Tão longo foi o abraço que tomou o resto ao capitulo. Este começa
sem elle nem outro. O mesmo aperto de mão de Ayres e Flora, se foi
demorado, tambem acabou. O almoço fez gastar algum tempo mais que de
costume, porque Ayres, além de conversador emerito, não se fartava de
ouvir as duas, principalmente a moça. Achava-lhe um toque de languidez,
abatimento ou cousa proxima, que não encontro no meu vocabulario.
Flora mostrou-lhe os desenhos que fizera, paisagens, figuras, um pedaço
da estrada da Tijuca, um chafariz antigo, um _Principio de casa._ Era
umas dessas casas, que alguem começou muitos annos antes, e ninguem
acabou, ficando só duas ou trez paredes, ruina sem historia. Havia
ainda outros desenhos, uma revoada de passaros, um vaso á janella.
Ayres ia folheando, cheio de curiosidade e paciencia; a intenção da
obra suppria a perfeição, e a fidelidade devia ser approximada. Emfim,
a moça atou os cordões á pasta. Ayres, parecendo-lhe que ficara um
desenho ultimo r escondido, pediu que lh'o mostrasse.
--É um esboço, não vale a pena.
--Tudo vale a pena; quero acompanhar as tentativas da artista; deixe
ver.
--Não vale a pena...
Ayres insistiu; ella não pôde recusar mais tempo, abriu a pasta,
e tirou um pedaço de papel grosso em que estavam desenhadas duas
cabeças juntas e eguaes. Não teriam a perfeição desejada por ella; não
obstante, dispensavam os nomes. Ayres considerou a obra, durante alguns
minutos, e duas ou trez vezes levantou os olhos para a autora. Flora
já os esperava, interrogativa; queria ouvir o louvor ou a critica, mas
não ouviu nada. Ayres acabou de observar as duas cabeças, e pousou o
desenho entre os papeis.
--Não lhe dizia que era um esboço? perguntou Flora, a ver se lhe
arrancava uma palavra.
Mas o ex-ministro preferiu não dizer nada. Em vez de achar quasi
extincta a influencia dos gemeos, vinha dar com ella feita consolação
da ausencia, tão viva que bastava a memoria, sem presença dos modelos.
As duas cabeças estavam ligadas por um vinculo escondido. Flora,
vendo continuar o silencio de Ayres, comprehendeu acaso parte do que
lhe passava no espirito. Com um gesto prompto, pegou do desenho e
deu-lh'o. Não lhe disse nada, menos ainda escreveu qualquer palavra.
Qualquer que fosse, seria indiscreta. De mais, era o unico desenho
a que ella não pôz assignatura. Deu-lh'o como se fôra um penhor de
arrependimento. Em seguida, atou novamente as fitas da pasta, emquanto
Ayres, rasgava calado o desenho e mettia os pedaços no bolso. Flora
ficou por um instante parada, bôca entre-aberta, mas logo lhe apertou
a mão, agradecida. Não pôde evitar que lhe caissem duas pequeninas
lagrimas,--como outras tantas fitas que lhe atavam para sempre a pasta
do passado.
A imagem não é boa, nem verdadeira; foi a que acudiu ao conselheiro,
andando, ao voltar de Andarahy. Chegou a escrevel-a no _Memorial_,
depois riscou-a, e escreveu uma reflexão menos definitiva: «Talvez seja
uma lagrima para cada gemeo.»
--Póde acabar com o tempo, pensou elle indo para a barca de Petropolis.
Não importa; é um caso embrulhado.