HAMLET
Fica pois ajustado, segue aquelle senhor, e só te peço que não zombes
d'elle. (O actor sáe.)
HAMLET (a Rosencrantz e Guildenstern)
Meus bons amigos, até á noite, estimei vel-os em Elsenor.
ROSENCRANTZ
Meu senhor. (Sáe com Guildenstern.)
HAMLET
Finalmente estou só. Que miseravel eu sou! Pois não será monstruoso que
este actor, n'uma ficção, na expressão de uma dor simulada, podesse
elevar a sua alma, identificando-se com a sua parte, exaltando-se a
ponto de empallidecer, de lhe borbulhar o pranto nos olhos, de se lhe
pintar o desespero nas feições, entrecortada está a sua voz, e o seu
todo faz uma verdade, de que não é senão uma situação fingida! E tudo,
por quem? por Hecuba; que é Hecuba para elle, ou elle para Hecuba, para
que a sua memoria lhe arranque lagrimas tão sentidas? Que faria elle no
meu logar, se tivesse tantos motivos de dor, quantos eu tenho. Inundava
de pranto a scena, aterrava os espectadores pela sua expressão terrivel,
fulminava o culpado, atemorisava o innocente; attonitas ficavam as almas
simples, e a commoção aos sentidos da vista e do ouvido seria geral. E
eu, alma tibia, intelligencia confusa, fico n'uma estupida inacção,
indifferente á minha propria causa, e nada acho que dizer, nada, mesmo
nada a favor de um rei que perdeu a corôa e a vida pelo mais inaudito
attentado! Ah como sou cobarde! Infame me deveriam chamar,
esbofetear-me, arrancar-me as barbas, lançar-m'as ao rosto com o
desprezo; insultar-me deveriam todos, dizer-me que pela gorja menti, e
obrigar-me a soffrer calado todos os vilipendios possiveis. Quem quer
fazel-o. Por vida minha que era justo; é forçoso que eu seja inoffensivo
como uma pomba sem fel, para levantar uma offensa, para não ter feito
pasto dos abutres as entranhas d'esse miseravel, sanguinario e impudico
scelerado. Monstro de perfidia, juntas ao assassinio o adulterio! Como
sou estupido! É bello na verdade ver-me, a mim, o filho de um rei e pae
assassinado, a quem céus e terra instigam á vingança, gastar a minha
indignação em palavras e vãs imprecações, como a mais vil e desprezivel
prostituta. Que vergonha!! Procuremos Uma idéa... (depois de uma pausa
prolongada) Eil-a, achei. Ouvi dizer que criminosos, assistindo a
representações dramaticas, de tal modo se perturbaram vendo a sua culpa
em scena, que espontanea e immediatamente fizeram confissão do seu
crime, porque o assassino embora mudo trahe-se e falla. Quero que os
actores representem, na presença de meu tio, a morte de meu pae,
observarei as suas feições, sondarei as suas impressões; se se
perturbar, sei o que me cumpre fazer. O espirito que me appareceu talvez
seja um demonio, porque póde revestir-se da fórma de um objecto amado,
tem poder sobre as almas melancholicas, e quem sabe se na minha fraqueza
e dor acha os meios para me perder, condemnando-me para sempre. Quero
ter a certeza completa; o drama em questão será o laço armado á
consciencia do rei. (Sáe.)
Fim do acto segundo
ACTO TERCEIRO
SCENA I
Uma sala no castello de Elsenor
Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
O REI
Então ainda não poderam, nas suas conversas com elle, descobrir a causa
da desordem da sua intelligencia; d'aquella perigosa e turbulenta
demencia que se apoderou do seu espirito e lhe rouba o descanso?
ROSENCRANTZ
Confessa sentir esvaír-se-lhe a rasão; mas não conseguimos que elle nos
revelasse a causa.
GUILDENSTERN
Parece pouco disposto a deixar sondar os seus sentimentos. Na sua
loucura não o abandona um resto de sagacidade; conserva-se na defensiva
todas as vezes que tentâmos encaminhal-o a uma confissão tocante ao seu
estado.
A RAINHA
Recebeu-os bem ao menos?
ROSENCRANTZ
Com toda a affabilidade de um homem bem educado.
GUILDENSTERN
Mas evidentemente constrangido.
ROSENCRANTZ
Perguntando pouco, mas respondendo ás nossas perguntas com a maior
naturalidade.
A RAINHA
E experimentaram algum divertimento para o distrahir?
ROSENCRANTZ
O acaso fez-nos encontrar no caminho alguns actores; fallámos-lhe
n'elles, esta nova pareceu agradar-lhe. Estão aqui no palacio, e creio
já terem recebido ordem para representarem esta noite na sua presença.
POLONIO
É verdade, e pede a vossas magestades que assistam á representação.
O REI
Com o maior prazer; estimo vêl-o assim disposto. Queiram estimulal-o,
senhores, e dirigir a actividade do seu espirito para estes
divertimentos.
ROSENCRANTZ
Assim o faremos. (Sáe com Guildenstern.)
O REI
Deixa-nos tambem, querida Gertrudes. Mandámos chamar secretamente a
Hamlet, para como por acaso o pôr na presença de Ophelia. Seu pae e eu,
legitimos espias, collocar-nos-hemos de maneira que, sem sermos vistos,
assistamos á entrevista e possamos julgar pelas suas palavras, se é um
amor infeliz que assim o faz padecer.
A RAINHA
Obedeço retirando-me. Quanto a ti, Ophelia, desejo ardentemente que os
teus encantos sejam a feliz causa da demencia de Hamlet; porque terei
então esperança que as tuas virtudes o restituirão, a contento de ambos,
ao primitivo estado.
OPHELIA
Quanto o desejo, senhora.
POLONIO
Ophelia, passeia aqui n'esta sala; (ao rei) vamo-nos collocar, senhor;
(a Ophelia) lê n'este livro; esta leitura simulada servirá de pretexto á
tua solidão. Enganâmo-nos tantas vezes, e quão frequentemente acontece,
com uma capa de santidade e attitude reservada conseguirmos fazer um
santo do proprio demonio!
O REI
Oh é bem verdade; que pungente dor esta observação inflige á minha
consciencia! O rosto da prostituta não é mais asqueroso debaixo da
mascara do seu arrebique, do que o é o meu crime debaixo do falso verniz
do meu discurso. Oh peso terrivel!
POLONIO
Hamlet approxima-se, retiremo-nos, senhor. (O rei e Polonio occultam-se
atrás da cortina.)
Entra HAMLET
_Ser ou não ser_, eis o problema. Uma alma valorosa, deve ella supportar
os golpes pungentes da fortuna adversa, ou armar-se contra um diluvio de
dores, ou pôr-lhes fim, combatendo-as? _Morrer, dormir, mais nada_, e
dizer que por esse somno pomos termo aos soffrimentos do coração e ás
mil dores legadas pela natureza á nossa carne mortal; e será esse o
resultado que mais devamos ambicionar? _Morrer, dormir, dormir, sonhar
talvez_; terrivel perplexidade. Sabemos nós porventura que sonhos
teremos, com o somno da morte, depois de expulsarmos de nós uma
existencia agitada? E não deverei eu reflectir? É este pensamento que
torna tão longa a vida do infeliz! Quem ousaria supportar os flagellos e
ultrages do mundo, as injurias do oppressor, as affrontas do orgulhoso,
as ancias de um amor desprezado, as lentezas da lei, a insolencia dos
imperantes, e o desprezo que o ignorante inflige ao merito paciente,
quando basta a ponta de um punhal para alcançar o descanso eterno? Quem
se resignaria a supportar gemendo o peso de uma vida importuna, se não
fosse o receio de alguma cousa alem da morte, esse ignoto paiz, do qual
jámais viajante regressou? Eis o que entibia e perturba a nossa vontade;
eis o que nos faz antes supportar as nossas dores presentes do que
procurar outros males que não conhecemos. Assim, somos cobardes todos,
mas pela consciencia; assim a brilhante côr da resolução se transforma
pela reflexão em pallida e livida penumbra, e basta esta consideração
para desviar o curso das emprezas mais importantes, e fazer-lhes perder
até o nome de acção. Mas silencio, vejo a linda Ophelia. Joven beldade,
lembra-te dos meus peccados nas tuas orações.
OPHELIA
Como tem vossa alteza passado estes dias ultimos?
HAMLET
Bem, agradeço-te do coração.
OPHELIA
Senhor, tenho dadivas e lembranças suas que ha muito lhe desejava
restituir. Permitta-me que lh'as devolva.
HAMLET
Eu! de certo que não, nunca te dei nada.
OPHELIA
O principe sabe perfeitamente que me fez essas dadivas, e as doces
palavras que as acompanharam ainda lhes realçaram o valor; agora que
perderam todo o seu perfume, tome-as, principe, porque para uma alma
nobre, as mais ricas dadivas perdem o seu valor, no momento em que
aquelle que nol-as fez só nos mostra indifferença. Receba-as, pois,
senhor.
HAMLET
Ah, ah, és virtuosa.
OPHELIA
Meu senhor.
HAMLET
És bella.
OPHELIA
Que diz vossa alteza?
HAMLET
Digo que se és virtuosa e bella, deves evitar toda a communicação entre
a tua virtude e a tua belleza.
OPHELIA
Que melhor commercio ha para a belleza que o da virtude?
HAMLET
A influencia da belleza será mais prompta em metamorphosear a virtude em
vil cortezã, do que a força da virtude em transformar a belleza á sua
imagem. Antigamente seria paradoxo, hoje é um facto provado. Amei-te
n'outro tempo, é verdade.
OPHELIA
Vossa alteza bem m'o fez acreditar.
HAMLET
Fizeste mal em acreditar. Porque embora a virtude se inocule na nossa
primitiva natureza, sempre nos ficam restos d'ella. Nunca te amei.
OPHELIA
Maior foi o meu engano.
HAMLET
Professa, Ophelia, encerra-te n'um claustro. Para que queres continuar
uma raça de peccadores; quanto a mim julgo-me ainda assás honesto; e
comtudo podia formular contra mim taes accusações, que melhor teria
valido, que minha mãe me não tivesse dado á luz. Sou orgulhoso,
vingativo e ambicioso; gero no meu cerebro tantas acções más, que o meu
pensamento não basta para as distinguir, nem a minha imaginação para
lhes dar uma fórma, e falta-me o tempo para as executar. Que vantagem
haverá pois que seres como eu se rojem como reptis entre o céu e a
terra? Todos somos infames, não te fies em nenhum homem; vae, recolhe-te
a um claustro. Onde está teu pae?
OPHELIA
Em casa, meu senhor.
HAMLET
Que lhe fechem as portas para impedir que represente de louco fóra de
casa. Adeus.
OPHELIA
Deus misericordioso, tende piedade de Hamlet.
HAMLET
Se alguma vez te casares, dar-te-hei como dote esta triste verdade. Sê
tu fria como o gêlo; se fores pura como a neve a calumnia não te
poupará. Entra para um claustro, professa, adeus. Mas se absolutamente
precisas um marido, então escolhe um louco, porque os homens assisados
sabem em que monstros vós as mulheres os tornaes. Professa, recolhe-te a
um convento, mas avia-te. Adeus.
OPHELIA
Poderes celestes, restitui-lhe a rasão!
HAMLET
Tambem ouvi fallar da vossa loquacidade. Deus deu-vos um porte e vós o
transformaes por vossa culpa. Saltitaes, requebrae-vos; gestos e
affabilidade são artificio, zombaes das creaturas de Deus, e fazeis
passar por ignorancia o que é simples e pura affectação. Nem quero
pensar em vós, mulheres; foi o que me enlouqueceu. Digo que não teremos
mais casamentos, todos que estão casados viverão, excepto um, os outros
ficarão como estão. Professa, entra para um convento, vae. Adeus.
(Hamlet sáe.)
OPHELIA (só)
Oh que nobre intelligencia está ali desthronada. A perspicacia do homem
de côrte, a espada do guerreiro, a palavra do sabio, o futuro d'este
reino, o espelho do bom tom, o typo dos modos nobres, o modelo em que
todos fictavam os olhos, tudo destruido e destruido sem esperança; e eu,
a mais afflicta e infeliz das mulheres, eu que saboreei a inebriante
ambrosia dos seus juramentos de amor, estou condemnada a ver essa
potente e elevada rasão, similhante ao bronze fendido, não dar senão
sons falhos e dissonantes; e tanta belleza e juventude crestadas pelo
sôpro da demencia! Oh infeliz, oh desgraçada, que vi o que vi, e vejo o
que vejo!!!
Sáem de trás da cortina o REI e POLONIO
O REI
O amor! não é a ella que elle dedica a sua affeição; alem d'isso o seu
fallar, aindaque um pouco falto de logica, não tem cunho de loucura. Ha
na sua alma alguma dor secreta. Receio algum perigo que nos seja fatal.
Para prevenir esse resultado, eis o plano que formei e no qual assentei.
Quero que Hamlet parta sem demora para Inglaterra, para reclamar o
tributo a que esse paiz se nega e a que é obrigado. Talvez que o mar, a
mudança de clima, a vista de objectos novos, lhe restituam a rasão,
expulsando do seu coração aquella obstinada preoccupação. Que lhe
parece?
POLONIO
Parece-me acertado. Comtudo persisto na minha idéa, que um amor
desprezado é a causa unica da sua dor. (A Ophelia) Não precisas
referir-nos o que te disse o sr. Hamlet. Tudo ouvimos. (Ao rei) Senhor,
faça o que lhe parecer conveniente, mas se me quer dar ouvidos, diga á
rainha, que, depois da representação, o chame a sós e inste para
conhecer d'elle a causa da sua mágua; porém cumpre que lhe falle
severamente: com o vosso assentimento ouvirei escondido toda a
conversação. Se a rainha não podér penetrar aquelle espirito rebelde a
toda a confidencia, ordene-lhe então a partida, e desterre-o, senhor,
para o logar que a prudencia lhe dictar.
O REI
Concordo plenamente comtigo; nos grandes é que a demencia deve ser mais
vigiada. (Sáem todos.)
SCENA II
Uma sala no castello de Elsenor
Entram HAMLET e differentes actores
HAMLET (a um dos actores)
Não esqueças de dizer aquelle trecho, tal qual o declamei na tua
presença; mais que tudo fogo e energia; mas se o recitares como a maior
parte dos actores, mais me valeria ouvir a minha prosa na bôca de um
pregoeiro. Não movas descompassadamente os braços, acciona
moderadamente; no meio mesmo da torrente, da tempestade, do tufão, da
paixão, procura ser comedido. Nada impressiona mais desfavoravelmente,
do que ver homens robustos reduzirem a pó uma paixão e escorchar os
ouvidos dos assistentes, que, pela maior parte, não merecem senão uma
declamação absurdamente arrebatada e uma acção desordenada. Açoutados
mereciam esses actores, cujo accionado mais parece renhida batalha, e
que mais crueis se fingem que um Herodes de comedia. Peço-te que evites
esses defeitos.
PRIMEIRO ACTOR
Pela minha parte, prometto-lh'o, senhor.
HAMLET
Não vás tambem caír no excesso contrario, sirva-te de guia a tua
intelligencia. Accommoda a acção ás palavras, as palavras á acção, tendo
sempre em vista a naturalidade; só é proprio da scena intelligente, que
foi e é o espelho em que se deve reflectir a natureza, mostrar a virtude
tal qual é, a vaidade sem véu, e cada tempo e cada idade com a sua
physionomia propria e com o cunho de verdade. Se se excede, ou se fica
áquem do fim proposto, poderá excitar-se a hilaridade do homem
ignorante, mas afflige-se o sensato, cujo juizo vale mais que o
suffragio de uma sala inteira. Oh! vi representar e ouvi elogiar
actores, que, Deus me perdôe, nada tinham de christão na voz, nada de
christão, pagão ou mesmo humano no porte, e que se estorciam e bramavam
de tal modo, que sempre os julguei obra de algum aprendiz da natureza,
que, querendo fabricar homens, errou a vocação, e não tinha produzido
senão uma desgraçada imitação da humanidade.
PRIMEIRO ACTOR
Espero em Deus, que vossa alteza não nos poderá notar taes defeitos;
entre nós, senhor, estão banidas de todo as exagerações.
HAMLET
Mas que o estejam na verdade; que os bobos não digam mais do que ao que
são obrigados pela sua parte; alguns ha que introduzem alguma facecia
para excitar o riso dos espectadores ignaros no ponto em que mais
attenção se reclama da parte do publico. É um desacerto, e o bobo que
recorre a esses expedientes, mostra uma pretensão desgraçada. Vão-se
agora preparar. (Os actores sáem.)
Entram POLONIO, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
HAMLET (a Polonio)
Então o rei está decidido á nossa peça?
POLONIO
Com certeza, e a rainha tambem. Não tardam.
HAMLET
Diga então aos actores que se aviem. (Polonio sáe.)
HAMLET (continuando, a Rosencrantz e Guildenstern.)
Querem fazer-me o favor de tambem ir apressar os preparativos.
AMBOS
Sim, meu senhor. (Sáem.)
Entra HORACIO
HAMLET
Ah, és tu, Horacio?
HORACIO
Estou sempre ás suas ordens, meu senhor.
HAMLET
Meu caro Horacio, és a flor dos homens, cujo trato tenho cultivado.
HORACIO
Meu querido senhor.
HAMLET
Não julgues que te lisonjeio; que posso eu esperar de ti, cujas unicas
rendas são a jovialidade e a honestidade. Quem lisonjeia um pobre? Não,
que a lisonja roja-se aos pés da opulencia estupida, e o servilismo
curva o joelho, á espera do comprador. Escuta, depois que a minha alma
pôde livremente escolher e soube distinguir os homens, marcou-te com o
sêllo da predilecção, porque reconheceu em ti um homem que não se abate
pelos revezes; um homem que acceita com a mesma indifferença os favores
e os rigores da fortuna; felizes os mortaes em quem o juizo e as paixões
têem igual imperio, e não são um joguete nas mãos da fortuna. Mostrem-me
um homem que não seja escravo das paixões, e terá conquistado, como tu,
o meu coração, e abrir-lhe-hei o santuario da affeição mais íntima.
Basta sobre o assumpto. Deve-se hoje representar na presença do rei um
drama, no qual ha uma scena, que é a historia da morte de meu pae, cujos
pormenores já em tempo te contei. Quando se approximar a scena, observa
meu tio, com toda a vigilancia que auctorisam as minhas suspeitas; se o
segredo do seu crime se não revelar por alguma palavra, então era a
apparição obra do demonio, e as minhas imaginações são mais negras que
as lavas e cinzas de um vulcão. Tu observa-o attentamente, eu não o
perderei de vista; depois, juntando os nossos juizos, concluiremos
conforme ao que virmos.
HORACIO
Muito bem, senhor, tão firme estarei no meu posto de observação, que
juro por Deus, que me não escapará um movimento, uma impressão da sua
alma.
HAMLET
Eil-os que chegam para a representação; agora, cumpre-me ser espectador
indifferente. (Ouve-se a marcha real e clarins.)
Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e a
CORTE
O REI
Como passa nosso sobrinho Hamlet?
HAMLET
Melhor não póde ser; em verdade passei a viver como os camaleões,
nutro-me só de ar, e alimento-me de promessas, as iguarias mais finas
não me satisfariam melhor.
O REI
A tua resposta é-me inintelligivel; não é de certo a mim que ella é
dirigida.
HAMLET
Pois nem a mim. (A Polonio.) Não me disse que já tinha representado uma
vez, quando cursava a universidade?
POLONIO
É verdade, senhor, e era reputado um habil actor.
HAMLET
Que parte representou?
POLONIO
A de Julio Cesar; assassinaram-me no capitolio; Bruto apunhalava-me.
HAMLET
Que brutalidade apunhalar, e n'aquelle logar, um tão excellente bezerro.
Os actores já estão promptos?
ROSENCRANTZ
Sim, meu senhor, esperam só as ordens.
A RAINHA
Vem, meu Hamlet, sentar-te a meu lado.
HAMLET
Não, minha mãe; (mostrando Ophelia) este metal tem mais força de
attracção.
POLONIO
Que me diz agora, senhor?
HAMLET
Ser-me-ha permittido estar a vossos pés, senhora? (Senta-se no chão aos
pés de Ophelia.)
OPHELIA
Não, meu senhor.
HAMLET
Queria dizer, recostar a cabeça sobre vossos joelhos.
OPHELIA
Sim, meu senhor.
HAMLET
Pensaveis talvez que tivesse outra idéa?
OPHELIA
Nada pensava.
HAMLET
É um pensamento este digno de um coração de donzella.
OPHELIA
O que, senhor?
HAMLET
Nada.
OPHELIA
Vejo-o hoje alegre, senhor.
HAMLET
Quem, eu?
OPHELIA
Sim, vossa alteza.
HAMLET
Sou o seu bobo e nada mais. Cousa alguma ha melhor para o homem do que a
alegria. Repare, veja como minha mãe está hoje muito alegre, e ainda não
ha duas horas que meu pae morreu.
OPHELIA
Vossa alteza engana-se por certo; ha mais de duas vezes dois mezes.
HAMLET
Tanto tempo!! n'esse caso use o demonio o lucto, eu quero vestir-me de
arminhos. Oh céus, morto ha dois mezes, e ainda não esquecido, não é
então de estranhar que a recordação de um grande homem dure mais de seis
mezes; mas, pela Virgem Santa, deve então ter edificado igrejas, aliás
arriscava-se a que o esquecessem, como aquelle a quem lavraram este
epitaphio:
_Aqui jaz esquecido um cavallo de pau._
Soam os clarins, começa a pantomima
(Um rei e uma rainha entram em scena, o seu aspecto é de namorados,
abraçam-se. A rainha ajoelha aos pés do rei, mostrando pelos seus gestos
que lhe protesta o mais vivo amor. O rei levanta-a, e inclina a cabeça
sobre o seu hombro; depois deita-se n'um banco coberto de flores. A
rainha vendo-o adormecido, sáe. Apparece um personagem que lhe tira a
corôa e a leva aos labios, lança veneno n'um ouvido do rei, e sáe em
seguida. Volta a rainha, acha o rei morto, e dá mil signaes de
desespero. O envenenador seguido por duas ou tres pessoas, chega e
parece lamentar-se com a rainha. O cadaver é levado da scena. O
envenenador requesta a rainha, dá-lhe presentes. Ella mostra a principio
repugnancia, mas acaba por acceitar o amor offerecido. Sáem.)
OPHELIA
Que significa esta scena, senhor?
HAMLET
Nada que seja bom, é um laço armado ao crime.
OPHELIA
Esta pantomima indica sem duvida o entrecho da peça?
Entra o PROLOGO
HAMLET
Vamos sabel-o, os comediantes não podem guardar um segredo, têem por
costume fallar sempre.
OPHELIA
Explicará elle o que significa a pantomima?
HAMLET
Sem duvida, não só essa, mas todas as que lhe quizer apresentar,
qualquer que seja a sua especie, e terá a explicação prompta.
OPHELIA
O principe é mau, deixe-me seguir a peça.
O PROLOGO
Pedimos, para nós, toda a vossa indulgencia;
Para a nossa tragedia, attenta paciencia.
HAMLET
Parece antes divisa de annel do que prologo.
OPHELIA
Tão curto, senhor.
HAMLET
Como o amor de uma mulher.
Entram um REI e uma RAINHA
O REI DA PEÇA
Trinta vezes de Phebo o carro luminoso
De Tellus e Neptuno, o largo giro ha feito,
E trinta vezes doze a lua, astro saudoso,
De refrangida luz, á terra ha dado o preito,
Desde que as nossas mãos, com mutuo amor se deram,
E as bençãos d'Hymeneu o sacro nó teceram.
A RAINHA DA PEÇA
Possamos lua e sol, ver outras tantas vezes,
Antes que d'este amor se rompa o doce laço;
Mas seguem-se á ventura as maguas, os revezes,
E vejo-vos caído, ha pouco, em tal cansaço,
Tão triste, meu senhor, tão triste e tão mudado,
Que não posso esconder mais tempo o meu cuidado.
Mas que não se perturbe o vosso animo forte
Porque inquieta eu sou, e ousei pensar na morte.
De affecto e de anciedade igual medida temos,
Ou nullos um e o outro, ou um e o outro extremos.
Se é grande o meu amor, demais senhor o vêdes,
Que a par anda o receio, em minha fronte o lêdes.
Sempre que o amor é grande, as apprehensões mais breves
Transformam-se de prompto em maximos temores;
Quando é grande o receio, os affectos mais leves
Ascendem de repente aos mais grandes amores.
O REI DA PEÇA
Bem cedo é força, amor, que d'este mundo eu parta,
Bem vês, d'esta alma a luz já quasi que se aparta.
Tu viverás sem mim, sob este céu formoso,
Querida, idolatrada e sempre honesta e casta.
Depois, talvez depois, quem sabe? um novo esposo...
Um homem justo e bom...
A RAINHA DA PEÇA
Oh! basta, senhor, basta!
Seria um novo amor perfidia negra e infame.
Amaldiçoado seja o dia em que outro eu ame!
Embora justo e bom, segundo companheiro
Não n'o acceita ninguem, sem ter morto o primeiro.
HAMLET
Isto é absintho, e que absintho!
A RAINHA DA PEÇA
Poisque motivo arrasta a viuva ao casamento?
Acaso um novo amor? um nobre sentimento?
Um sordido interesse: e eu cravára no peito
De meu morto senhor a ponta de uma espada,
Cada vez que, olvidando a antiga fé jurada,
Compartisse outro ser commigo o mesmo leito.
O REI DA PEÇA
Creio bem, que pensaes o que dizeis, se creio?!
Mas quanta, oh! quanta vez, se quebra a acção no meio,
Nasce a resolução escrava da memoria,
Producto da violencia, é curta a sua historia.
A fructa emquanto verde em qualquer ramo atura
Mas, sem abalo algum, tomba apenas madura.
Fatalmente olvidando o que a nós nos devemos
Não pagâmos jámais, a divida esquecemos.
O que durante a dor parece a eternidade,
Mal extincta a paixão, cessa de ser vontade.
O jubilo e o martyrio, ainda os mais completos,
Destruindo-se a si, destroem seus decretos.
Onde o prazer mais ri, mais chora a dor pungente;
Entristece a alegria, alegra-se a tristeza,
Á causa mais subtil, ao mais leve accidente,
E este um dom fatal da vária natureza.
Passâmos pelo mundo, e nada aqui tem dura
Que até o proprio amor muda com a ventura;
Porque é problema ainda occulto aos pensadores
Se dá o amor fortuna, ou se a fortuna amores.
Um principe decáe? somem-se os que os adulam;
Um mendigo se eleva? os amigos pullulam.
Até aqui o amor seguiu sempre a fortuna;
Quem não precisa encontra em toda a parte amigos,
E quem precisa e pede, é lepra que importuna,
Todos transforma e muda em feros inimigos,
Mas para concluir, escuta o corollario:
A vontade e o destino, andam tanto ao contrario
Que o mais leve projecto é sempre letra morta.
Assim crês, não terás jamais outro marido;
Pois abra-me o sepulchro a sua eterna porta
E tudo irá sumir-se em um perpetuo olvido.