Às nove horas da manhã seguinte, Natividade estava prompta para ir á
missa que mandava dizer na matriz da Gloria; nenhum dos filhos se lhe
apresentou.
--Parece que dormem.
E duas, trez, quatro, cinco vezes, foi até á porta do quarto a ver
se ouvia rumor, como resposta ao bilhete que deixara. Nada. Concluiu
que teriam entrado tarde. Só não atinou que dormissem sobre o ajuste,
nem que ajuste era. Uma vez que o fizessem em cama fôfa, tudo ia bem.
Emfim, acabou de calçar as luvas, desceu, entrou no carro e foi para a
egreja.
A missa era anniversaria, como dizia o bilhete. Uso velho; o pae
tinha a sua missa, a mãe outra, os irmãos e parentes outras. Não
lhe esqueciam datas obituarias, como não lhe esqueciam natalicias,
quaesquer que fossem, amigas ou parentas; trazia-as todas de cór. Doce
memoria! Ha pessoas a quem não ajudas, e chegam a brigar comsigo e com
outros por abandono teu. Felizes os que tu proteges; esses sabem o
que é 24 de março, 10 de agosto, 2 de abril, 7 e 31 de outubro, 10 de
novembro, o anno todo, suas tristezas e alegrias particulares.
Voltando á casa, viu Natividade os dous filhos no jardim, á espera
della. Elles correram a abrir-lhe a portinhola do carro, e depois de a
apearem e lhe beijarem a mão, explicaram a falta. Tinham resolvido ir
ambos, mas o somno...
--O somno e a preguiça, concluiu a mãe rindo.
--Foi só o somno, disse Pedro.
--Accordamos agora mesmo, acabou Paulo.
Disputaram dar-lhe o braço; Natividade os satisfez dando um braço a
cada um. Em casa, ao mudar de roupa, Natividade reflectiu que, se Flora
lhes tivesse feito algum pedido, elles accordariam cedo, por mais tarde
que se deitassem; a memoria serviria de despertador. Passou-lhe uma
sombra rapida, mas depressa se reconciliou com a differença. Assim que,
não foi por ciume, mas para os trazer a outras seducções e separal-os
da guerra ante a bella Flora, que a mãe teimou em levar os filhos para
Petropolis. Subiriam na primeira semana de janeiro. A estação seria
excellente; annunciou festas, citou nomes, notou-lhes que Petropolis
era a cidade da paz. O governo póde mudar cá embaixo e nas provincias...
--Que provincias, mamãe? atalhou Paulo.
Natividade sorriu e emendou.
--Nos Estados. Vae desculpando os descuidos de tua mãe. Bem sei que
são Estados; não são como as provindas antigas, não esperam que o
presidente lhes vá aqui da Côrte...
--Que Côrte, baroneza?
Agora os dous riram, mãe e filho. Passado o riso, Natividade continuou:
--Petropolis é a cidade da paz; é, como dizia outro dia o conselheiro
Ayres, é a cidade neutra, é a cidade das nações. Se a capital do Estado
fosse alli, não haveria deposição de governo. Petropolis,--vejam vocês
que o nome, apesar da origem, ficou e ficará,--é de todos. A estação
dizem que vae ser encantadora...
--Eu não sei se posso ir já, disse Paulo.
--Nem eu, acudiu Pedro.
Ainda uma vez estavam de accordo, mas aqui o accordo trazia
provavelmente o divorcio, reflectiu a mãe, e o prazer que lhe deram
aquellas duas palavras morreu depressa. Perguntou-lhes que razão
tinham para ficar e até quando. Se estivessem estabelecidos com o seu
consultorio medico e a sua banca de advogado, era bem; mas, se nenhum
delles começara ainda a carreira, que fariam cá embaixo, quando ella e
o marido...
--Justamente; eu tenho que fazer uns estudos de clinica na Santa Casa,
respondeu Pedro.
Paulo explicou-se. Não ia praticar a advocacia, mas precisava de
consultar certos documentos do século XVII na Bibliotheca Nacional; ia
escrever uma historia das terras possuidas.
Nada era verdade, mas nem só a verdade se deve dizer ás mães.
Natividade ponderou que elles podiam fazer tudo entre as duas barças
de Petropolis; desciam, almoçavam, trabalhavam, e ás quatro horas
subiriam, como a demais gente. Em cima achariam visitas, musica,
bailes, mil cousas bellas, sem contar as manhãs, a temperatura e os
domingos. Elles defenderam o estudo, como sendo melhor por muitas horas
seguidas.
Natividade não teimou. Mais depressa ficaria esperando que os filhos
acabassem os documentos da Bibliotheca e a clinica da Santa Casa. Esta
ideia fel-a attentar para a necessidade de ver estabelecidos o joven
medico e o joven advogado. Trabalhariam com outros profissionaes de
reputação e iriam adiante e acima. Talvez a carreira scientifica lhes
désse a grandeza annunciada pela cabocla do Castello, e não a politica
ou outra. Em tudo se podia resplandecer e subir. Aqui fez a critica de
si mesma, quando imaginou que Baptista abriria a carreira politica de
algum delles, sem advertir que o pae de Flora mal continuaria a propria
carreira, aliás obscura. Mas a ideia do mando tornava a óccupar a
cabeça da mãe, e cheios della os olhos fitavam ora Pedro, ora Paulo.
Chegaram a accordo. Elles subiriam aos sabbados e desceriam ás
segundas; o mesmo por occasião de dias santos e festas de gala.
Natividade contava com o costume e as attracções.
Na barca e em Petropolis era objecto de conversação a differença entre
os filhos, que só iam lá uma vez por semana, e o pae, que trazia tantos
negocios ás costas, e subia todas as tardes. Que fariam elles cá em
baixo, quando alguns olhos podiam attrail-os e agarral-os lá em cima?
Natividade defendia os gemeos, dizendo que um ia á Santa Casa e outro
á Bibliotheca Nacional, e estudavam muito, ás noites. A explicação era
acceitavel, mas, além de fazer perder um assumpto aos bonitos dentes do
verão, podia ser invenção dos rapazes; naturalmente, iriam ás moças.
A verdade é que elles faziam rumor em Petropolis, durante as poucas
horas que lá passavam. Além do mais, tinham a semelhança e a graça.
As mães diziam bonitas cousas á mãe delles, e indagavam da razão
verdadeira que os prendia á capital, não assim como eu digo, nu e cru,
mas com arte fina e insidiosa, arte perdida, porque a mãe insistia na
Bibliotheca e na Santa Casa. Deste geito, a mentira, já servida em
primeira mão, era servida em segunda, e nem por isso melhor acceita.