Não querendo dar a resposta nua e crua, D. Rita consultou a moça, que
lhe respondeu simplesmente:
--Diga que não pretendo casar.
Quando Nobrega recebeu as poucas linhas que D. Rita lhe mandou, ficou
assombrado. Não contava com recusa. Ao contrario, era tão certa a
acceitação que elle tinha já um programma do noivado. Imaginava a
moça, os olhos timidos, a bôca cerrada, o veu que lhe cobriria a linda
carinha, a delicadeza delle, as palavras que lhe diria entrando em
casa. Tinha já composto uma invocação á Mãe Santíssima, para que os
fizesse felizes. «Dou-lhe carro, dizia comsigo, joias, muitas joias, as
melhores joias do mundo... » Nobrega não fazia ideia exacta do mundo;
era uma expressão. «Hei de dar-lhe tudo, sapatinhos de seda, meias de
seda, que eu mesmo lhe calçarei...» Estremecia de cór, ao calçar-lhe as
meias. Beijava-lhe os pés e os joelhos.
Tinha imaginado que ella, ao ler a carta, devia ficar tão pasmada e
agradecida, que nos primeiros instantes não pudera responder a D.
Rita; mas logo depois as palavras sairiam do coração ás golfadas.
«Sim, senhora, queria, acceitava; não pensara em outra cousa.»
Escreveria logo ao pae e á mãe para lhes pedir licença; elles viriam
correndo, incredulos, mas, vendo a carta, ouvindo a filha e D. Rita,
não duvidariam da verdade, e dariam o consentimento. Talvez o pae
lh'o fosse dar em pessoa. E nada, nada, nada, absolutamente nada, uma
simples recusa, uma recusa atrevida, porque em fim quem era ella,
apesar da belleza? Uma creatura sem vintem, modestamente vestida, sem
brincos, nunca lhe vira brincos ás orelhas, duas perolasinhas que
fossem. E porque é que lhe furaram as orelhas, se não tinham brincos
que lhe dar? Considerou que ás mais pobres meninas do mundo furam as
orelhas para os brincos que lhes possam cair do céu. E vem esta, e
recusa os mais ricos brincos que o céu ia chover sobre ella...
Ao jantar, os amigos da casa notaram que elle estava preoccupado.
De noite, elle e o secretario sairam a pé. Nobrega buscou em si o
gesto mais frio e indifferente que pôde, quasi alegre, e annunciou ao
secretario que Flora não queria casar. Não se descreve a admiração do
secretario, em seguida a consternação, finalmente a indignação. Nobrega
respondia magnanimo:
--Não foi por mal; foi talvez por se julgar abaixo, muito abaixo da
fortuna. Creia que é boa moça. Póde ser tambem, quem sabe? Por ter sido
um mau conselho do coração. Aquella moça é doente.
--Doente?
--Não affirmo; digo que póde ser.
O secretario affirmou.
--Só a doença, disse elle, explicará a ingratidão, por que o acto é de
pura ingratidão.
Aqui tornou a nota da indignação, nota sincera, como as outras. Nobrega
gostou de ouvil-a; era um compadecimento. No fim, cumpriu a ideia que
trazia ao sair de casa; augmentou-lhe o ordenado. Podia ser a paga
da sympathia; o beneficiado foi mais longe, achou que era o preço do
silencio, e ninguem soube de nada.