Na vespera do dia em que se completou o primeiro mez da morte de Flora,
Pedro teve uma ideia, que não communicou ao irmão. Não perderia nada em
fazel-o, porque Paulo teve a mesma ideia, e tambem a calou. Della nasce
este capitulo.
A pretexto de ir visitar um doente, Pedro saiu de casa, antes das
sete horas. Paulo saiu pouco depois, sem pretexto algum. Pia leitora,
adivinhas que ambos fôram ao cemiterio; não adivinhas, nem é facil
adivinhar que cada um delles levava uma grinalda. Não digo que fossem
das mesmas flores, não só para respeitar a verdade, senão tambem para
afastar qualquer ideia intencional de symetria na acção e no acaso.
Uma era de myosotis, outra creio que de perpetuas. Qual fosse a de um,
qual a do outro, não se sabe nem interessa á narração. Nenhuma tinha
letreiro.
Quando Paulo chegou ao cemiterio, e viu de longe o irmão, teve
a sensação de pessoa roubada. Cuidava ser unico e era ultimo. A
presumpção, porém, de que Pedro não levára nada, uma folha sequer,
consolou-o da antecipação da visita. Esperou alguns instantes;
advertindo que podia ser visto, desviou-se do caminho, metteu-se por
entre sepulturas, até ir collocar-se atraz daquella. Ahi esperou cerca
de um quarto de hora. Pedro não se queria arrancar dalli; parecia falar
e escutar. Emfim, despediu-se e desceu.
Paulo, vagorosamente, caminhou para a sepultura. Indo a depositar a
grinalda, viu alli outra posta de fresco, e entendendo que era do
irmão, teve impeto de ir atraz delle e pedir-lhe contas da lembrança e
da visita. Não lhe leves a mal o impeto; passou immediatamente. O que
elle fez foi collocar a coroa que levava no lado correspondente aos
pés da defunta, para não a irmanar com a outra, que estava do lado da
cabeça.
Não viu, não adivinhou sequer que Pedro naturalmente pararia um
instante, para voltar a cara e mandar um derradeiro olhar á moça
enterrada. Assim foi, mas quando Pedro deu com o irmão, no mesmo logar
que elle, os olhos no chão, teve tambem o seu impulso de ir buscal-o
e trazel-o daquella cova sagrada. Preferiu esconder-se e esperar. Os
gestos de piedade, quaesquer que fossem, elle os deu primeiro á querida
commum. Foi o primeiro em evocar a sombra de Flora, falar-lhe, ouvil-a,
gemer com ella a separação eterna. Viera adiante do outro; lembrara-se
della mais cedo.
Assim consolado, podia seguir caminho; Paulo, se saisse atraz delle,
e o visse, entenderia que fizera a sua visita em segundo logar, e
receberia um golpe grande. Deu alguns passos na direcção do portão,
estacou, recuou e novamente se escondeu. Queria ver os gestos delle,
ver se rezava, se se benzia, para desmentil-o quando lhe ouvisse mofar
das ceremonias ecclesiasticas. Logo sentiu que era um erro; não iria
confessar a ninguem que o vira rezando ao pé da cova de Flora. Ao
contrario, era capaz de o desmentir,--ou, quando menos, fazer um gesto
de incredulidade...
Emquanto estas imaginações lhe passavam pela cabeça, desfazendo-se
umas ás outras, discursando sem palavras, acceitando, repellindo,
esperando, os olhos não se retiravam do irmão, nem este da sepultura.
Paulo não fazia gesto, não mexia os labios, tinha os braços cruzados,
o chapeo na mão. Não obstante, podia estar rezando. Tambem podia
falar calado, para a sombra ou para a memoria da defunta. A verdade é
que não saiu do logar. Então Pedro viu que a conversação, evocação,
adoração, o que quer que fosse que atava Paulo á sepultura, vinha sendo
muito mais demorado que as suas orações. Não marcára o seu tempo, mas
evidentemente o de Paulo era já maior. Descontando a impaciencia,
que sempre faz crescer os minutos, ainda assim parecia certo que
Paulo gastava mais saudades que elle. Deste modo, ganhava na extensão
da visita o que perdera na chegada ao cemiterio. Pedro, á sua vez,
achou-se roubado.
Quiz sair; mas, uma força, que elle não sabia explicar, não lhe
consentia levantar os pés, nem tirar os olhos do gemeo. A custo, pôde
emfim trazer a estes e fazel-os andar de volta pelas outras campas,
onde leu alguns epitaphios. Um de 1865 não se podia ler bem se era
tributo de amor filial ou conjugal, maternal ou paternal, por estar
já apagado o adjectivo. Tributo era, tinha a formula adoptada pelos
marmoristas, para poupar estylo aos freguezes. Notando que o adjectivo
estava comido do tempo, Pedro disse comsigo que o seu amor é que era um
substantivo perpetuo, não precisando mais nada para se definir.
Pensou outras cousas com que foi disfarçando a humilhação. Fizera tudo
ás carreiras. Se se demorasse mais, era o outro que estaria agora
á espreita. O tempo andava, o sol batia no rosto do irmão, e este
não arredava pé. Emfim, deu mostras de deixar a cova, mas foi para
rodeal-a, e deter-se em todos os quatro lados, como se buscasse o
melhor logar de ver ou evocar a pessoa guardada no fundo.
Tudo feito, Paulo arredou-se, desceu e saiu, levando as maldições
de Pedro. Este teve uma ideia que desprezou logo, e tu farias o
mesmo, amigo leitor; foi tornar á sepultura e emendar ao tempo gasto
anteriormente outro pedaço maior. Desprezada a ideia, vagou alguns
minutos, até que saiu, sem achar sombra de Paulo.