ínfiel,

Que não trabalha em diamante,

Como o de Fr. Manoel;

Que não tem, como este Padre,

Tanta fome obediente;

E olha já para a gallinha

Como elle olha para a gente;

Para emendar semrazões,

Que faz Arte, e Natureza,

Vai, fugido das Boticas,

Acoitar-se á vossa meza;

Mil vezes por outra cauza

Teve a honra de bussalla;

Indo então por matar fome,

Vai hoje por despertalla;

Perdiz, ou branda vitella,

São deste remedio o nome;

Da vossa esplendida meza

Seja elogio huma fome;

E porque o Padre o não saiba,

Será a melhor cautella,

Mandar tirar a iguaria

Quando elle olhar para ella.

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez, de Ponte de Lima,

Ministro de Estado, pedindo-lhe o A. licença para ir ao remedio de

banhos, na occazião em que o mesmo Senhor se tinha encarregado de lhe

promever a mercê de se imprimirem as suas Obras na Officina Regia_.

Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II · 第 26 / 41 题